Páscoa com saci e confeitos de anis

Moscardo_15 de abril de 1944_ovo de páscoa
No jornal satírico Moscardo, fundado pela comunidade italiana em São Paulo, uma charge na edição de 15 de abril de 1944 mostra a vitrine da Confeitaria Vienense, uma das mais refinadas da época, cheia de ovos de “Paschoa”. O menino aponta para aquele que tem “cara de gente”, mas a mãe o decepciona… Ainda não eram tantas as variações de ovos naquele tempo

A Semana Santa por muito tempo marcou o fim da Quaresma iniciada no Carnaval. Apontava o dia em que, para os mais religiosos, era possível voltar a comer carne vermelha, galinha e ovos. