Café: “ponte líquida para a dignidade”

O Coronel destampou a lata do café e notou que apenas restava uma colherinha de pó. Tirou a panela do fogo, jogou no chão de barro batido a metade da água e raspou de faca todo o interior da vasilha, até botar na panela o que restava, uma mistura de raspas com ferrugem.

Sentado junto ao fogão, em atitude de confiada e inocente expectativa enquanto o café não fervia, o Coronel como que sentiu brotar de suas tripas cogumelos e lírios malignos. Era outubro. Eis uma manhã difícil de vencer, esta, mesmo para um homem de sua fibra, sobrevivente de tantas outras manhãs. Havia cinquenta e seis anos – desde que acabara a última guerra civil – que ele não fazia outra coisa senão esperar. Outubro era uma dessas raras coisas que chegavam.

Quando entrou no quarto, trazendo o café, a mulher abriu o mosquiteiro da cama. Ela sofrera uma crise asmática a noite inteira e agora atravessava um estado de modorra. Mesmo assim ergueu o busto para apanhar a xícara.

‘E você’, disse.

‘Já bebi o meu’, mentiu o marido. ‘Ainda restava uma colherada’.

Foi quando começaram a tanger sinos a finados.

(…)

Escrito originalmente em 1968 e publicado no Brasil pela última vez em 2014, Ninguém Escreve ao Coronel (Record), do escritor colombiano Gabriel García Márquez (1928-2014), narra o compasso de uma espera. No trecho acima, extraído das páginas 5 e 6 da edição de número 27, conhecemos o princípio da manhãzinha do Coronel, que leva o café ao quarto de sua mulher. Há cinco décadas, o velho casal aguarda uma carta que nunca chega, a da liberação da aposentadoria do militar reformado. O livro trata desses “dias de miséria, solidão profunda e perspectivas vagas”.

“Ao ver a caneca, a esposa doente afasta o mosquiteiro. Ergue-se da cama disposta a beber e conversar com seu homem. A bebida enferrujada distancia-se do café bom no sentido ‘gastronômico’, mas é onde ela se agarra nesse dia. Ponte líquida para a dignidade.”

(Leia mais sobre o papel do café na vida “das pessoas” no texto Fica, vou passar um cafezinho, que escrevi para a revista Vida Simples).

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