Memória indígena: quando não tinha beiju, fazia mingau de erva-cidreira

Desde pequena, a cearense Raimunda Cruz do Nascimento, mais conhecida como Raimundinha, testemunhou de perto a difícil luta de sua comunidade, de ascendência indígena, para sobreviver. Sem estudo nem dinheiro, sua mãe havia sido abandonada pelo marido, com cinco filhos, e acabou sendo enganada pelos posseiros da região, gente rica e poderosa, e expulsa de sua terra.

Nascida em 1947, Raimundinha era a filha mais velha. Ainda criança, começou a ajudar a mãe, que se dividia entre o trabalho na pedreira local – era “quebradeira de concreto” – e, no fim de semana, na roça de subsistência que se vira obrigada a mear com o posseiro (ainda tinha de pagar o uso daquele pedacinho de lavoura com parte de sua mísera produção de milho). A vida da família era “sacrifiçosa” e a comida, pobre e insuficiente.

“Comia beiju. Quando não tinha beiju a gente tomava era com farinha mesmo. Ela fazia o chá de cidreira, botava um pozinho de farinha dentro e mexia, aí ficava aquele mingauzinho fino de cidreira. E ela botava uma canequinha pra cada um. E assim a gente levava a nossa vida.”

Intercalado por sensíveis descrições de seu dia a dia, o relato que Dona Raimunda concedeu ao Museu da Pessoa, em 2014, também é permeado por indignação. Mesmo sem nunca ter estudado formalmente, ela se tornou uma das lideranças da etnia Tapeba no movimento em favor de seus direitos e da demarcação de seu território – um processo que já dura mais de trinta anos.

Leia trechos do depoimento abaixo (a versão completa está aqui). A canção Demarcação Já, de Carlos Rennó e Chico César, acaba de ser lançada para apoiar o movimento de demarcação do território indígena; a mensagem é bem parecida com a história dura e real que Raimunda nos conta.

Mãe solteira, quebradeira de concreto e roceira

“Nasci no Croatá, cheguei aqui pequena e me sinto uma Tapeba, sou uma Tapeba. Apesar de eu ser descendente dos Tremembé. Mas pra mim eu sou uma Tapeba, eu cheguei aqui muito criança, comecei na luta muito cedo, e respeito muito o meu povo Tremembé, mas o meu povo Tapeba principalmente.

Meu pai que eu estou lhe dando o nome foi o pai que me criou, porque o meu pai verdadeiro mesmo saiu e deixou a minha mãe com cinco filhos pra criar, tudo pequenininho. E a mais velha era eu, que tinha sete anos, os outros quatro pequenininhos, tinha um que sentava. E de lá pra cá a minha vida de criança passou a ser adulto.

Minha mãe saía pra trabalhar e eu ficava em casa. Eu era a mais velha. Nessa vida, inté eu poder criar mais força nos braços pra ajudar minha mãe. A outra foi crescendo também, a que era mais nova que eu. A partir dos meus oito anos eu comecei a acompanhar ela pra trabalhar.

Trabalhava em pedra, essa pedreira aí que hoje é cheia d’água. Ela quebrava pedra. E tinha um roçado que ela plantava, que ela limpava nos dias de sábado e de domingo. Longe, no Lameirão. Aí eu ajudava ela, de todo jeito eu ajudava a minha mãe. Milho, feijão. Só que o roçado que ela plantava era pequenininho porque ela não tinha condições de plantar um roçado grande. Mas como ela era uma pessoa que tinha criado duas filhas dela só apanhando arroz e colhia outras plantas… Minha avó toda vida era uma pessoa que plantava, a família da gente já era, não vive [sem] a agricultura. Não depender só de coisa que não fosse agricultura não é viver. Então, a vida da gente é uma vida muito sacrifiçosa.

A casa que a gente morava quando eu era pequena era aqui no centro da mata, uma casinha de taipa, pequena, e nós passemo muito tempo lá. E o posseiro da terra foi lá onde nós tava, porque eles tinham se apossado dessa área aqui, que era dos antepassados e que passou pra mão dos posseiro. O velho foi lá na casa onde nós morava e a casa tava torta. Ele perguntou à minha mãe: “Quem botou vocês aqui?”, e ela disse: “Foi seu Alfredo Miranda”. Ele disse: “Botaram vocês pra morar ou pra morrer debaixo dessa casa? Porque essa casa está caindo, escore ela enquanto ela não cai. E quando desocupar uma casa na beira da lagoa vocês passem pra lá, ordem minha”, que ele era o posseiro dono da casa.

