Um samurai, um homem bom e o livre comer

Samurai Gourmet
Prato cheio: Takeshi Kasumi e seu amigo imaginário. Será que é preciso despertar um samurai interior para ter coragem de procurar o sentido da coisas (da vida e do gosto) no calor, no fundo de um pote? Em goles prolongados de cerveja?

Takeshi Kasumi tem 60 anos. Trinta e oito desses ele passou no escritório, praticando disciplinados e contidos gestos. Para chegar à oficina, percorria um caminho sempre igual, todos os dias. Nunca viu o restaurante japonês perto da estação, ainda que o lugar nas últimas décadas tenha testemunhado o passar do tempo no vaivém do homem magrinho, gentil, que fala baixo e sorri com os olhos e parece desprovido de grandes sonhos, comprometido com seus horários e que agora se aposentou e decidiu comer e beber o que quiser, sem pressa e, principalmente, prestando bastante atenção em tudo: gosto, lugar, pessoas, memórias. E sentimentos.

Isso parece despertar em Kasumi um senso de possibilidade. Ele entra, sua vida muda e a nossa, ao acompanhar, melhora.

Morador de Tóquio, Kasumi vive com sua mulher perto da estação de Ueno. Não sei qual é o nome dela. Deve ter dez ou quinze anos a menos, é linda e parece sempre despreocupada e amistosa. Moshi, moshi! Quando a vejo, não consigo evitar uma enxurrada de enxeridas indagações: não trabalha? Por que está sempre de saída para a ioga ou o coral? O que ela faz quando estão longe? Que outros interesses tem? Por que quase nunca os dois passeiam e comem juntos? Parece improvável que tenham filhos — ao menos não há mais ninguém vivendo com eles naquela casinha gostosa.

A fofoqueira curiosidade me faz querer que a mulher esteja vivendo lindas aventuras para depois, no fim do dia, voltar para Kasumi com ar de plenitude (como ele faz, às vezes: ir embora para voltar). Abandono esse pensamento (reservo, na verdade) justamente quando o homem começa a divagar sobre um prato. Vou junto. É melhor ela não interferir, mesmo. Há maior potência nas experiências quando ele está só, porque escava memórias e sentidos sem inibições. Sem distrações. Exceto uma: o amigo imaginário. Um samurai que sempre surge na dúvida, para supostamente encher Kasumi de coragem em sua jornada pelo livre comer. E beber.

Será que é preciso despertar um guerreiro interior para procurar o sentido das/nas coisas (a vida, o gosto) no calor (e no fundo) do pote de arroz, de lámen? Não. Ou sim.

Ao entrar no novo-velho restaurante, por exemplo, Kasumi se demora na dúvida. Cerveja? Quero. Ah, mas é almoço, não devo. Quero muito, preciso, só que é muita ousadia. Não posso. Então o samurai cruza a porta e, resumidamente, dá as coordenadas para deixar de frescura e beber logo, sem culpa. E o homem bebe. E come. Porco apimentado. Bebe um pouco mais e me deixa com vontade de ir até a geladeira agora e surpreender uma garrafa, encher um copo e tomar goles prolongados só para sentir uma pequena fração do que parece ser liberdade e poder —  o poder de fazer quase tudo o que quiser, porque aposentado, sem dívidas, com saúde e tudo bem. Puro conto de fada.

Samurai Gourmet é uma produção japonesa para o Netflix e deriva de um mangá. São 12 episódios de mais ou menos 20 minutos. Gosto, entre outros motivos, porque fala do que eu falo quando eu falo de comida. Fala do que é afetado por fazer, comer e viver e lembrar — o episódio do café da manhã na pousada é meu preferido. “As comidas nas cidades litorâneas são mais salgadas e têm o gosto da vida no mar.”

A série toda é sobre desejo, permissão e entendimento. Dormir, caminhar e comer sozinho; perceber o tempo, usar as horas; beber álcool no almoço, abrir um espumante sem motivo aparente (não, ele não faz isso; eu, sim); sentir o prazer aumentar nos pequenos bocados; distinguir as insignificâncias realmente desimportantes das pequenas coisas intensas. E imensas. Dos milímetros necessários. A propósito: abrir espumante sem razão não é banalizar o extraordinário, e sim enxergá-lo no ordinário.

Há uma certa ingenuidade em Kasumi. É um homem bom e para ele erguer o tom e se posicionar não é fácil. Isso poderia irritar, acho excessivo. Mas o que me aborrece, de verdade, não é a ausência das farpas, não é o esquivar-se do conflito. O problema são as cenas do samurai. Acho bobas e desnecessárias. Como é amigo imaginário, preferia que ficasse oculto, a exemplo das amigas imaginárias da minha filha, que sabem ser. Até vão com ela para o banho, mas não preciso lavar seus cabelos porque, veja, sou mãe de verdade e elas, invisíveis.

No entanto, estou só sendo rabugenta, como de hábito. Ignore. Se parar para ver um episódio e se sentir tocada/o pelas história de Kasumi, talvez perceba que chegou ao 12o. quando sua coluna estiver doendo um pouco, seu trabalho atrasado e o feijão queimando. Então finalmente ele vai jantar com a mulher e o que ocorre entre os dois naquele balcão é bastante especial. Juntos e à parte são ótimos. A série, também. Há três semanas preencheu minha tarde de sábado. No fim, estava faminta de tantas coisas e menos preocupada do que quando comecei.

Agora, com Samurai Gourmet,  dá para dizer que temos no Netflix duas coleções de fábulas japonesas sobre a vida à mesa, que saíram de mangás. A outra é Midnight Diner.

Trailer:

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