Um samurai, um homem bom e o livre comer

Takeshi Kasumi tem 60 anos. Trinta e oito desses ele passou no escritório, praticando disciplinados e contidos gestos. Para chegar à oficina, percorria um caminho sempre igual, todos os dias. Nunca viu o restaurante japonês perto da estação, ainda que o lugar nas últimas décadas tenha testemunhado o passar do tempo no vaivém do homem magrinho, gentil,…

Um beijo roubado à flor da pele

Como sarar de uma dor de cotovelo comendo torta de mirtilo? O que fazer ao descobrir que seu marido é amante da mulher do seu vizinho (e novo melhor amigo)? No programa de hoje, com trilha sonora de Otis Redding (Try a little tenderness), Cat Power (The greatest) e Nat King Cole (Perfidia; Quizás, quizás, quizás),…

Páscoa com saci e confeitos de anis

A Semana Santa por muito tempo marcou o fim da Quaresma iniciada no Carnaval. Apontava o dia em que, para os mais religiosos, era possível voltar a comer carne vermelha, galinha e ovos. Antes do Domingo de Páscoa, no entanto, ainda seria preciso jejuar na Sexta-Feira Santa, ou Sexta-Feira Maior, pelo menos até a hora do almoço,…

Notas sonoras, número zero

O Lembraria foi ao ar pela primeira vez há mais ou menos um ano (!), a fim de dar voz às histórias de comida. Voz escrita, visual. Entendemos que nessa memória, quase sempre presente e nostálgica, nos contamos e enxergamos. Não há novidade ou exagero em dizer que a vida é marcada pela relação com…

Fogão de quilombo: memória e realidade

Foi-se o tempo em que se acreditava na história de que os escravos preparavam para si substanciosos caldos de feijão cozido com miúdos de porco ou de boi que haviam sido descartados por seus “donos”. De provável inspiração europeia, a feijoada sempre esteve mais perto da casa grande do que da senzala; tratados como animais, quando muito, os cativos costumavam se…

“A galinha caipira é boa, cozinhada no suor”

“Nasci na comunidade do Barreirinho. Ah, o ano eu não tenho certeza, mas eu sei que sou do dia 15 de julho, de junho. A minha mãe tinha uma amiga, e ela gostava muito da amiga. Quando ela me ganhou, ela disse assim: ‘Vou colocar esse apelido na minha filha!’ Então, ela colocou o meu nome de…

Uma história de escravidão, pães caseiros e cenouras miudinhas

Se Dona Risoleta estivesse viva, teria feito no último dia 20 de março 117 anos. Na década de 1970, quando beirava os 80, ela falou de sua vida para a psicóloga Ecléa Bosi (hoje professora emérita da Universidade de São Paulo), que então realizava as entrevistas que analisaria para o importante trabalho Memória e Sociedade: lembranças de…

O cheiro do cuidado, a comida do sítio

Neta de agricultores, Andressa Santos é paulista de Angatuba (1995). Cresceu em São José do Barreiro e hoje vive em São Paulo, no bairro do Bom Retiro. Para ela, a fatia de memória não existe em uma receita específica, mas no cheiro de cuidado da comida de sua avó, da cozinha do sítio, cheia de…

Em busca do bolo perdido

Nascida em 1961, a paulistana Magali Boguchwal Roitman viveu nos bairros de Bela Vista e Bom Retiro, antes de se mudar para Moema. Há anos ela se pergunta aonde foi parar o chamado “bolo pelé”, de chocolate, molhadinho pela calda de laranja derramada sobre a massa ainda quente. Sua mãe sabia de cor o modo…

Comida de avô, no lombo do burro, no meio da tropa

A imagem do feijão-tropeiro cristalizou-se como a de um potente PF de tutu ou virado com bastante toucinho (ou bacon), acrescido de couve e, às vezes, também linguiça. Alguns dizem que a diferença entre essas receitas seria a farinha utilizada para engrossar o feijão: de mandioca, para o tropeiro; de milho, para o tutu e o…

“O almoço era um feijão-tropeiro feito na trempe”

“Meu nome é José Alves de Mira, eu nasci em outubro de 2024, como é que é? De 1924, né? Meu pai trabalhava na enxada, plantava muito, a gente plantava muito e trabalhava com tropa. Nas colheitas, ele trabalhava com tropas. Baldear as coisas para a cidade era o trabalho dele. Levava arroz, feijão, milho,…