Saberes (e sabores) guardados: as quitandas e a queca

Há algum tempo, quando escrevemos sobre as mayoras mexicanas, dissemos que elas são incansáveis no trabalho de passar adiante os conhecimentos culinários adquiridos informalmente por meio de suas mães, tias, avós. Agora, nesta terceira coleção que criamos para o Museu da Pessoa, falamos sobre aqueles que acreditamos ser uma versão das mayoras no Brasil: os mestres griôs. Homens e mulheres que, na memória experiente, acumulam variados saberes culturais aprendidos com pais, avós, vizinhos e que, oralmente, os transmitem para filhos, netos e a comunidade como um todo.

Os mestres griôs personalizam algo como a memória viva de um lugar: guardam e repassam as lembranças e os modos de fazer de um tempo e de um contexto cultural que há muito se transformaram, deslocados que ficaram em meio ao crescimento desordenado das grandes cidades. São benzedeiros, pajés, contadores de histórias, poetas populares, cantadores, congadeiros, puxadores de rodas, quituteiros e quituteiras. Dentro das comunidades a que pertencem, são reconhecidos e respeitados como fundamentais guardiões de saberes, da cultura popular e da história local*.

Lucília Francisca de Souza, nascida na zona rural de Nova Lima, em Minas Gerais, em 1942, é mestre griô. Em sua memória afiada, mantém ensinamentos que nunca aprendeu na escola, deixada de lado aos 11 anos de idade, quando ela começou a se dedicar a bordar, a conhecer cantigas de roda, a identificar ervas e raízes, a benzer. Aos 19 anos, ao se perceber mãe de um filho acometido por paralisia infantil, Lucília passou a desenvolver esse dom que, hoje, a faz ser uma benzedeira conhecida na região.

“E um chega, pede para benzer, outro chega, pede. Eu posso estar ocupada, às vezes, até com uma panela no fogo, fazendo almoço. Eu vou lá e desligo e venho benzer aquela pessoa primeiro. […] Eu tenho vontade que vocês aprende, porque ninguém passa isso para frente. Porque, se está sendo bom, a gente tem que procurar passar para frente, para outros aprender, porque senão a gente morre, aquilo acaba.”

Orgulhosa de suas atividades, dona Lucília ainda gostaria de ver sua ocupação de benzedeira viva entre as próximas gerações, como relata no depoimento que deu ao Museu da Pessoa. Também suas aptidões na cozinha, sobretudo na área de doces, ela faz questão de compartilhar. As quitandas, que ela aprendeu a preparar com a mãe em “masseiras” grandes, daquelas de “fazer que chega”, integram os conhecimentos que a mestre griô e quituteira não se cansa de ensinar no boca a boca.

Sendo fiel ao modo como ela prefere transmitir seu conhecimento, é a própria dona Lucília, em seu bom mineirês, quem fala no vídeo acima sobre suas quitandas, nome quase em desuso dado aos quitutes (bolinhos, biscoitos, sequilhos…) em diversas regiões do país – e não só em Minas, onde ainda se mantém como parte do vocabulário do lanche da tarde.

Até o século 19, o serviço de quitandeira era relegado às negras escravas (e, às vezes, também às libertas e mulheres pobres), que vendiam essas receitas em tabuleiros nas ruas como forma de trazer um trocado a mais para seus “senhores”. Com o tempo, esse trabalho ambulante passou a ser realizado dentro de casas simples, que se tornaram, ao menos na cidade de São Paulo, embriões daqueles que seriam seus primeiros cafés.

queca, que dona Lucília menciona com tanto orgulho no vídeo – “até essa nutricionista do [Instituto] Kairós** quer a receita” -, também vem de uma história oitocentista. Por volta dos anos 1830, uma mina da região de Nova Lima passou a ser administrada por um grupo de ingleses que, além da vontade de explorar o ouro, trouxe o passo a passo do christmas cake, que não demorou muito para ser chamado de cake e então virar apenas queca.

Toda quituteira que se preze na cidade e nos arredores sabe preparar essa espécie de bolo inglês com frutas secas, que dona Lucília substitui pelos bem caipiras doces de laranja ou cidra. No vídeo, ela descreve a receita em detalhes salivantes:

QUECA DA DONA LUCÍLIA

  • “Farinha, ovo, fermento e açúcar. Mas para dar ponto, só ovos. Até ficar no ponto de você pegar ela e pôr na forma. Ali vai crescer, vai assar.
  • Na hora que ela está crescendo, você pega o doce, pica o doce, o cidrão [doce de cidra] ou o doce de laranja. Pica os pedaços compridos assim, e põe. Aí ela vai crescendo, os doces vão descendo.
  • Quando você põe no forno, aquele doce já afundou. Quando você tira ela da fôrma, aquele doce está no fundo. Aí você corta o doce, põe ele no meio. Se chama queca.
  • Até essa menina, essa nutricionista lá do Kairós, ela quer essa receita, sabe? Porque ela faz, mas não é igual a nossa. É 1 quilo de farinha e 1 dúzia de ovos. Se fazer 5 quilos são 5 dúzias de ovos.
  • E para bater aquilo? Que é batido nos braços, sabe? Tem que bater, e tem hora que, quando você termina, você está suando. Porque a massa fica muito pesada, né?”

 

 

 

* Desde 2011, tramita no Congresso o projeto de lei para a criação de um programa de proteção e promoção desses mestres da cultura popular, que também poderão ser oficialmente reconhecidos como tal.

** É na sede do Instituto Kairós, uma organização não governamental que desenvolve atividades sócio-culturais em São Sebastião das Águas Claras (Macacos), em Nova Lima, que os mestres griôs da região – incluindo dona Lucília – se encontram para compartilhar saberes e praticar danças de roda, contar histórias e também aprender receitas novas com uma nutricionista.

 

 

Outras coleções do Lembraria para o Museu da Pessoa:

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