Bolos de noiva: com frutas secas e virgindade

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O bolo do casamento de Dilson e Estherzita em 1958, em Muriaé, Minas Gerais, parece espalhafatoso…
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… mas fica até modesto diante do bolo-candelabro da festa de Manuel e Jandira em 1959, em Limeira, São Paulo (fotos: acervo Museu da Pessoa)

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Um dos mais tradicionais “amuletos” de boa sorte para quem acaba de se casar é o bolo da cerimônia, que, para intensificar seu poder, deve ser cortado pelo noivo e pela noiva juntos, segurando a mesma faca. Os “bolos de casamento” das fotos acima, com seus muitos andares e frufrus, são, no entanto, invenções recentes; antes deles, os “bolos de noiva” eram mais simples. Descendem, ao que tudo indica, de uma espécie de pão/bolo à base de trigo ou cevada chamado “mustaceum” e preparado para as celebrações de matrimônio realizadas há mais de dois mil anos, na Roma Antiga. O costume naquele tempo anterior a Cristo, segundo conta a pesquisadora britânica Carol Wilson no artigo Wedding Cake: A Slice of History, era o noivo “quebrar” o quitute em pedaços sobre a cabeça da noiva, para em seguida comerem, juntos, as migalhas.

Amigos e familiares presentes recolhiam os pedaços que restavam e os levavam para casa, como uma lembrança da união e um símbolo de sorte. Embora não provassem o bolo na cerimônia, os convidados dos casamentos da Roma Antiga comiam uma mistura de castanhas, frutas secas e amêndoas com mel conhecida como “confetto. De acordo com Carol Wilson, o banquete organizado para a união de Lucrezia Borgia e Alfonso d’Este, filho do Duque de Ferrara, em 1487, incluiu quase 118 quilos da guloseima que, além de ser consumida, era jogada sobre os noivos, novamente como metáfora de prosperidade e do desejo de um futuro doce. Em tradução livre:

“Esses docinhos eram ‘chuviscados’ sobre a noiva e o noivo; de fato, o costume parece ter sido o de jogar os doces com entusiasmo. Eventualmente, os doces foram substituídos pelo arroz, pelas pétalas de rosa e por papel colorido, e esses novos tipos de confete continuam a ser jogados sobre os casais felizes ao redor do mundo.”

Na Inglaterra, os dois hábitos – do bolo e dos doces – parecem ter se unido em algum momento antes do ou no século 17, quando já era tradição servir, nas celebrações de casamento, um bolo feito com frutas secas. Um, aliás, não; dois: o “do noivo”, cortado em fatias que seriam colocadas dentro de caixinhas e entregues aos convidados como suvenires, e o “da noiva”, maior, decorado com uma mistura de ovos e açúcar refinado duas vezes, que daria a ele uma cor mais clara do que a escura massa à base de passas.

O bolo do noivo não parece ter sobrevivido ao tempo – ou então, quem sabe, tenha se unido ao da noiva para formar o antepassado dos bolos em camadas… Certo é que, a partir do casamento da Rainha Victoria, em 1840, o branco passaria a ser símbolo das celebrações de matrimônio e, mais do que isso, da pureza e virgindade esperadas das mulheres. O vestido branco da rainha inaugurou uma tradição que não existia – não havia cor obrigatória para os trajes da noiva – e inspirou uma moda que segue viva até hoje em qualquer classe social; a do bolo real, todo branco e em camadas, também. Conta Carol Wilson que:

“No casamento da Rainha Victoria com o Príncipe Albert, em 1840, a cobertura branca foi usada para decorar seu bolo, e essa cobertura passou a ser conhecida desde então como ‘cobertura real’. O bolo multicamadas – que ao longo do século 19 foi gradualmente adquirindo o nome de ‘bolo de casamento’ – media quase três metros de circunferência. O London Times de fevereiro de 1840 descreveu o bolo em detalhes. Na segunda camada, que era apoiada por dois pedestais, uma escultura de ‘Britânia’ olhava para a figura do casal que trocava seus votos, enquanto aos pés deles havia um cachorro, simbolizando fé, e duas rolinhas, simbolizando pureza e inocência. Havia também vários cupidos esculpidos, incluindo um anotando alegremente a data do casamento em uma tábua.”