Sempre as pessoas, por coração duro que tiver, quando vê uma mulher sozinha tomando conta de um bocado de criança, as pessoas sempre ficam… Foi isso a nossa estadia de mudança, mudemo pra beira da lagoa. Nós já tava mais maior, eu trabalhava muito, eu não ia estudar. Eu não ia estudar pelo seguinte: eu não tinha tempo pra estudar. Minha mãe não tinha com que comprar material escolar pra botar os outros na escola, porque o que a gente ganhava era tão pouco, se tirasse pra comprar material didático pra ir pra escola não tinha o que dar de comer às crianças.

Toda vida a gente plantou no Lameirão porque aqui não tinha onde a gente plantar. Não tinha. Mas lá no Lameirão os Nogueiras arrendavam os roçados pra plantar. E era pagar renda com milho. Os Nogueiras eram os posseiros das terras do Lameirão, porque lá no Lameirão também tem uma parte que fica dentro da área indígena. É tanto que a gente plantava assim um pouquinho e não lucrava quase nada. Na verdade ninguém lucrava nada com o milho.

Tirava uma parte, a metade do milho, partia a metade. Essa parte aqui a gente podia tirar pra comer, canjica, pamonha, milho assado, o que desse. E essa outra parte era do posseiro. E era assim que gente vivia.

Minha mãe era quebradeira de concreto. Era medido por lata. Todo dia ela media aquele concreto que ela quebrava durante o dia. Quebrava com martelo. Tinha um arco feito numas, assim da largura de dois dedos de uma, como é que a gente chama? Umas braçadeiras que vinham nos tambores de antigamente, aí o pessoal tirava pra fazer arco, pra gente quebrar concreto. A pessoa arrastava com aquela coisa e quebrava com o martelo, pra não pular muito pra fora.

Eu ia juntando as metralhas [pedrinhas finas] pra ela, e ela ia quebrando o concreto. Quando eu cresci mais um pouco, aí, além de juntar metralha pra ela, eu ajudava a quebrar o concreto, porque eu já tinha força de correr, de metralhar pra ela e ainda fazia uma pra mim, ainda dava tempo para eu quebrar meu concreto.”

Beiju e mingau de erva-cidreira

“A gente saía de casa de manhã depois que fazia o café das crianças. Café com farinha, café com beijuzinho que a minha mãe fazia no caco. Ela ralava mandioca, quando tinha mandioca, ela ralava, espremia, aí fazia os beijuzinhos no caco. No caco, ó, podia ser um caco de pote. Porque de antigamente a gente usava os potes, as panelas de barro, e também a gente encomendava na louceira umas frigideirazinhas assim, por isso que a gente chama beiju no caco.

Comia um beijuzinho, bebia um cafezinho, quando não tinha café minha mãe fazia chá. Chá de cidreira, chá de hortelã. Tudo ela fazia chá. Aí a gente bebia aquele chazinho porque a gente achava muito bom chá de erva-doce. E uma vez minha mãe plantou um pé de erva-doce. Ela comprou erva-doce e disse: “Eu vou plantar um pé dessa erva-doce que ele vai nascer, que ele tem verdinho”, o verdinho diz que é novo. Aí ela preparou lá um pedacinho de chão, botou uns tijolos, botou a semente lá, nasceu um pé de erva-doce, a coisa mais linda do mundo. E eu tinha vontade de beber chá de erva-doce, só que a minha mãe não tinha como comprar a erva-doce, que era comprada. E os outros chás não, porque era tirado na natureza, plantava, o capim-santo, cidreira, tudo ela plantava em casa.

Comia beiju. Quando não tinha beiju a gente tomava era com farinha mesmo. Ela fazia o chá de cidreira, botava um pozinho de farinha dentro e mexia, aí ficava aquele mingauzinho fino de cidreira. E ela botava uma canequinha pra cada um. E assim a gente levava a nossa vida.

