O verso da comida: a fome fez dela cozinheira

  Depois de passar fome e de viver de esmolas em sua cidade-natal, Eldorado, no Vale do Ribeira, interior de São Paulo, Nair Oliveira de Almeida resolveu mudar. Transferiu-se para a capital, currículo na mão e de porta em porta, com a intenção de trabalhar em uma casa de família. Conseguiu: assumiu o posto de…

Cozinha imigrante: receitas judaicas em trânsito

Nas bagagens dos imigrantes, nem sempre houve espaço para cadernos de receitas (nem sempre houve espaço, aliás, para qualquer bagagem…). Trazidos na memória, modos de preparo também tiveram de se adaptar aos costumes culinários locais, aos ingredientes disponíveis, aos gostos de filhos e netos que foram sendo criados ou nascendo na nova terra. Muitas receitas transformaram-se;…

Cozinha imigrante: arroz escuro com feijão-branco

A foto acima mostra a cidade de Opole, na Polônia, onde Rosa Fajersztajn passou a infância e a adolescência até “quando mandaram exterminar os judeus”. Nascida em 1919 no distrito de Kazimierz, na Cracóvia, Rosa cresceu em uma família judia e, desde pequena, sentia que havia diferenças com relação aos moradores católicos. Uma delas se manifestava na cozinha. Ela não podia comer,…

Cozinha imigrante: a bureka búlgara

Natural da Bulgária, Lina Levi não conhecia o iugoslavo Avraham Ben Avran, mas suas histórias, sem querer, seguiram caminhos um tanto paralelos. De família judaica, ambos deixaram o Leste Europeu para viver em Israel, logo após a Segunda Guerra. Mais tarde, decidiram se mudar para o Brasil e vieram morar em São Paulo, no bairro do…

Cozinha imigrante: a burikita judaica

Quando o iugoslavo Avraham Ben Avran chegou a São Paulo, depois de deixar Israel, foi dar uma volta no Bom Retiro, o bairro em que viveria e onde, mais tarde, montaria a Doceria Burikita. Ao se deparar com uma placa na Rua dos Italianos, “curva perigosa”, ele se assustou não pelo perigo, mas pela tradução instantânea…

Memórias de supermercado: a loja que revolucionou a cozinha

Já se tornou até batida aquela história de que as crianças das grandes cidades, cada vez mais distantes da vida rural, acreditam que o frango venha direto do supermercado, daquele jeito limpinho, cortado em filés (ou empanado), congelado, embalado. A constatação de que a carne possa ter sido “fabricada” no supermercado soa ingênua, mas não surpreende:…

Memórias de supermercado: gelatina, duas por uma

Em dois anos, entre 1953 e 1954, o “supermercado” deixou de ser palavra desconhecida para se tornar o emprego da vida do paulistano Mário Gomes D’Almeida. Depois de ajudar a inaugurar o pioneiro SírvaSe, ele resolveu seguir os passos dos fundadores, que haviam vendido a rentável sociedade para abrir uma casa concorrente, Peg-Pag, inaugurada na…

Memórias de supermercado: paga pra entrar?

Era setembro de 1953 quando aquela loja nova, na Rua da Consolação, quase na esquina com a Alameda Santos, em São Paulo, abriu as portas. Os anúncios publicados nos jornais meses antes fizeram com que moradores de perto e de longe tivessem se dirigido até ali ressabiados, curiosos pela novidade. No letreiro da casa, lia-se “SírvaSe”, mas,…

Memórias de supermercado: “sírvase”!

Mário Gomes D’Almeida*, nascido em São Paulo em 1925, trabalhava como vendedor na padaria Regência, no Jardim Paulistano, quando uma cliente americana, Mary, lhe contou a novidade que mudaria sua vida. Naquele início de anos 1950, um conhecido dela estava construindo na cidade o primeiro exemplar de um estabelecimento que, nos Estados Unidos, já havia…

Saberes (e sabores) guardados: as receitas de uma mestre griô

Em cardápios de restaurantes, na razão de ser das casas de bolos, nas capas de livros de culinária e nos salões das confeitarias, a alusão a uma cozinha de antigamente, caseira e singela, torna-se cada vez mais frequente. É tanto “marketing da saudade” que, às vezes, duvido que saibamos dizer ou identificar o que seria de fato “comida de…

Saberes (e sabores) guardados: o doce de laranja cantado

É por conhecer a fundo as cantigas de roda de seus tempos de menina e as habilidades de benzedeira, e por gostar de passar esses saberes adiante, que Lucília Francisca de Souza se tornou mestre griô. No depoimento que deu ao Museu da Pessoa, fica claro que para ela cantar é parte atada ao contar sua história….

Saberes (e sabores) guardados: o biscoito de vento

Lucília Francisca de Souza é mestre griô e quituteira, ou quitandeira, como a habilidade dela para fazer quitandas (biscoitos e bolinhos para comer junto de café coado) parece sugerir ser o jeito mais certo de chamá-la. Nascida em 1942 na zona rural de Nova Lima, em Minas Gerais, ela passou anos e anos na lida diária da…