Por que o feijão queima?

O feijão queima, porque a mãe teima em escrever um parágrafo depois de a fervura se erguer e a chama baixar, contando com os quarenta e sete minutos mais demorados de uma pressão. Só que esses passam num átimo.

O feijão queima, porque o telefone toca (como assim?) ou porque é preciso pagar umas contas e nessa não ida ao banco a mãe se distrai com um e-mail a lhe tirar o fôlego, que não consegue respirar se não responder, que não consegue enviar sem revisar, que não consegue revisar antes que alguém miúdo chame e que envia de qualquer maneira e, por fim, vê a carta ir embora e não consegue segurar. A carta vai e leva em seu corpo 12 um “bando de dados” no lugar de um “banco de dados”, um “monstra” no lugar de “mostra”, e porque, afinal, é preciso responder ao chamado da pessoa pequena. É tarde.

O feijão queima porque a mãe pensa que depois que fecha a tampa as coisas estão encaminhadas. Só que nunca estão, e cada minuto é um novo tempo cheio de espaços e oportunidades para o espetáculo se espalhar, o espetáculo em que a criança pequena canta, dança e enrola a língua inventada, e pinta, escreve e lê, equilibrando trolls da ponta dos cachos que pesam em seus cabelos longos, tão longos que a mãe quando percebe começa a contar dias e dinheiros para ver quando daria para providenciar um bom corte e, antes de conseguir traçar um plano mínimo, sente o cheiro. O feijão queima nesses buracos do tempo que se abrem e engolem as mães. E os pais. Que choram.

O arroz também queima. Umas duas vezes por semana. De novo chorando, mamãe, pergunta a menina. A mãe, chovendo em si, aquela cara de ai, eu não consigo, quando faltam vinte minutos para o meio-dia e da qual não se lembra às dezoito e quinze do fim da tarde, faz um molho do tipo Alfredo ou de tomate perfeito ou assa umas trutas com batata, que ficam mais gostosas e brilhantes na frigideira e ao repetir a ladainha das águas frias na tentativa de encantar a menina que finge que sim. Ferve brócoli, quem sabe? Ué, mas não ia ter feijão? O feijão queimou, filha.

***

Este Lembraria está cheio de mães e mães de mães que provavelmente queimaram muito feijão, mas ninguém conta. Na verdade, está cheio de filhos e filhas pendurados nas memórias de pratos inimitáveis e receitas impossíveis de polenta tostada, frango refogado, carne ensopada, pastel bem fornido. Porco na lata, nhoque, bolinho de chuva, sopa de pão, panqueca, bife acebolado, sonho recheado de goiabada. Arroz mexido com ovo. Como que presos no cabo de guarda-chuva que é a memória, segurando firme, esses filhos e filhas e netas e netos são levados para aquele gosto que gostam de lembrar e de desencontrar.

Quantos feijões queimados em alguma angústia escondida para cada polenta que deu certo? Uma briga de amor, um medo do futuro, uma frustração, uma dor no corpo, um não dar-se conta, uma sensação de insuficiência, de querer desistir e de fugir, sair pelo mundo?

Amor de mãe não é incondicional, embora eu esteja lendo exatamente essa frase agora na quarta capa de um livro chamado A mãe que chovia (Companhia das Letrinhas), de José Luís Peixoto, sobre o menino filho da chuva.

Amor de mãe, na verdade, é amor profundo que é o que às vezes nem cabe, verdade, mas em outras tantas divide espaço no enfrentamento, na raiva, na vontade de gritar, de dar um safanãozinho moral.

Maternidade não é maravilha. Tem maravilha. Não é milagre. Chuva é milagre. Maternidade é travessia, né? Um estar na vida fingindo ou não que tudo bem.

Gravidez pode ser horrível ou gostosa e as duas coisas também. Maternidade pode ser difícil de viver e não acaba nunca. Mãe é isso, acho, interminável. Às vezes, uma palhaça, em outras, uma tranqueira; às vezes chorona, às vezes brava, às vezes tudo e louca e que manda o motorista do caminhão para um lugar de quem o miúdo filho só ouviu falar na hora do recreio. E, principalmente, mãe às vezes queima o feijão. E o arroz. Só não queima se não fizer. Nunca.

E tudo bem se não fizer, porque não é obrigada, pode dar um jeito. Pode até enfiar a pessoa pequena no carro, passar na lanchonete e ensinar a amar hambúrguer. Ou cachorro-quente. Ou comer pastel de carne deixando o vinagrete escorrer pelo canto da boca. No queixo, no pescoço, no peito. Os do menino também se lambuzam e ele chegará sujinho na escola. Grande coisa. Um piquenique de emergência, porque hoje ela está arrasada, digo, atrasada, e erra tudo, mas acerta na risada de se ver no outro. Os dois no espelho. Ela precisava do glutamato do ketchup vagabundo. Lambe os dedos, mãe.

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