Ela acordava cedo. Ela banhava o menino mais novo pra deixar ele banhadinho. Minha mãe era muito cuidadosa com os filhos dela. Quando ela chegava meio-dia ela banhava tudinho de novo, dava de comer, botava na rede, nós voltava pra trás, ficava tudo deitadinho. Fechava as portas, deixava a gente trancado dentro de casa, não deixava a porta aberta. Tinha medo que eles se perdessem na mata. Porque tinha mata, mata grande, mata grossa. Hoje nós não temos mais nada disso, mas tinha mata grossa. Aí ela deixava tudo trancado, que era pra eles não saírem pra fora, com medo deles irem brincar na mata e se perder.

Quando eu chegava em casa, eu nem chegava em casa logo, eu ia direto pra lagoa. Tomava banho, ia direto pra casa, tomava banho com vestido, com tudo, não tirava roupa. Eu só “trocia” o vestido assim, ó. Quando eu saía de dentro d’água eu pegava o vestido, tirava o vestido e “trocia”, e vestia de novo. Aí chegava em casa, eu comia, ficava por ali um pouquinho, bebia água e voltava pra trás de novo. Eu fui uma criança que brinquei de noite quando dava tempo. Quando minha mãe saía comigo de noite, às vezes, ela botava os meninos pra dormir, aí dizia: “Minha filha, vamos lá na casa da dona Chiquinha?”. Nós ia lá na casa dela e lá tinha um menino e uma menina, aí nós brincava de noite. Às vezes, eu levava minhas bonecas de sabugo, que as boneca, primeiro, a gente fazia de sabugo. É. Às vezes, minha mãe costurava um pedacinho de pano e eu enchia com folha, aí fazia uma boneca.

Porque antigamente os filhos também não escutavam conversa dos pais, eles iam conversar e a gente ia brincar. Aí a gente brincava com boneca de sabugo, as panelinhas eram delas, às vezes, a gente fazia inté guisado lá de noite, botava um pouquinho de alguma coisa pra cozinhar, pra gente brincar de noite. E lá na casa dela não faltava, pois os pais dela pedia esmola, e não faltava as coisas. E era assim porque antigamente quando a pessoa ficava velha, se não pedisse esmola pra comer, morria de fome, morria de fome. E aí foi isso, a minha criancice foi mais de trabalhar.

Do que a gente sente falta? Da falta da participação da gente com a natureza, que hoje, como você vê, mata, ninguém tem mata. Animal você só vê cantar só assim, preso na gaiola. Antigamente passava uma multidão de periquito aí, hoje a gente vê um periquitinho assim, preso nas gaiolas. Essas poucas coisas boas que a gente tinha e não tem mais. Hoje em dia a gente ficou de um jeito que a gente não tinha mais onde plantar, e quando uma pessoa plantava perdia a metade das coisas que plantava pro posseiro. Cada tempo que passava, as coisas ficavam mais difíceis, que eles já queriam renda até da mandioca.

Apesar de estar com 30 anos que a gente tá nessa luta, três décadas nessa luta, atrás da demarcação da nossa terra e até hoje ainda não saiu. Muitas pessoas se juntavam fazendo as reuniões, embaixo dos pés de pau. Quando foi em 83, no dia seis de fevereiro de 83, foi que se tornaram as reuniões.”

O aluá de milho

“Ela [minha mãe] fazia quando os meninos completavam ano, às vezes, ela fazia um licorzinho, um pouquinho. E fazia mungunzá, os aniversários de antigamente eram assim. Com aluá. Ela torrava milho. Ela fazia, torrava o milho, quebrava ele no pilão, pra ficar mais ou menos em banda, não era pra ficar xerém, era só pra ficar quebrado. Colocava dentro d’água, aí botava cravo, erva-doce, gengibre. Amarrava a panela por três dias. Depois tirava, coava, adoçava, pronto, o aluá tava feito.

Gostava de aluá de milho, eu não gostava muito de aluá de pão que era muito azedo. E gostava também do aluá só de cravo e gengibre, e erva-doce.”

Dezesseis filhos e chá de gergelim

“Quando eu cresci, com 16 anos, eu tomei conta da minha casa, do meu marido. E vivi mais ele esses anos todinhos, já completemo 50 anos que vivemos, de convivência na nossa vida.

Tive 16 [filhos]. Quando abriu esse trabalho de pedra, na pedreira, veio muita gente de fora pra trabalhar. E o povo dela foi um dos que veio. Ela era parteira, era conhecida como Mãezinha e pegou várias crianças nesse lugar, nos arrebalde. Conhecida como Mãezinha, ela era a mãezinha de muita gente aqui. Ela pegou parece que foi oito filhos meus, ela pegou a Vanda, o Antonio, Francisco, Marcos, João Carlos… Deixa eu ver, já foram cinco. Foi mais que ela pegou. Foi a Vanda, Tonho, o Tela, a Sílvia, o Marcos, o Joãozinho e… Ainda tem outro, ah, um aborto que eu tive de seis mês, sete. Sete filhos.

