Içá, o caviar impensamentável de Monteiro Lobato

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Paçoca de içá do restaurante de Ocílio Ferraz, em Silveiras, Vale do Paraíba (foto: Renata Helena Rodrigues)

Famoso vale-paraibano, Monteiro Lobato (1882-1948) nasceu em um sítio em Taubaté, mas passou boa parte da vida na cidade de São Paulo, onde se formou em Direito no Largo de São Francisco e trabalhou como escritor e editor de livros (fundou aquela que se tornaria a Companhia Editora Nacional, hoje pertencente ao Instituto Brasileiro de Edições Pedagógicas, Ibep). Conservador e controverso, ao mesmo tempo que se tornou conhecido por divulgar o folclore do interior com as histórias do Sítio do Pica-Pau Amarelo, Lobato contribuiu para a formação de uma imagem negativa do caipira, personalizado na figura do sujo e atrasado Jeca Tatu – ideia que, talvez, nos impregne ainda hoje.

São muitos os trabalhos que investigam a relação entre a cultura caipira e a obra lobatiana. Aqui, no entanto, nos detemos à relação que o escritor mantinha com uma receita antiga, que já havia sido apreciada em todo o estado e que, já em seu tempo, andava restrita a alguns esparsos pontos de seu Vale do Paraíba: a içá torrada. Em uma carta escrita em 1945 para a prima, Hermínia de Castro Natividade, a Bijoca, ainda moradora de Taubaté, ele agradece o envio de uma lata cheia das tais formigas. E a assina na informalidade de um apelido familiar, Zé Bento.

S. Paulo, 18 de novembro de 1945

Bijoca,

Recebi a latinha de içá torrado. Creio que ainda gosto disso apenas como meio de me recordar do Taubaté do meu tempo, uma coisa que já nada tem que ver com o Taubaté de hoje.

Mas foi você incomodar dona Silvina… Para mim foi muito bom, porque me rendeu o bilhetinho que ela lhe mandou, com o pedido, em troca do içá, de um pensamento sobre o içá…

A sugestão me perturbou, porque nunca no mundo ninguém jamais ‘pensou’ sobre o içá – e pelo jeito é realmente coisa ‘impensamentável’. Mas já que dona Silvina pede, faço um esforço e digo que o içá é o caviar da gente taubateana.

Como você sabe, o famosíssimo e apreciadíssimo caviar da Rússia é a ova dum peixe de nome esturjão; e que é o abdômen (vulgo bundinha) da içá senão a ova da formiga saúva?

Adeus, Bijoca. Saudades a todos daí e meus cumprimentos a dona Silvina.

Zé Bento

A carta de Zé Bento com sua encomendada reflexão sobre a içá – abdômen da formiga saúva alada, em época de procriação, torrado – foi reproduzida no livro Culinária Tradicional do Vale do Paraíba, lançado pelos folcloristas Paulo Camilher Florençano e Maria Morgado de Abreu, com a participação de Ocílio Ferraz, em 1992. Na mesma publicação, encontramos a receita da paçoca de içá, servida no restaurante de cozinha caipira do falecido Ocílio, em Silveiras, e dividida em etapas, logo abaixo.

PAÇOCA DE IÇÁ

  1. Limpam-se as içás das perninhas e cabeças.
  2. Em seguida, põem-se de molho em água e sal por cerca de ½ hora.
  3. Escorre-se bem e leva-se ao fogo, em frigideira com gordura mexendo-se sempre para não queimar.
  4. Quando estiverem bem torradas, acrescenta-se farinha de mandioca, mexendo-se sempre, resultando a farofa, já pronta para ser comida acompanhada de café.
  5. Se quiser, coloca-se em pequeno pilão, juntando-se farinha a gosto, daí resultando uma paçoca de içás.

A seguir, uma segunda receita de içá, encontrada no jornal de uma cidade situada quase do lado oposto do Vale do Paraíba no estado de São Paulo. Ela apareceu no Comércio de Franca, de 25 de outubro de 1962, foi enviada por uma leitora chamada Rosalina de Moraes, e prova, de certa forma, que o gosto pela formiga abrangia uma área bem maior que a de Taubaté.

TANAJURA FRITA

  1. Pega-se o enxame de tanajura.
  2. Depois, corta-se cada tanajura pela cintura, aproveitando somente as bolinhas.
  3. Lava-se bem, salpica-se com um pouco de sal e põe-se para fritar.
  4. Algumas rebentam, outras não. Comem-se bem fritas.

 

 

 

 

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