O anel de Eudoxinha (e o bolo de noiva com surpresas)

Gazeta Juvenil_25 de dezembro de 1949_O anel de Eudoxinha
Parte da ilustração feita por Zaé Junior para o conto de Geraldina Marx publicado na edição de 25 de dezembro de 1949 da Gazeta Juvenil (acervo Hemeroteca Digital/Biblioteca Nacional) 

“A fazenda Santa Rosa regurgitava naquela semana: ia casar-se Eudoxinha, a filha mais nova do Dr. Pinheiro, um dos mais abastados fazendeiros da localidade. A grande casa entre árvores copadas, caiada de fresco, destacava-se pela sua brancura. Os móveis antigos brilhavam no verniz recente. As paredes haviam sido empapeladas de novo, com flores vermelhas estampadas no fundo bege; umas escravas enchiam travesseiros de pena e marcela, enquanto outras arrumavam os quartos para os hóspedes de fazendas vizinhas que viriam assistir ao casório. Na vasta sala de visitas já estava armado o altar e os castiçais de prata legítima iam sendo brunidos e alinhados à espera do lugar definitivo. Benta, a mucama, passava o dia no porão engomando as ricas toalhas de linho puríssimo que adornariam o altar e as mesas para o banquete. A mesa de jacarandá, de pés recurvos, onde seria assinado pelo juiz o termo do casamento, também estava cuidada e tinha a adorná-la um riquíssimo tinteiro de cristal e prata.

Mas o movimento maior era na cozinha e na grande despensa, onde se faziam os bolos de chocolate com flores e pássaros; os de nozes e as geleias; cocadas e brevidades, casadinhos, baba de moça etc. Entretanto, o que requeria mais cuidado e que recebera a opinião valiosa das doceiras peritas das redondezas era o artístico bolo de noiva que estava sendo executado pela exímia cozinheira da fazenda, a mulata Ermantina, que apregoava a todos a honra que sentia em fazer o bolo da menina, assim como fizera o da patroa quando esta se casara com o dr. Pinheiro. Assemelhava-se a parte de cima, que já estava pronta, a uma grande torre branca, cheia de rosinhas e botões de laranjeira, tendo ao alto um alegre casal de pombinhos com os biquinhos unidos numa simulação de beijo de amor. Dentro da massa é que se manifestaria o talento da cozinheira. Apareceriam berloques de prata, curiosos e variados, que caberiam por sorte aos moços e moças, à medida que fosse cortado pela noiva e distribuído. Havia os coraçõezinhos minúsculos, ferradurinhas, tesourinhas, barquinhos (que significavam viagem próxima) e até uma aliança que prenunciava casamento para a moça ou rapaz solteiro que a apanhasse. A tudo isso presidia a senhora Christina Pinheiro, a pomposa dona da casa, que ia de um lado a outro, numa grande atividade.

A apresentação dos grandes “assados” fora confiada ao Tibúrcio, cozinheiro de fama, contratado especialmente. Era um preto alto e já beirando os sessenta. Analfabeto e pretensioso, jactava-se dos atestados comprobatórios de seu valor nessa arte, exibindo-os aos interessados. Terminada a tarefa costumava pedir à dona da casa referências ao seu trabalho num livro que possuía para esse fim. O peito estava coberto de medalhas por sobre o avental branco. Muitas estrangeiras e que ele atribuía a prêmios obtidos como cozinheiro nos banquetes em que servira. E as senhoras fingiam acreditá-lo e o elogiavam muito.

Tibúrcio, auxiliado por um escravo, matava as aves e os leitões, tirava a pele dos cabritos; preparava as galinhas e depois que as retirava do forno as ia colocando na mesa de cavalete, de onde a copeira Zazá as levava para servir ao almoço das visitas que enchiam a casa, uma semana antes. O preto gostava de fazer o peru beber à força a cachaça que depois de ingerida tornava mole a ave até cair. E Tibúrcio aproveitava também para beber uns goles. Mas no que ele era realmente habilidoso era em “desossar” um cabrito; nesse mister a sua fama correra léguas. Tirava os ossos com grande maestria.

O dr. Pinheiro tinha três filhas moças e essa era alegre com a ruidosa vivacidade das jovens que a enchiam de risos. As primas agora estavam ali e tanta mocidade junta lembrava um bando de irrequietas andorinhas; à noite não faltavam as serenatas ao violão e a bela Zizenanda, uma das Pinheiro, cantava com a sua boa voz uma valsa pausada ou um alegre lundu.

A Eudoxinha, a noiva, ia casar-se com o Benevides Veloso, filho do Antonio Velosão como era conhecido, chefe político influente e fazendeiro dos mais ricos. O noivo estudara em São Paulo e se formara em direito; porém, os refinamentos por que passara na Capital não transformaram o seu físico rude de provinciano endomingado. Adorava a Eudoxinha. O Velosão amava tanto esse filho que se agastara a princípio por não poder festejar-lhe o casamento na sua rica fazenda “Moirão”. Depois se conformara ao dizer-lhe a esposa que a noiva observaria os costumes antigos, só saindo de sua casa depois de casada. Ele dissera amuado: “Não poder festejar com eu quisera o casamento do meu filho único!”