Quando chegou nesse último menino que ela pegou, ela disse: “Comadre, se você tiver outro filho você vai ter que ir pra maternidade. Porque seus partos estão ficando muito perigoso, muito perigoso, então, você tem que ir pra maternidade”. É placenta que não saía, essas coisas assim. Aí eu comecei a ir pra maternidade.

Tomava muita coisa. Quando passava por nove mês de grávida, a gente tomava gergelim, bastante gergelim com hortelã. Pisava o gergelim, fazia bastante gergelim, pisava uma colher de gergelim toda noite, fazia o chá de hortelã, tirava e bebia. E era assim, os remédios das grávidas era gergelim, sempre gergelim, tá no aceiro dos roçados, no aceiro o gergelim sobrevive. E a gente fazia muitas coisas.

Teve criança minha que eu tive deitada, teve criança minha que eu tive sentada em um banquinho que a gente tinha, mas eu tive minhas crianças mais deitada do que em pé. E também tive filho sozinha. Eu tive uma menina que nasceu sozinha, a Sílvia. Porque meu velho foi chamar a parteira, quando chegou lá, ela demorou porque tinha costume dos meus meninos custar a nascer. Quando chegou lá, ela demorou. Quando chegou em casa, já tinha nascido. Na rede. Só que, quando ela nasceu, eu vi que ela não tava respirando, eu peguei e virei ela ao contrário, ela nasceu de bruços. Porque ela tinha nascido de bruços. Aí eu fui e desvirei ela. Quando ela chegou, só fez cortar o “imbigo” dela.

A gente tomava chá de ameixa com óleo de rícino, pra que, se tivesse ficado algum resto, alguma coisa, sair e não ficar dentro da gente. Aroeira, minha filha, o chá da aroeira. A gente tanto usava pra se lavar, tomar meu banho, como usava pra beber pra modo de limpar por dentro.

A gente banhava [as crianças] no alguidar de barro, coisa dos mais velhos que a gente tem que banhar em alguidar de barro. “Porque a gente vem do barro”, diz eles. A gente vinha do barro, tinha que banhar, sempre a gente comprava aqueles alguidar grande pra banhar as crianças. Aí, era de acordo com o que a gente quisesse que os filhos da gente fosse, a gente botava uma casquinha de pau dentro. Aí, eu sempre gostei de botar a casca da jurema dentro da água, que era pra eles terem o poder da cura. Apesar que tem um hoje, eu nunca gostei, assim, de dizer assim: “Eu sou uma curandeira”. Eu rezo contra espinhela caída, eu rezo de quebrante, eu sei tomar sangue de palavra, mas eu sempre acho que quem pode tudo é Deus.

[Para tomar sangue de palavra] Coloca a mão em cima, o dedo, se for pequeno, coloca o dedo, se for grande, coloca a mão, aí reza. “É, sangue, vá pras suas veias, assim como foi o sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, que correu pela rua de Jordão.” Aí tem as palavras que se diz, que a força da reza se vai-se buscar no coração. Aí essa eu não posso lhe dizer, porque se eu lhe disser, acabou a reza, não serve mais pra nada. Porque eu não tô mais com ela, e sim com você. Que é a força da reza.

[Aprendi] com um velho. Era o Seu João do Couro Grosso, um velho muito velho, que morava aqui. Ele não morreu aqui, ele foi embora pro Tagima. Quando chegou lá, ele comeu uma coalhada e depois de um pouco de tempo ele comeu manga, aí ele morreu. Deu um negócio nele e ele morreu. Eu acho que não se deu muito bem a manga com a coalhada. Um negócio aí de uma coalhada com manga. Essa reza foi ele que me ensinou. Ele disse que já tava velho, ia me ensinar a reza de tomar sangue de palavra. E me ensinou. Ele disse que eu fosse buscar a força dentro do meu coração. Aí eu fui buscar a força no meu coração mesmo.”

