Maria Punga, Umbelina e Maria Café, as primeiras baristas de São Paulo

café

Antes de qualquer coisa, um aviso: é provável que o título acima seja uma grande mentira. Não dá para cravar quem, com toda a certeza, teriam sido as primeiras pessoas a preparar e a vender café na cidade. O que vou descrever aqui resulta de uma pesquisa em registros pinçados de livros, antigas colunas de jornal e publicações oficiais relacionadas a meados do século XIX. É óbvio que muitas histórias, inclusive as de personagens que possivelmente antecederam Maria Punga, Umbelina e Maria Café, podem não ter sido registradas e talvez tenham se perdido por aí, junto com a memória de quem viveu e morreu há muito tempo.

Dizer que essas mulheres teriam sido “baristas” também é exagero. Elas foram paulistanas interessantíssimas e donas de si. Moraram na cidade do século XIX e fizeram do café a razão de suas vidas – uma delas, Maria Café, entrou para a história gastronômica de São Paulo com a bebida gravada em seu próprio nome. Por motivos diversos, essas “nhás” transformaram suas modestas casas de taipa naqueles que podem ter sido os primeiros cafés-pontos de encontro da cidade. Atrás de um balcão improvisado, elas torravam o grão, socavam-no no pilão, armavam a estrutura de madeira em que penduravam o coador de pano, coavam o café com água fervida no fogão a lenha, serviam-no em canecas rudimentares que chamavam de tigelinhas. Para acompanhar, montavam uma apetitosa mesa de quitandas – paulistas, não mineiras.

Políticos, comerciantes das redondezas, estudantes da Academia de Direito do Largo de São Francisco achegavam-se sempre que podiam; gostavam tanto desses lugares que resolveram falar deles quando publicaram em livro suas memórias sobre o tempo da mocidade, tão diferente e, hoje, tão distante. Naquele pequeno e ainda tranquilo núcleo urbano, restrito aos arredores da Sé, os sinos das igrejas tocavam pontualmente às 9 horas da noite para anunciar o toque de recolher – depois disso, ficar na rua podia implicar multa. As mulheres, de forma geral, viviam para “empoderar” seus maridos e seus desejados filhos homens. Ficavam restritas ao ambiente doméstico, e, ironicamente, jamais podiam ser vistas em um dos cafés comandados pelas mulheres de que vou falar a seguir; a não ser que fossem, como elas, pobres ou escravas alforriadas…

Quem terá sido, de fato, Maria Punga? E  Umbelina e Maria Café? Quando e onde elas nasceram? Tiveram pais escravos? Trabalharam elas próprias como escravas quitandeiras, vendendo café e comidinhas pelas ruas da cidade, antes de decidirem levar esse serviço para dentro de suas casas? Não sei. Reúno, aqui, apenas os restinhos de lembranças sobre essas senhoras que, sem saber, comandaram aqueles que talvez tenham sido os embriões dos estabelecimentos que seriam tão a cara de São Paulo a partir do fim do século XIX. Por volta de 1870, seus rústicos e improvisados salões começaram a ser desbancados pelos novos cafés de ambiente refinado, com conceito importado da Europa; mas elas, afinal, não seriam totalmente esquecidas.

Café de Maria Punga
Estabelecido desde 1850

Na esquina da rua Quinze de Novembro com a atual rua Anchieta (antigo Becco do Collegio), no centro de São Paulo, uma casinha de taipa de fachada verde, com uma larga porta de madeira de duas folhas, cheirava a café fresquinho e a biscoito de polvilho saído do forno a lenha o dia inteiro. Maria Punga, uma mulata rechonchuda de turbante na cabeça, brincos de argola e ramo de arruda atrás da orelha, era a responsável pelo ritual: em cada coador de pano, ela passava o suficiente para exatas três xícaras de café, nada mais. Se houvesse menos de três clientes no salão, dona Punga os fazia esperar até que um terceiro chegasse – assim, não perderia nem uma tigelinha de seu precioso café, vendido a 40 réis.

Depois de prontas, ela mesma carregava as fumegantes canecas até a mesa coletiva, montada em seu rústico e meio encardido salão de vigas aparentes. Boa de papo, entregava as bebidas e mostrava aos fiéis fregueses a mesa de quitandas posta logo ao lado. Tinha, ali, bolo de fubá, broinha de polvilho e, todo fim de tarde, cuscuz de bagre. Estas eram, aliás, especialidades que dona Punga compartilhava com outras quituteiras: era mais do que comum encontrar essas receitas nos tabuleiros de escravas que se aboletavam em alguns pontos, como a escadaria da igreja da Misericórdia (há muito tempo demolida) e a rua das Casinhas, uma via cheia de pequenos armazéns, nos quais os caipiras da roça vendiam verduras e as quitandeiras da cidade, comidinhas.