O excesso das decorações feitas de cera ou com açúcar acabaria tornando a expressão “bolo de noiva” um adjetivo meio pejorativo, empregado para identificar algo exagerado, quase brega ou ultrapassado. Há, no entanto, um leve equívoco nesse uso: no Brasil, ao menos até o fim do século 19 e início do 20, o bolo de noiva, ao que tudo indica, continuou sendo uma receita simples, sem “andares” ou invencionices, que, ao se sofisticar com a pompa propagada pela realeza vitoriana, ganhou outra versão e outro nome. Bolo de casamento.

Na edição de 22 de setembro de 1917, a Revista da Semana, famoso semanário de política que esteve em circulação no país entre 1900 e 1969, trazia uma informação curiosa sobre o assunto no meio da seção chamada “Nossa Alimentação”:

“Bolo de casamento
Um uso muito antigo na Inglaterra e que se está generalizando pelos outros países é de fazer-se para o dia do casamento um bolo especial (wedding-cake) para a noiva partir e distribuir pelos convidados solteiros, rapazes e moças.
Ao lado do bolo estão sempre as caixinhas para porem os pedaços que devem ser guardados como porte-bonheur [amuleto da sorte] pelos seus possuidores até o dia em que possam distribuir o seu.”

Logo em seguida, uma lista com a sugestão de menu para um “lunch” de casamento incluía “bolo de noiva” mais “bolo de casamento”, indicando que ambos tinham significados e participações diferentes em uma celebração assim. Enquanto o primeiro parecia ser algo mais corriqueiro, um dos itens entre os doces servidos, o segundo carregaria uma função simbólica, ostentando a riqueza das famílias que davam a festa – a receita, transcrita mais abaixo, era, afinal, importada e revela a necessidade de conhecimentos em uma confeitaria bem diferente da brasileira – e a pureza da noiva.

“Lunch para casamento:
MENU
Frios diversos
Galantine de caça
Mayonnaise de lagosta
Sandwiches
Charlote-russe
Bolo de noiva
Queijadinhas de creme
Bolo de casamento (wedding-cake)
Sorvetes-bombons”

Em Pernambuco, o nome “bolo de noiva” ainda se refere a um bolo de frutas secas e cristalizadas, assado em fôrma de bolo inglês, e não mais necessariamente preparado para as celebrações de matrimônio. O recifense e defensor das tradições nordestinas Gilberto Freyre, embora não tenha incluído o passo a passo da receita em sua obra Açúcar, de 1939, a mencionou como uma “instituição vivíssima” de sua região no prefácio à terceira edição, lançada em 1968. Na famosa Casa dos Frios e em outras docerias do Recife, o bolo de noiva é encontrado até hoje e comprado, geralmente, para acompanhar café da manhã ou da tarde.

O costume de levar um pedaço do bolo de noiva ou de casamento para casa também se manteve nessa região do Nordeste. Até pouco tempo, segundo a historiadora recifense Lecticia Cavalcanti, autora do livro História dos Sabores Pernambucanos, era hábito guardar por pelo menos um ano a fatia trazida como lembrança – depois disso, era preciso ter coragem para dividi-la e prová-la ao lado de alguém (um desses pedaços-suvenires do bolo de casamento da Rainha Victoria resistiu muito mais de um ano; foi arrematado por 1500 libras em 2016). A fatia guardada dava sorte para os noivos e garantia novos casamentos na família. De certa forma, os bem-casados, os docinhos de amêndoas e outras “lembrancinhas” de casamento cumprem essa mesma função, Brasil afora, ainda hoje.