Contra a vergonha de ser índio

“Antigamente, o nosso povo mais velho, eles tinham muito medo de falar. Não dizia que era índio, que na verdade Caucaia era uma tribo indígena. Foi tirado o nosso povo de lá todinho, os nossos mais velhos, e botaram pra cá, pra uma aldeia Nossa Senhora dos Prazeres, como era chamada. Os posseiros se apossaram e tomaram tudinho do índio. Muitos estão na beira do rio Ceará, ou na beira do Trilho ali, e daí por diante, era tudo espalhado assim. Ficou tudo sem as casinhas deles. Eles se apossaram da aldeia Nossa Senhora dos Prazeres. Aí ficou ruim pra nós.

Tinha tapera da finada Brasa, que era uma índia antiga. Tinha tapera da finada Rosa, que era uma índia antiga e da Maria Grande, antiga também, chamava ela porque ela era muito alta, então, chamavam ela Maria Grande. E tinha as taperas dos mais velhos tudinho espalhado por ali. Só que a gente sabia que era deles aquilo ali, a gente sabia que aqui era uma aldeia. Sabia que os posseiros eram quem tinham se apossado daqui. E começou-se a fazer reuniões, fazendo reunião, fazendo reunião, ainda na era de 70.

Aí foi juntando mais e foi juntando. Já tinha gente daqui da Lagoa, gente lá da Ponte, já tinha gente do Trilho, ia se juntando e conversando, só ficava ali, as conversas não saíam dali. E saía assim, pra ir atrás de ajuda, de alguma coisa, nesse tempo o pessoal era muito necessitado mesmo, ainda hoje tem gente que ainda é, e vivia assim. Quando foi, Dom Aloísio Lorscheider começou a descobrir os índios, aí começou a… Quando foi no dia 6 de fevereiro de 83, foi a primeira reunião com Dom Aloísio Lorscheider, no dia 6 de fevereiro de 83.

Quando foi um dia, o Dourado perguntou se não tinha como tirar essas reuniões debaixo dos paus pra botar pro mundo. Disseram que sim, tinha, estavam esperando que alguém fizesse isso, pedisse pra fazer isso e não eles terem a iniciativa de fazer. Encheram os carros tudo de gente, foi tudo pra matriz de… Fomos pra matriz, pra Igreja da Sé. Em Fortaleza. A Igreja da Sé de lado tinha uns quartos com muito computador, muita coisa. Aí foram tudo, botaram tudo os computador, as coisas dos índios. E daí por diante pronto, daí as nossas reuniões começou a ter ata, aí formaram as Associação dos Índios Tapeba de Caucaia. Comecei a crescer. Aí, a minha menina começou dando aula debaixo de um pé de pau, a ensinar, e eu comecei a me envolver com a escola.

Nós começamo a se organizar. Veio essa cerâmica pra aí, fizeram outra cerâmica grande, aí já foi melhorando mais, porque já tinha mais trabalho pro povo. Porque, quando terminava a limpa de roçado, ia trabalhar onde? Não tinha onde trabalhar. Porque, quando tinha os roçados, aí uns trocava dias, outros pagava pra limpar e a vida era essa, era muito ruim, muito ruim mesmo porque ninguém tinha sobrevivência.

Era escravidão, não era? Quando ele recebia aquele dinheiro, os pai de família recebia, comprava um quilo de feijão, um quilo de farinha, um pacotinho de café, um açúcar e pronto, acabou-se o dinheiro. Era muito, muito, muito difícil a vida. Quando eu entrei na luta também pela demarcação das terras. E a gente andava, a gente andava, a gente viajava e a gente passava fome nos cantos porque ninguém tinha ajuda de ninguém pra viajar. Quando a gente arranjava era as passagens. Aí vamos comer banana com casca e tudo pra não morrer de fome nos caminhos.

Eu fui em Brasília, fui pra São Paulo, já fui pra Recife, Pernambuco, eu já viajei pra muitos cantos. Tudo era sobre demarcação das terras. Uma foi a minha viagem pra Recife e de lá pra São Paulo foi documentação do direito do índio, pra botar no documento o direito do índio, que não tinha, tinha pessoas especiais. Sabe os filhos de coronel que ainda quer pisar a gente? Que ainda tem gente assim. Tinha um filho de um coronel lá, calçado com uma botona de couro de jacaré, tudo pra frente, rico.

