Vermelho Amargo

Se a chuva chovia mansa o dia inteiro, o amor da mãe se revelava com mais delicadeza. O tempo definia as receitas. Na beira do fogão ela refogava o arroz. O cheiro do alho frito acordava o ar e impacientava o apetite. A couve, ela cortava mais fina que a ponta da agulha que borda…

Dona Flor e seus improvisos

  Vinte bolinhos de massa puba ou mais, conforme o tamanho que quiser. Aconselho dona Zélia a fazer grande de uma vez, pois de bolo de puba todos gostam e pedem mais. Até eles dois, tão diferetens só nisso combinando: doidos por bolo de puba ou carimã. Por outra coisa também? Me deixe em paz,…

Sobre abismos e tortas de cebola

Recordo furiosos ataques de abstinência de nicotina, meu corpo entorpecido, fissurado enquanto eu vasculhava entre as almofadas do sofá e rastejava embaixo dos guarda-louças em busca de moedinhas perdidas. Por dezoito cêntimos de franco (mais ou menos três centavos e meio de dólar), dava para comprar cigarros de uma marca chamada Parisiennes, vendidos em pacotes…

Café: “ponte líquida para a dignidade”

O Coronel destampou a lata do café e notou que apenas restava uma colherinha de pó. Tirou a panela do fogo, jogou no chão de barro batido a metade da água e raspou de faca todo o interior da vasilha, até botar na panela o que restava, uma mistura de raspas com ferrugem. Sentado junto…

Narcisa, já preparou a massa do biscoito de polvilho?

“- Estas suas balas são deliciosas. Eu não consigo fazer ficarem douradas. Açucaram. – Como é que você faz? – Eu ponho açúcar e água em proporção e faço ferver. Mas, à primeira mexida de colher, açucara tudo. – É isso! Não se pode mexer! – Mas como é que se mistura? – Mistura e…

Ovo equilibrado na colher

“Virginia atravessa a porta. Sente que controla totalmente a personagem que é Virginia Woolf e, como aquela personagem, tira o casaco, pendura-o e desce até a cozinha para falar com Nelly sobre o almoço. Na cozinha, Nelly está abrindo a massa. Nelly é ela mesma, sempre ela mesma, sempre grande e corada, majestosa, indignada, como…

“Comemos nossas lembranças…”

“É mais lógico acreditar que comemos nossas lembranças, as mais seguras, temperadas de ternura e de ritos, que marcaram nossa primeira infância.” A historiadora francesa Luce Giard, no segundo volume de A Invenção do Cotidiano, livro que assina com Michel de Certeau e Pierre Mayol, faz belas reflexões sobre comida e memória, sobre as transformações culinárias…

Livros de receitas lembram o passado; fatias douradas, também

Quem folheia um caderno ou um livro de receitas antigo não encontra apenas o preparo que foi lá procurar. Encontra também a massa de pastel com pinga da tia Jeni, rabiscada na pressa da última visita na contracapa. Encontra três páginas ilegíveis por causa da mancha do café derrubado, seca ali há anos. Encontra o bolo Souza Leão…