E a marmelada saiu do tacho, foi para o supermercado e sumiu…

Na seção de compotas de qualquer mercadinho, é fácil encontrar goiabada, doce de figo, bananada. Marmelada, no entanto, à base dos atualmente raros marmelos, quase nunca se encontra, embora, um dia, ela tenha sido uma das receitas mais comuns da culinária tradicional, sobretudo em São Paulo. No fim do século 16, acredite, já existia no…

Mesa para um (ou quando Lucullus janta com Lucullus)

A escritora norte-americana M.F.K. Fisher (1908-1992), importante autora de assuntos de comida, publicou no fim dos anos 1930 um artigo chamado On Dining Alone. Saiu em seu livro Serve it Forth. (Sobre o mesmo tema – e ela os associa em An Alphabet For Gourmets – há também A is for dining Alone.)* Aqui, em tradução livre, dois…

Por que você está me contando isso?

Em “À Mesa com o Chapeleiro Maluco” (Companhia das Letras), o ensaísta Alberto Manguel explora a “demência sublime” de personagens doidos da literatura. Não é um livro de pegada gastronômica, ainda que seu nome possa sugerir que sim… “Em nossa época, para criar e manter a engrenagem forte e eficiente do lucro financeiro, escolhemos coletivamente…

“Pois à mesa não raro rolam conversas alegres”

Da coletânea [um amor feliz], traduzida do polonês por Regina Przybycien, para a Companhia das Letras, copiamos abaixo o poema Coação, escrito pela polonesa Wislawa Szymborska. Ela recebeu o prêmio Nobel em literatura de 1996. Esse livro é o segundo da autora publicado pela Companhia. Comemos a vida alheia para viver. A falecida costeleta com…

Morte (e vida) do leiteiro

Na cidadezinha de Troy, no estado de Nova York, nos Estados Unidos, um escritor chamado Dennis Mahoney encontra na varanda de casa, logo cedo, não só as contas a pagar e, quem sabe, o jornal. Ali, semanalmente, o leiteiro do laticínio Meadowbrook Farm Dairy chega para recolher garrafinhas vazias e, no lugar delas, deixa outras, cheias de…

Origens embrulhadas em folha de uva

A comida é capaz de aproximar pessoas que não conseguem se falar de outro jeito. Encontrei no Twitter o relato de uma moça norte-americana chamada Devi Lockwood. Foi escrito para o canal online da NPR (uma rádio pública norte-americana sediada em Washington). No texto, Devi conta como aprendeu a fazer charutinho de folha de uva. Devi é poeta, ciclista e ativista…

“A mesa narra o mundo”

Sábado, na livraria, fui buscar o presente da amiga que estava de aniversário. Queria também me jogar na serendipidade típica de onde o acaso encontra seu lugar. Isso me animou, ainda que eu me movesse com alguma dificuldade. Estava pesada. Tinha dormido pouco, almoçado muito, bebido vinho à luz do sol e o sono me puxava para…

As madeleines de Proust (e de todo mundo)

“Ela então mandou buscar um desses biscoitos curtos e rechonchudos chamados madeleines, que parecem ter sido moldados na valva estriada de uma concha de São Tiago. E logo, maquinalmente, acabrunhado pelo dia tristonho e a perspectiva de um dia seguinte sombrio, levei à boca uma colherada de chá onde deixara amolecer um pedaço de madeleine….

O restaurante de cozinha brasileira que nunca saiu do papel

“Abrir um restaurante na Capital de São Paulo! Era o cúmulo! Só mesmo da cabeça dos idiotas do Departamento de Cultura poderia sair uma bobagem daquelas! Esses pobres selvagens porém render-se-iam à evidência do fator cultural que, para um país, representa a comida, a maneira de preparar os alimentos, desde a plantação e a colheita…

Jamón ibérico: a “perfeita” expressão da terra

A partir da página 170 do livro O Terceiro Prato – Observações sobre  o futuro da comida (Bicicleta Azul, ed. Rocco), o autor, cozinheiro e pensador norte-americano Dan Barber mergulha em uma investigação profunda sobre o tradicional sistema produtivo do mais importante presunto cru espanhol, o jamón ibérico. Obtido do pernil de porcos pretos criados soltos (não…

Uma pedrinha para cada lembrança gostosa

“E, tomada pela maresia, vagou pelo prazer dos sabores e dos cheiros que desde sempre habitaram a cozinha. Rodopiou pela sala a alegria das festas, depois sobrevoou o telhado da casa, reconstruído em mutirão com os vizinhos, quando uma chuva de pedra desabou num verão longínquo.” O excerto acima saiu do livro infantil O Jarro de…

O doce de bêbedo de Mário de Andrade

“Eu, de Mário [de Andrade], tenho as lembranças mais afetuosas de convivência, que excluíam qualquer sentido literário, porque ele gostava muito de cozinhar e eu também. Às vezes ele não estava bem em casa e chamava a gente. Fazia uma comidinha, isso acho que foi só uma ou duas vezes. […] Eu já estava morando em…