Eudoxinha era esbelta e com a graça singela dos dezoito anos. Seu busto frágil e o encanto que desprendia a sua beleza simples não condiziam com a figura rústica do noivo. Todavia, como se amavam, aplanariam essas desigualdades físicas aperfeiçoando e identificando as almas. Ela estava numa grande agitação.

Segundo os hábitos da época, o noivo fazia as visitas cerimoniosas e à noite retirava-se para a sua casa, na hora costumeira; então a Eudoxinha ia à sala de costuras para ver os últimos aprestos para o enxoval, o vestido de cassa, salpicado de azul, lhe ajustava a cintura esbelta, alargando-se depois em franzidos que davam muita graça ao seu porte simples e gracioso. As outras jovens a olhavam com uma secreta inveja e o que mais admiração lhes causava era o famoso anel que faiscava na sua mãozinha fina e espiritual. Fora o presente de noivado do Benevides. Joia preciosa, era um brilhante azulado e de ótima qualidade de que se falava em toda a redondeza.

Faltavam três dias para o enlace quando aconteceu aquilo: Eudoxinha não sabia como lhe caíra a pedra do anel ficando em seu dedo apenas o aro de platina. Foi um rebuliço na fazenda: Eudoxinha estava inconsolável. Lembrava-se apenas que estivera a dar milho às galinhas, no terreiro. Como ia morar na fazenda do sogro, despedia-se por essa forma daquela obrigação de todas as tardes e de que tanto gostava. Estivera, depois, no jardim, junto ao canteiro de “melindres”. A pedra se desprendera em virtude de uma garra solta e a jovem recriminava-se intimamente de seu descuido, pois já percebera que a pedra jogava um pouco. Gostava tanto do anel! Os escravos percorriam o terreno plano a palmo; o jardim e todos os recantos foram rigorosamente examinados; todas as dependências da casa foram minuciosamente revolvidas inutilmente. A valiosa pedra talvez estivesse misturada na terra ou quem sabe onde?

Eudoxinha não encontrava consolo possível. Seus olhos estavam vermelhos e inchados por tanto chorar. E os escravos? Estes eram fiéis ao extremo e entregariam a pedra se a tivessem encontrado. O que mais tristeza trazia à noiva era o agouro! Perder um anel de noivado antes de realizado o enlace era desgraça para a vida futura! O noivo procurava consolá-la. Que iriam depois de casados à Capital para comprar outro anel. Somente depois que as moças lhe disseram que ficaria uma noiva feia com os olhos vermelhos foi que se conformou. Era mulher…

E já no dia do casamento estava ela fechada no quarto, a cabeça cheia de papelotes, até que viesse a Benta encachear-lhe os cabelos negros e lustrosos. Algumas moças a acompanham olhando ainda o riquíssimo vestido de noiva que estava na cama. O véu de rendas verdadeiras, que pertencia à tradição da família, era admirado como se fora uma relíquia preciosa.

De repente, um alvoroço maior do que o causado na fazenda pelo estouro da República! Eudoxinha assustou-se e as outras também. O ruído de vozes se aproximava. Correram à porta. Vinha frente de alguns escravos o Tibúrcio, radiante, a mostrar as gengivas vermelhas na boca desdentada… Com o peito cheio de medalhas e o riso triunfante.

Dona Eudoxa… óia a pedra… Achei o brilhante.

O quê?! Perguntou a noiva, atônita. O brilhante! Onde é que estava? E, emocionada, tomou das mãos do negro a pedra tão querida.

Tava na moela do patinho preto e branco!

Espanto geral! Eudoxinha quase beijou o Tibúrcio…

O que ela nunca soube foi que o seu sogro, o Velosão, fizera uma viagem misteriosa à Capital, no dia anterior, e adquirira outra pedra parecidíssima com a que fora perdida. Depois, confabulara com o prestativo Tibúrcio para que ele fizesse a farsa.

E o bom do Velosão pensava na hora do enlace, lá com os seus botões, enquanto fitava a Eudoxinha linda como uma visão branca e esplendente de um sonho de amor:

Meu único filho a quem quero tanto! Não quero que haja na sua felicidade uma pedrinha para atrapalhar! Nem que seja de brilhante…

***

Geraldina Marx nasceu em São Paulo em 1911 e trabalhou como jornalista e escritora. Incansável, aos 90 anos, resolveu dar uma volta ao mundo. Visitou quarenta países – do Japão à África do Sul – e contou a experiência no livro Viagens do Arco da Velha. Morreu aos 102 anos, em 2013. 

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