Memória indígena: quando não tinha beiju, fazia mingau de erva-cidreira

Desde pequena, a cearense Raimunda Cruz do Nascimento, mais conhecida como Raimundinha, testemunhou de perto a difícil luta de sua comunidade, de ascendência indígena, para sobreviver. Sem estudo nem dinheiro, sua mãe havia sido abandonada pelo marido, com cinco filhos, e acabou sendo enganada pelos posseiros da região, gente rica e poderosa, e expulsa de sua terra….

O álbum dos bolos de casamento (1954-1987)

Quando convidadas a contar suas histórias, as pessoas costumam recorrer a marcos que as ajudem a lembrar de certos casos, de certos períodos. O casamento, oficializado ou não, parece ser um dos mais frequentes “guias” da memória. Por muito tempo, a festa organizada para celebrá-lo era um dos raros eventos da vida a ganhar registro em fotografia; era, assim, um dos poucos momentos…

Fogão de quilombo: memória e realidade

Foi-se o tempo em que se acreditava na história de que os escravos preparavam para si substanciosos caldos de feijão cozido com miúdos de porco ou de boi que haviam sido descartados por seus “donos”. De provável inspiração europeia, a feijoada sempre esteve mais perto da casa grande do que da senzala; tratados como animais, quando muito, os cativos costumavam se…

Comida de avô, no lombo do burro, no meio da tropa

A imagem do feijão-tropeiro cristalizou-se como a de um potente PF de tutu ou virado com bastante toucinho (ou bacon), acrescido de couve e, às vezes, também linguiça. Alguns dizem que a diferença entre essas receitas seria a farinha utilizada para engrossar o feijão: de mandioca, para o tropeiro; de milho, para o tutu e o…

“O almoço era um feijão-tropeiro feito na trempe”

“Meu nome é José Alves de Mira, eu nasci em outubro de 2024, como é que é? De 1924, né? Meu pai trabalhava na enxada, plantava muito, a gente plantava muito e trabalhava com tropa. Nas colheitas, ele trabalhava com tropas. Baldear as coisas para a cidade era o trabalho dele. Levava arroz, feijão, milho,…

O arroz e o feijão: histórias de um encontro culinário

Por meio do projeto Armazém do Brasil, realizado em parceria com o Sesc, o Museu da Pessoa gravou cerca de oitenta horas de conversa com pessoas que trabalharam na Zona Cerealista de São Paulo ao longo do século 20*. Essa enorme área de comércio, que se desenvolveu a partir do pioneiro entreposto de alimentos instalado nas proximidades dos…

Açúcar de aniversário: sem docinhos, não tem festa

Fotografadas entre 1967 e 1999, as imagens acima mostram diferentes épocas, famílias e locações, mas uma mesma cena: festinhas de aniversário, com bolo, docinhos, refrigerante. Pode reparar. Em todos os quadros, clicados na época em que era preciso escolher com cuidado o ângulo para não desperdiçar o filme, não há salgados – no máximo, eles aparecem tímidos, atrás…

O verso da comida: histórias de fome

É na ausência total de alimentos que parece ficar ainda mais evidente o quanto dependemos do comer (e do cozinhar) para reforçar nossa identidade, nossa autonomia, nossa liberdade. Em mais uma coleção criada a partir do acervo do Museu da Pessoa, reunimos histórias de vida que demonstram essa ideia ao remeter não à comida, mas…

O verso da comida: o racionamento de guerra que nunca precisou existir

Embora tenha se desenrolado na Europa, a Segunda Guerra reverberou no Brasil de muitas maneiras, inclusive na venda de alimentos. A farinha de trigo foi um dos ingredientes que, entre 1939 e 1945, mais rarearam no mercado. Para suprir a falta dela, muita gente dava um jeitinho que parece ter se tornado unanimidade: desmanchar a massa de…

Cozinha imigrante: receitas judaicas em trânsito

Nas bagagens dos imigrantes, nem sempre houve espaço para cadernos de receitas (nem sempre houve espaço, aliás, para qualquer bagagem…). Trazidos na memória, modos de preparo também tiveram de se adaptar aos costumes culinários locais, aos ingredientes disponíveis, aos gostos de filhos e netos que foram sendo criados ou nascendo na nova terra. Muitas receitas transformaram-se;…

Cozinha imigrante: arroz escuro com feijão-branco

A foto acima mostra a cidade de Opole, na Polônia, onde Rosa Fajersztajn passou a infância e a adolescência até “quando mandaram exterminar os judeus”. Nascida em 1919 no distrito de Kazimierz, na Cracóvia, Rosa cresceu em uma família judia e, desde pequena, sentia que havia diferenças com relação aos moradores católicos. Uma delas se manifestava na cozinha. Ela não podia comer,…