Maria Punga chamava-se, na verdade, Maria Emília Vieira, e manteve seu café ao lado (ou no mesmo endereço) do sobrado que, anos antes, havia pertencido às chamadas “mocinhas da Casa Verde”. Estas eram as sete irmãs solteiras de José Arouche de Toledo Rendon, o homem que doara o terreno de sua antiga fazenda de chá para a prefeitura transformá-lo no que hoje corresponde à Vila Buarque. Donas da fazenda Casa Verde, que mais tarde seria o bairro da Zona Norte, elas podem ter tido alguma relação mais próxima com Maria Punga ou, quem sabe, até mesmo ter participado do comando do café. Nunca saberemos. O que o obituário do antigo jornal Correio Paulistano nos conta é que uma tal Maria Emília Vieira morreu aos 38 anos de idade, em 7 de maio de 1869, de “congestão cerebral”, sem deixar herdeiros. Talvez essa tenha sido Maria Punga, a dona de um pioneiro café, que deixou de existir no momento em que a cidade se preparava para virar, ironicamente, a grande metrópole do café…

• Café de Nhá Umbelina
Estabelecido na década de 1850

Em frente ao largo de São Francisco, de cara para a então Academia de Direito, nhá Umbelina aproveitava a boa localização de sua casa para servir ali, na varanda, seu famoso cafezinho. Depois ou antes das aulas, bandos de estudantes corriam para a mesa coletiva do lugar, para tomar uma tigelinha, fumar um cigarro de palha, falar de política, literatura, vida alheia. Umbelina abria um sorriso largo ao vê-los ali. Corria feliz para a cozinha, dava uma mexida na tachada de figos que ficava pronta no fogão a lenha, coava o cafezinho ou preparava a bebida que andava na moda: chocolate quente.

Doceira hábil e famosa, Umbelina não deixava faltar pé-de-moleque, biscoitos e sequilhos, para oferecer junto de suas bebidinhas. Também oferecia colo de nhá e muita fofoca: sabia tudo o que acontecia logo em frente, e fazia questão de contar detalhes aos seus meninos fregueses. Um deles, em um texto publicado no Correio Paulistano de 7 de dezembro de 1887 lembra que:

“A nhá Umbelina era como parte integrante da antiga Academia e com ela desapareceu, porque é preciso ter coragem de dizê-lo, já não existe a velha Academia. […] Era principalmente depois de uma sabatina bem debatida [no curso] que ali reuniam-se os rapazes, a saborearem o chocolate com pão de ló e uns biscoitos e sequilhos que já não existem também, e um café forte e gostoso, como não são capazes de oferecer-nos hoje os estabelecimentos da moda.”

• Café de Nhá Maria Café
Estabelecido na década de 1860

O nome dela era Maria da Encarnação, mas ninguém a conhecia assim: Maria era mesmo Maria Café, a mulher que fazia a bebida e os quitutes mais famosos da rua das Casinhas, a via cheia de mercadinhos de alimentos, hoje renomeada Rua do Tesouro. As tigelinhas de café fresco, em sua casa, podiam vir acompanhadas de cuscuz de bagre e camarão de água doce, servido como de costume somente à noitinha, e de empadas de lambari e piquira, os peixes mais corriqueiros dos então vivos rios paulistanos.

Maria Café não aparece em registros sobre sua época apenas pela bebida que acabou integrando até seu nome. Ela também era conhecida na São Paulo oitocentista como a puxa-saco oficial de João Theodoro Xavier, o homem que governou a província entre 1872 e 1875. Maria era sogra de um de seus oficiais de gabinete, e passou, sabe-se lá por quê, a ser ouvida por ele quando ele planejava suas obras na cidade. Não só ela, na verdade: do grupo de puxa-sacos faziam parte seu genro, Mariano da Purificação, o capitão Quartim, empreiteiro de obras públicas, e dois senhores chamados nhô Paulo Pica Fumo e Goulartinho. Corria na cidade de então o boato de que, para ter um pedido público atendido, era só procurar dona Café e convencê-la a interceder junto a João Theodoro. Ao que parece, ela não dominava apenas a arte do café e dos quitutes; era boa também em politicagem…

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