Mingau de coco colegial

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Mora no mingau de coco o sabor mais importante para Datagnan Oliveira Lima Moreira. Nascida no ano de 1979 no município de Gonçalves Dias, no Maranhão, era essa a merenda preferida dela no colégio de freiras da ensolarada Belém do Pará, onde passou parte da infância. Hoje Datagnan vive em Águas Claras, Brasília (DF).

“Mingau de coco colegial

Lá no meu tempo de criancinha, da primeira à terceira série, estudava em um colégio de freiras na ensolarada Belém do Pará, Nossa Senhora da Anunciação.

Me lembro como se fosse hoje da atmosfera desse lugar, o cheiro, o prédio que eu achava imenso e que pensávamos que se movia ao olharmos para o céu. Na verdade, eram as nuvens dançando lá em cima. Como era fantástica a imaginação das crianças. O colégio era muito grande com dois prédios, um para crianças menores até a quarta série e outro da quinta em diante. Eles eram separados por um jardim, meio bosque meio parque de diversão, cheio de árvores, flores, brinquedos.

Lembro-me das festas em comemoração aos dias das mães, dos pais, das crianças. Lembro-me também da minha professora, a freira Maria José, e de algumas alunas, colegas de sala, de brincadeiras e de aventuras infantis deliciosas e ingênuas. Nutro uma saudade imensa e tão gostosa dessa época. É uma recordação boa que trago ao longo de mais de trinta anos. Saudade traduzida em cheiro e paladar. Um cheirinho tão bom, que eu sentia ao subir para a sala de aula, de cadernos, livros, lápis, giz de cera e massinha de modelar, tudo novinho. (…). Cheirinho que só era substituído quando chegava a hora mais esperada por todo aluno, a hora do recreio! Ainda na sala de aula, antes do intervalo, a gente já sabia o que ia ser servido por que o aroma da comida exalava pela escola toda. E eu, que sou um pouco chatinha para comer fora de casa, torcia para sentir o aroma do mingau de coco. Ai, quando era servido esse mingau e a escola era tomada por esse cheiro, cada minuto para o intervalo era uma deliciosa tortura. Só ficava esperando o sino tocar e eu era conduzida escada abaixo pela fumacinha do mingau como nos desenhos animados.

Ao chegar no refeitório, eu pegava o meu prato e estendia o meu braço para a cozinheira com um sorriso nos meus olhos como forma de agradecimento por ela me proporcionar uma sensação reconfortante com aquele mingau.

Ela não sabe o quanto aquele alimento foi importante para mim. O quanto ele me alegrou por estar longe da minha mãe ou quando a minha mãe esquecia de colocar a minha chupeta na mochila. E lá ia eu repetir a dose. Põe mais, por favor! Obrigada!

Sinto o gosto do mingau na minha boca de forma afetiva, mas nunca mais consegui experimentá-lo de verdade. Já comprei algumas vezes um e outro mingau, e desisti de encontrar o verdadeiro, até para não perder toda a sensibilidade e nostalgia daquele momento em que tudo era muito fantasioso e fantástico só porque eu era criança.

Vou tentar vivenciar isso novamente quando minha filha entrar em fase escolar. Cada livro e caderno novo dela, sei que vai me reportar para aquele momento mágico da minha infância e, quem sabe, talvez eu faça para ela algum mingau de coco. Tomara que para ela também seja mágico esse momento.

***

Este depoimento deu origem a um verbete em O dicionário das comidas impossíveis, que surge das respostas ao questionário Fatias de memória.

Clique aqui para contar sua história e nos ajudar a preencher esse relicário.

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