Talvez não exista, enfim, ritual mais transmitido ao longo do tempo como o do casamento; de celebração pagã, passou a ser religiosa, espalhando-se por todos os segmentos de culto. Hoje, mais do que preservada, se comercializou. Costuma ser realizada como um espetáculo de ostentação, que faz esconder suas origens de cunho sexista, baseadas sobretudo na submissão da mulher pelo homem. Ele já não “quebra” o bolo em cima da cabeça dela, mas ainda a “recebe” do pai no caminho do altar, de vestido branco de pureza, com o bolo também branco, em múltiplas camadas e penduricalhos, hoje, de insossa pasta americana.

Versão brasileira
Nos livros de receitas oitocentistas – Cozinheiro Imperial, de 1843, Cozinheiro Nacional, da década de 1870, e Doceiro Nacional, de 1895 – o bolo de noiva ou de casamento nem sequer aparece, embora figurem outros tipos de receita indicados para banquetes e ocasiões especiais. É possível, portanto, crer que ele tivesse pouca importância nas celebrações, ou se assemelhasse a alguma das comuns variações de bolo existentes. Ao recordar de uma festa de matrimônio que testemunhou na segunda metade do século 19, a memorialista Maria Paes de Barros (1851-1952), no livro No Tempo de Dantes, menciona diversos quitutes, menos “ele”.

“À cerimônia seguiu-se um baile, aberto com a grande quadrilha de honra, em que figuraram os noivos e os convidados mais importantes. Finda esta dança, começaram as polcas, Schottisch e valsas, em que a mocidade tomou alegre parte. Pajens serviam chá em xícaras de porcelana antiga; outros traziam grandes bandejas com biscoitos e finos sequilhos de várias qualidades. Essas bandejas eram guarnecidas de ramos de flores feitas de finas tiras de coco, coloridas – camélias, brancas e rosas –, trabalho executado com perfeição pelas exímias doceiras de Itu. Outras bandejas eram ornadas com frutas feitas de alfenim, lindamente coloridas, imitando admiravelmente tangerinas, cajus, pitangas etc.

Ricamente decorada estava a mesa da ceia, que foi servida à meia-noite. De Santos (nesse tempo não havia ainda peixeiros italianos) veio o peixe, que um escravo trouxe à cabeça, viajando a pé toda a noite, para que chegasse fresco em São Paulo! Os convidados fartavam-se. Quanto à noivinha, docemente emocionada, recusava com tímido sorriso os doces e frutas que o noivo lhe oferecia.”

Em 1949, a jornalista e escritora Geraldina Marx (1911-2013) publicou na edição de Natal do suplemento juvenil de A Gazeta um conto sobre o casamento de uma moça em uma fazenda paulista, ainda antes da abolição da escravidão. Conhecida por ambientar seus romances em um passado cheio de vivos (e pesquisados) detalhes históricos – em sua obra Os Humildes é a cidade de São Paulo nos anos 1920 que lhe serve de cenário -, Geraldina descreve, nesse texto, o bolo que estaria sendo preparado para a festa.

“Entretanto, o que requeria mais cuidado e que recebera a opinião valiosa das doceiras peritas das redondezas era o artístico bolo de noiva que estava sendo executado pela exímia cozinheira da fazenda, a mulata Ermantina, que apregoava a todos a honra que sentia em fazer o bolo da menina, assim como fizera o da patroa quando esta se casara com o dr. Pinheiro.

Assemelhava-se a parte de cima, que já estava pronta, a uma grande torre branca, cheia de rosinhas e botões de laranjeira, tendo ao alto um alegre casal de pombinhos com os biquinhos unidos numa simulação de beijo de amor. Dentro da massa é que se manifestaria o talento da cozinheira. Apareceriam berloques de prata, curiosos e variados, que caberiam por sorte aos moços e moças, à medida que fosse cortado pela noiva e distribuído. Havia os coraçõezinhos minúsculos, ferradurinhas, tesourinhas, barquinhos (que significavam viagem próxima) e até uma aliança que prenunciava casamento para a moça ou rapaz solteiro que a apanhasse.”