Aí, quando foi na hora de falar a gente falou: “E não já tem povos especiais?”, eu digo: “Meu filho, nós não somos povos especiais, nós somos pessoas da terra. Quando vocês chegaram aqui nós já existia, nossos antepassados já existiam aqui na terra. Nós fomos os primeiros sobreviventes a pisar nesta terra”.

Eu fui, eu disse a ele: “Olhe, você é filho de coronel, não é? Calçado aí nas suas lindas botas de couro de jacaré, matando os pobres dos brutos pra fazer sapato, mas no meu pescoço você não vai pisar não. Foi-se o tempo que os coronel pisavam nos pescoços dos índios e fazia eles de escravo, mas hoje eu não lhe dou esse direito, eu não lhe dou esse direito. E eu quero nosso direito botado aí no papel, porque foi pra isso que eu saí da minha casa pra passar uma semana aqui, foi buscar os nossos direitos, e eu quero botado aí nesse papel. Pode até ele não valer nada, pode até não valer nada, porque sempre que a gente faz, todo sacrifício que a gente faz, engaveta e lá fica, mas eu quero botado aí”. Foi quando ele murchou. Mas ainda hoje em dia tem isso.

Minha filha, agora é bom porque ninguém sofre preconceito, primeiro era muito preconceito. Inté as crianças estudava fora, tinha preconceito. A gente era chamado, era os come-carniça, os tapebanos, os come-carniça, era assim que a gente era visto. De uns tempo pra cá a gente se reconheceu-se como Tapeba. Nós somos Tapeba e não importa o que os outros pensam de nós, não se importa com isso, ninguém quer nem saber disso. Muita gente que falava, que mangava, também é índio. Só que como uma coisa que os pais nunca dizia pros filhos, as origens do seu povo, ficava aquele escondido ali.

Quando nós se reconhecemos que nós era índio, aí é na base do não importa se você quer ou não, o que importa é que nós sabemos que nós somos. Eu, minha pessoa, eu digo pros meus filhos: “Meus filhos, não importa o que os outros pensam de vocês, não importa. Se você é branco ou preto, se você é roxo ou moreno, não importa. O que importa é o que nós somos. Não importa o que os outros digam ou o que os outros falem, não importa, não. O que importa é você não se envergonhar do que você é, porque a coisa mais triste é nós termos vergonha de nós mesmos“.

É o que eu passo pros meus filhos, pros meus netos, na escola quando eu vou falar, eu digo pros alunos que ser índio é muito bonito, é maravilhoso, é bom, contanto que nós respeitemos nós mesmos, porque se nós não respeita nós mesmo, quem é que vai nos respeitar? Se nós próprio não se respeita? Entonce, é isso que eu passo pra eles. Eles me fazem muitas perguntas das coisas mais antigas e eu respondo as perguntas. Eles vêm fazer pesquisa comigo, às vezes, eu me sento lá naquele banco acolá e nós conversa, passando as histórias, e eu: “Meus filhos, registrem essas história, vocês registrem, vocês usem um caderno só pra vocês registrarem as histórias, que é pra vocês ficarem com elas guardadas, pra quando o professor pedir uma história do índio vocês terem, vocês já terem sua própria pesquisa, é só você procurar no caderno que você registrou a história que você vai encontrar.”

Esse é o meu desejo, que a nossa comunidade cresça cada dia mais e que as coisas ruins que tenham lá fora não venham pra cá, pra dentro. Que é muito triste a gente ver o que está acontecendo lá fora, criança morrendo. Aliás, nós vivemos num país sem lei, um país que não tem lei e não tem respeito. Criança mata, usa droga, umas crianças com nove anos, com 13 anos, já tudo se drogando, tudo matando os outros. E simplesmente não tem uma punição, simplesmente a criança mata e volta, rebolam ele na rua pra matar de novo. Isso aí não é pra existir, tem que ter alguma coisa pra salvar as crianças disso aí, salvar eles da morte, porque estão matando demais as crianças. Isso aí era o que os governantes devia se preocupar. Não era isso aí que eles deviam se preocupar, com as crianças?

Que daqui mais uns anos não tem mais velho, não. Eles vão se livrar dos velhos, porque mais uns anos não tem mais velho pra aposentar, porque estão matando as crianças hoje, os velhos que têm vão morrer e mais tarde não tem velho. E eu, minha pessoa, queria muito muito muito mesmo que esses governantes salvassem essas crianças, fizessem lei. Fizessem lei, porque agora tem, não existe mais lei, existe é mordomia. Inté ganhar dinheiro preso ganha, fazer o quê, se essa é a lei?

