Uma carta à mãe Peppina

“Milão, 26 de fevereiro de 1927

Querida mamãe,

Encontro-me em Milão desde o dia 7 de fevereiro, nos cárceres judiciários de San Vittore. Saí de Ustica em 20 de janeiro e foi-me entregue aqui uma carta sua, sem data, mas que deve ser dos primeiros dias de fevereiro. Não deve se preocupar por uma mudança em minhas condições; isso só agrava até certo ponto o meu estado; trata-se apenas de um aumento das massadas e dos aborrecimentos, mais nada. Também não quero lhe dizer minuciosamente em que consiste a acusação que me fazem, pois nem eu mesmo a compreendi até agora; de alguma maneira, trata-se das habituais questões políticas, pelas quais já havia sido condenado a cinco anos de confinamento em Ustica. Fará falta a paciência, e eu de paciência tenho em toneladas, em vagões, em casas (lembra-se do que Carlo, quando era pequeno, dizia quando comia algum doce saboroso? ‘Queria cem casas’; eu, de paciência, tenho ‘cem casas e mais*’).

Ora, também você terá que ter paciência e valor. Na sua carta, porém, acredito que você se mostra num estado de ânimo bem diferente. Escreve-me que se sente velha etc. Pois bem, estou certo de que ainda é muito forte e resistente, apesar da sua idade e das grandes penas e dos grandes trabalhos por que teve de passar.

‘Corrias, corriazzu’**, lembra? Estou certo que ainda nos veremos todos juntos, filhos, netos e talvez, quem sabe, bisnetos, e faremos um enorme jantar com kulurzones [ravióli de queijo] e pardulas e zuppulas pippias de zuccuru e figu sigada [doces sardos] (mas não daqueles figos secos daquela famosa tia Maria de Tadasuni). Acha que [meu filho] Delio gostaria dos pirichittos e das pippias de zuccuro? Penso que sim e que também ele dirá que quer cento case; não imagina como parece com [meus irmãos] Mario e Carlo quando pequenos, tanto quanto me lembro, especialmente com Carlo, menos o nariz que neste era então um pouco mal feito.

Vez ou outra, penso em todas essas coisas e gosto de lembrar os feitos e as cenas da infância: encontro nelas muitas dores e muitos sofrimentos, é verdade, mas também algo alegre e formoso. E, depois, você está sempre lá, querida mamãe, e as suas mãos sempre atarefadas por nós, para aliviar as nossas mágoas e para tirar algum proveito de todas as coisas. Lembra como conseguia arranjar um bom café, sem cevada e outras porcarias do gênero?

[…]

Um abraço com ternura para todos; para você, querida mamãe, o mais tenro abraço.

Nino

Nino é o apelido de infância do sardo Antonio Gramsci (1891-1937), importante filósofo da política e da cultura italiana que foi vítima do fascismo. Jornalista, ativista da causa operária e camponesa, dirigente do Partido Comunista Italiano (que ele mesmo havia ajudado a fundar) e deputado do Parlamento, Gramsci representava uma ameaça aos planos do novo regime imposto por Mussolini. Em novembro de 1926, depois de um atentado sofrido pelo ditador, “medidas extraordinárias” foram tomadas: o partido foi dissolvido e seu líder, apesar da imunidade parlamentar, levado para o cárcere.

Gramsci nunca mais sairia da prisão. Do cárcere de Regina Coeli, em Roma, foi transferido para o da Ilha de Ustica, na Sicília, e depois para o de Milão. Ali, permaneceu por mais de um ano aguardando o julgamento, que se daria em julho de 1928. A sentença: 20 anos, quatro meses e cinco dias. Dizem que, no momento de sua condenação, um dos promotores fascistas exclamou: “Devemos impedir, por 20 anos, este cérebro de funcionar!”. Gramsci cumpriu sua pena (ainda que apenas parte dela), mas seu cérebro jamais se sentiria preso.