Ficção ou não, a descrição da receita servida em uma suposta festa do século 19 brasileira lembra mais o bolo de casamento da Rainha Victoria do que o singelo e mais corriqueiro bolo de noiva com frutas cristalizadas – talvez seja, assim, uma projeção do que Geraldina via nas festas de casamento de sua época para as de cem anos antes. O interessante, de qualquer maneira, é que o bolo vinha com presentinhos escondidos na massa – como também era costume em bolos e tortas europeus, como a “galette des rois“, preparada até hoje para o Dia de Reis, na França – que traziam bom agouro a quem os encontrasse.

***
Receitas: bolo de noiva ou de casamento?

Em 22 de setembro de 1917, a seção “Nossa Alimentação” da Revista da Semana, publicada no Rio de Janeiro, trazia uma receita de bolo de casamento praticamente impossível de ser reproduzida: requisitava gordura de carneiro, incluía um tipo de fruta-passa importada conhecida na época como “corinthas” e tinha explicação desafiadora, mesmo para os confusos padrões dos livros culinários daquele tempo. Em vez de assar, o modo de preparo sugere que o bolo – ou uma maçaroca que se forma a partir da simples mistura dos ingredientes – cozinhe dentro de um guardanapo, em uma espécie de banho-maria no fogão a lenha. De massa escurecida pelo caramelo, o bolo não parece ficar como a foto que ilustra a receita, reproduzida logo abaixo.

BOLO DE CASAMENTO (WEDDING-CAKE)

250 gr. de gordura de carneiro bem picada, 500 gr. de passas, 500 gr. de Corinthas [um tipo de passa importada], 500 gr. de farinha de trigo, 200 gr. de açúcar, 1 cálice de cognac, 6 ovos, pedacinhos de limão e de laranja cristalizados, uma colherinha de canela, meia noz-moscada ralada, uma pitada de sal.

Misturar tudo durante um quarto de hora. Despejar n’um guardanapo bem forte peneirado com farinha de rosca.

Na ocasião de despejar no pano, mistura-se antes uma boa colher de caramelo (bala queimada) na massa para lhe dar a cor escura. Amarra-se bem o guardanapo pelas quatro pontas e põe-se dentro d’uma vasilha grande bem coberto com água e tampada. Deixa-se ferver quatro horas, tendo o cuidado de nunca ficar o bolo descoberto.

Cobre-se o bolo com açúcar batido com um pouco de água de flor de laranja.

Enfeita-se com flores de laranja e pétalas de rosa branca cristalizada. Lavam-se as flores. Faz-se uma calda grossa, despejando-se as flores dentro; deixa-se ferver um pouco batendo e continuando a bater até ficar quase fria. Tiram-se as flores que se colocam sobre peneiras para secarem.

Revista da Semana_1917_wedding cake
O “wedding-cake” resultante da complicada receita publicada na Revista da Semana de setembro de 1917; ao redor dele, é possível ver as caixinhas para os convidados levarem uma fatia como amuleto da sorte (foto: Revista da Semana/Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional)

Em 1929, a escritora Júlia Lopes de Almeida lançou O Livro das Noivas, que, como ela mesma avisa na nota de introdução, seria “inteiramente dedicado aos noivos” como um “repositório de preciosas informações para a vida do lar. Conselhos higiênicos de mestres abalizados, receitas culinárias absolutamente comprovadas, literatura leve, além de informações de grande utilidade e interesse […]”. Entre as receitas, Júlia incluiu a de um “bolo de noiva” sem passas, assim descrito (com ortografia atualizada):

BOLO DE NOIVA

2 xícaras de farinha de trigo – 2 xícaras de açúcar – 1 xícara de leite – 1/2 xícara de manteiga – 1 xícara de maisena – 2 colheres de chá de Baking Powder [fermento em pó] – 1 colher de chá de baunilha – 8 claras de ovos
Peneire todos os ingredientes secos antes de medir; bata tem o açúcar com a manteiga, depois junte 2 claras e bata bem; adicione a baunilha e um pouco de leite; peneire dentro um pouco de farinha, Baking Powder e maisena; bata, depois ponha um pouco mais de leite e farinha até acabá-la; por fim junte as 6 claras restantes que devem estar batidas; asse em forno branco por 1 hora e quando esfriar cubra com glacê.

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