Você sabe, a gente se lembrar de coisas que aconteceu, tem muita gente que diz assim: “Eu não gosto de me lembrar do que eu passei, eu gosto de me lembrar pra frente”. Eu digo: “Pois eu acho bom você crescer e olhar pra trás e não se envergonhar do que fez atrás. É muito bom que você pense nisso, andar de cabeça erguida, sem se envergonhar de olhar pra trás”. No meu conhecimento de vida eu fui uma pessoa que lutei muito, batalhei muito, passei muita necessidade, mas não tenho vergonha de contar a história da minha vida pra ninguém. Eu não me envergonho você sabe por quê? Porque no tempo que a gente não podia comer carne, não é vergonha, é a maneira de você viver, viver de pesca que nem eu cansei de pescar pra fazer o tempero da minha casa.”

O dia em que a pesca salvou a janta derramada

“Uma vez, a minha mãe trabalhava na pedreira e nós cheguemo de tardezinha. Ela botava feijão no fogo pra de manhã e de tarde. Quando era de tarde, que ela chegava, ela fazia “loco loco” pra nós comer. “Loco loco” é colocar farinha dentro do feijão, mexer, deixar ferver, tirar do fogo e aí pronto, a janta tá pronta, só o feijão e a farinha. Ela botava nos prato e a gente comia.

Quando nós chegamo em casa o cachorro tinha virado a panela e tinha derramado o feijão. Aí, lá em casa, tinha um cajueirinho que ela tinha plantado, que era pequeno assim, eu olhei e ela tava lá no cajueirinho. Eu vi que ela tava chorando, vi também que era porque ela tinha derramado a comida e ela não tinha o que dar de comer a nós de noite. Peguei um anzol, desci, fui pro poço, e ela: “Minha filha, pra onde você vai a uma hora dessa? Já tá ficando escuro”. Eu digo: “Mãe, eu volto já já”, e saí correndo com as minhoquinhas que eu arranquei debaixo do jirau, com a colher, minhoquinha só os fiapinhos.

Aí fui, quando cheguei lá no poço, só fui limpar assim, ao redor assim, tirar os aguapé e botei o anzol, era assim como se ele estivesse me esperando, sabe? Era só arrastar, uns carás desse tamanho assim. Aí peguei seis, grande assim, caraçu. Não era esses cará que tem hoje, que não sei de onde foi que veio esses cará, primeiro não tinha eles não. Era uns caraçus grande assim, uns bichão bem bonito, umas caras bem grande. Cheguei em casa com seis cará. Aí: “Mamãe, trate esses carás e bote um aqui dentro da cuinha”, tinha uma cuinha comprida lá em casa, “que eu já vou já lá na dona Chiquinha”. Dona Chiquinha era a velhinha que eu dizia que pedia esmola. E que lá não faltava as coisas porque ela pedia. Fui lá, quando cheguei lá, fui trocar o cará pela farinha. Aí ela: “Minha filha, cadê a vasilha da farinha?” “Tá aí.” Ela: “Ai, meu Deus, minha filha, você inté na pedida é pobre.”

Porque a cuinha era muito pequenininha, a cuinha que eu levei o cará, desse tamanho assim, do tamanho do cará era a cuinha. Aí ela disse que inté no pedido eu era pobre. “Vá buscar o saquinho que você pesca com ele que eu…” Nós se juntava de noite, que a minha mãe ia pra lá conversar, e eu mais as meninas, netas dela, filhas da filha dela, ia tudo pescar, tinha saquinho. Aí eu fui buscar e ela me deu mais ou menos uns dois litros de farinha no saco e eu fui-me embora. Cheguei em casa, minha mãe já tava fazendo a janta dos meus irmãos. Isso aí e foi muitas e muitas coisas que eu fiz na minha vida.

Ah, meu Deus do céu! Nós crescemos assim. É tanto, é tanto que a minha mãe, quando ela pegou o mal de Alzheimer, ela não conhecia ninguém, mas ela me conhecia pelo cheiro. Quando eu chegava lá, ela: “Quem é, quem é?” Aí eu não dizia, me agarrava e deitava mais ela. Deitava mais ela, abraçava ela, aí ela: “Hum, é minha fia“. Ela me conhecia pelo cheiro.”

***

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