O doce de bêbedo de Mário de Andrade

“Eu, de Mário [de Andrade], tenho as lembranças mais afetuosas de convivência, que excluíam qualquer sentido literário, porque ele gostava muito de cozinhar e eu também. Às vezes ele não estava bem em casa e chamava a gente. Fazia uma comidinha, isso acho que foi só uma ou duas vezes. […] Eu já estava morando em Santa Teresa, perto da casa onde Manuel Bandeira tinha vivido: no número 33, numa casa vizinha a essa, perto da casa de Paschoal Carlos Magno, que já morava ali. O Mário ficou na Ladeira de Santa Teresa e subia a pé até a minha casa. A gente tinha um convívio de comadres: faltava um açucrinha, um ajudava o outro. Quando ele ia receber uma visita, às vezes, eu ajudava com alguma coisa; quando eu ia receber amigos, ele vinha com uma receita. E ele tinha um famoso doce, que era horrível, que ele chamava doce de bêbedo. Ele pegava umas compotas, feitas quase sem açúcar, e entremeava com manjar branco, feito sem açúcar. Punha um pouco de leite de coco, punha para gelar e ficava aquela espécie de gelatina, mas era muito ruim. Ele ficava muito indignado, porque ninguém gostava do doce de bêbedo. E nós dizíamos: ‘Mas nós ainda não somos suficientemente bêbedos pra chegar a esse grau de refinamento.’”

Rachel de Queiroz, sobre Mário de Andrade, em 31 de agosto de 1992

Entre 1938 e 1941, depois de ter dirigido o Departamento de Cultura em São Paulo, Mário de Andrade se “exilou” no Rio de Janeiro, forçado pelo Estado Novo de Getúlio Vargas.  Tornou-se vizinho de Rachel de Queiroz no bairro de Santa Teresa e, com ela, fez parte do grupo que frequentava o bar Taberna da Glória (antes, na capital paulista, o autor de Macunaíma havia sido habitué do Bar Franciscano, em cuja mesa, com vista para o Vale do Anhangabaú, costumava acumular canecões de chope). Ao que parece, além de conversas políticas e literárias, o grupo de Mário e Rachel também compartilhava receitas – ou quase isso –, como a do não muito apreciado “doce de bêbedo”.

O trecho acima foi retirado de um belíssimo depoimento sobre Mário de Andrade que Rachel de Queiroz deu no Centro Cultural São Paulo, no dia 31 de agosto de 1992, com mediação da professora Telê Porto Ancona Lopez. Ele pode ser ouvido na íntegra aqui (o trecho acima está entre os minutos 5:06 e 6:56). A Casa Mário de Andrade acaba de reunir essa e outras histórias sobre o escritor no acervo virtual Morada do Coração Perdido.

 

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