Volume 2: Mulheres nas entrelinhas

Em 2021, vamos inaugurar um novo volume do Lembraria, dedicado a histórias de mulheres que chegam até nós nas entrelinhas de livros, de memórias e, especialmente, de cadernos e livros de receitas que elas mesmas escreveram. Não se trata, portanto, de histórias de mulheres extraordinárias, que se afirmaram de maneira independente de seus pais e maridos, que se destacaram como autoridades, escritoras, artistas ou qualquer outra função já considerada “masculina”. Em vez disso, este novo volume se volta para as histórias pouco lembradas de mulheres ordinárias, donas de casa, mães e avós “do lar”, que não se impuseram contra os sistemas, mas que, nem por isso, foram submissas, alienadas ou simplesmente oprimidas.

No dia a dia, no espaço doméstico, essas mulheres viveram em um campo de conflitos e contradições entre as estruturas patriarcais e o exercício de um poder ligado ao interior da casa, às complexas relações entre mães e filhas, sogras e noras, patroas e empregadas e à vida na vizinhança, na comunidade, na sociedade. Conhecer suas histórias é uma forma de questionar os velhos e resistentes clichês da “família Doriana” (conduzida pela mãe-esposa integralmente dedicada à felicidade do lar) e da “vovó cozinheira” (de cabelo branco e mãos de fada, cumprindo sua “natural” função de nutrir e satisfazer a família), tão bem apropriados pela indústria alimentícia e tão cristalizados em nosso imaginário.

“Depois de casadas, não tinha mais sentido pensar sequer em guardar segredos, que segredo de mulher casada só podia ser bandalheira. Restava o recurso do caderno do dia a dia, onde, de mistura com os gastos da casa cuidadosamente anotados e somados no fim do mês, elas ousam escrever alguma lembrança ou confissão que se juntava na linha adiante com o preço do pó de café e da cebola. Os cadernos caseiros da mulher-goiabada.”

Lígia Fagundes Telles, em A disciplina do amor (1980)

Daphne: Vamos acendê-lo?
Anthony: Bem, vai em frente.
Daphne: Eu?
Anthony: Eu não sei como fazer.
Daphne: Acha que eu sei?!
Anthony: Leite frio, então!

Brigderton (Netflix, 2020)

Do célebre fotógrafo Aurélio Becherini, esta foto registra a cozinha do Asilo de Meninas Órfãs e Desamparadas do Ipiranga, em São Paulo, na década de 1900. Quantos objetos e equipamentos culinários desta imagem você ainda usa em sua cozinha? (Acervo Museu Vicente de Azevedo)

Volume 1: Histórias de comida

São Paulo, 1979 (Coleção Museu da Pessoa)

Entre 2016 e 2017, o Lembraria reuniu inúmeras histórias sobre alimentação e culinária, no Brasil e no mundo. Nas Coleções Museu da Pessoa, selecionamos do acervo do museu histórias de vida relacionadas à cozinha de casa e dos restaurantes, a comidas e bebidas. Nas seções Lembra São Paulo e Verdades inventadas, escrevemos crônicas e ensaios sobre memória e história, da cidade e das pessoas, do leite condensado às nozes fingidas. Também pinçamos de livros de ficção e não ficção e de séries e filmes excertos que deram forma às Notas de canapé e às Notas de pathé. E, a partir das lembranças enviadas pelos leitores por meio da pesquisa Fatias da Memória, construímos O dicionário das comidas impossíveis, com verbetes de receitas inesquecíveis.

Sal, gordura, acidez e calor: ouça o terceiro episódio de nossa primeira temporada da Rádio Lembraria, de 22 de abril de 2017
Notas sonoras, número zero: o primeiro episódio da Rádio Lembraria trouxe a leitura de trechos emocionantes do depoimento de Dona Risoleta, filha de escravizados, empregada doméstica e dona de pensão, concedido à professora Ecléa Bosi, em 1970
Dalva e as rãs fritas do Rio Tietê: as lembranças da paulistana Dalva Soares Bolognini (1938-2018) do tempo em que o pai dela “pescava” rãs saborosíssimas das águas limpas do Tietê

Glacê real

Com glacê e com afeto, por Viviane Zandonadi


Histórias recentes


Sobre nós: o Lembraria e as Vivis

O Lembraria foi criado em 2016 pelas jornalistas Viviane Aguiar e Viviane Zandonadi para reunir “histórias de comida”: crônicas, ensaios e notas, em texto e em áudio, sobre histórias e memórias relacionadas à alimentação, à culinária e à gastronomia. Em 2021, lançamos um novo volume, voltado para as histórias de mulheres contadas, especialmente, nas entrelinhas de livros e cadernos de receitas.

Viviane Aguiar
Sou jornalista, mestre e doutoranda em História Social na USP. Leia mais sobre mim aqui.

Viviane Zandonadi
Sou autora do blog Do que eu falo quando eu falo de comida. Leia mais sobre mim aqui.

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Viviane Aguiar
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Viviane Zandonadi
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Imagens do cabeçalho:
Cadernos de receitas de Araceli Medina Pasqualin (Acervo Viviane Aguiar)

Van Loon Museum, Amsterdam
Hampton Court Palace, Surrey, Reino Unido