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Panfleto com a foto de Gramsci e de Mussolini, criado e distribuído pelo escritor francês Romain Rolland em 1933: “Antonio Gramsci, aqueles que morrem nas prisões de Mussolini” (foto: International Gramsci Society)

Durante os anos de prisão, Gramsci produziu sua mais importante obra, os Cadernos do Cárcere, que reúnem conceitos até hoje utilizados em diversas áreas, da cultura à educação. Em fevereiro de 1929, já instalado na penitenciária de Turi, região da Puglia, ele ganhou a permissão para escrever e pôde enfim dar vazão e registro às ideias que surgiam a partir da leitura dos poucos livros que lhe eram enviados pela família. Sem mesa na cela, Gramsci se virava como podia para fazer sistemáticas anotações, mais tarde guardadas pela cunhada, Tatiana Schucht, que faria de tudo para que fossem publicadas.

No cárcere, além de estudar, Gramsci escrevia cartas. Cerca de 500 correspondências foram enviadas por ele, sobretudo aos familiares, em condições, é claro, incomuns a qualquer obra epistolar. Uma única vez a cada quinze dias, ele podia escrever apenas duas cartas e sabia que seu conteúdo seria lido e analisado pelo diretor da cadeia, que tinha o direito de censurar trechos inteiros ou mesmo impedir o envio. Ainda assim, Gramsci conseguia mandar notícias carinhosas, em que, mais do que desabafar sobre o seu presente (a sinceridade não era, afinal, permitida), se lembrava de histórias do passado ou sonhava com o futuro.

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A mãe, Peppina, e uma de suas netas, sobrinha de Gramsci (foto: International Gramsci Society)

Nas cartas que trocava com a mãe, Giuseppina Marcias, também conhecida como Peppina, era clara a preocupação do filho em explicar os motivos políticos que o levaram à prisão – Gramsci não queria que ela se sentisse envergonhada com aquela situação. Para tranquilizá-la, vivia se recordando, nas cartas, de episódios felizes de sua infância na Sardenha, incluindo as receitas que ela costumava preparar, como os kulurzones, raviólis de queijo, e os doces de figo. Certa vez, Peppina chegou a enviar para a prisão um panetone que, no entanto, só chegaria meses depois do Natal, sabe-se lá em quais condições.

Ao longo do período no cárcere, a mãe foi adoecendo, assim como o filho que, em 1933, chegou ao extremo do sofrimento físico, com o agravamento da tuberculose óssea com a qual lidava desde a infância. Nino teve de ser transferido para uma clínica carcerária, em Formia, e assim que isso aconteceu pôde escrever uma carta para avisar a mãe, com quem a doença o havia impedido, há meses, de manter contato. Em 8 de março de 1934, ele enviou o seguinte:

“Querida mamãe,

No ano passado, devido às graves condições de saúde em que me encontrava justamente durante esses dias, não me foi possível lhe enviar os meus parabéns pelo seu aniversário. Não quero que também este ano transcorra sem que lhe recorde a minha grande ternura. […] Tenho poucas informações sobre as suas condições de saúde; Teresina me escreve pouco, e do mesmo modo Grazietta. De agora em diante espero lhe escrever regularmente, ainda que não com muita frequência. […]

Querida mamãe, abraço-a com todo o meu afeto juntamente a todos os de casa.”

A correspondência, no entanto, chegou tarde demais. Peppina havia morrido há mais de um ano, em dezembro de 1932, sem ter realizado o desejo de preparar um almoço em família com o filho, sem ter tido a chance de sequer vê-lo novamente. Os irmãos, preocupados com o debilitado estado de saúde de Gramsci, tampouco tiveram coragem de avisá-lo da morte da “querida mamãe”. Ele saberia da notícia já muito doente. Manteve-se ainda firme até 1937, quando, em 21 de abril, a pena chegou ao fim e lhe foi concedida a liberdade. No dia 27 do mesmo mês, ironicamente, um derrame cerebral lhe tiraria a vida, de vez.

 

* Expressão sarda.
** Trocadilho feito com o nome dos Corrias, parentes de Giuseppina, e “corriazu”, que em sardo significa “resistente”.

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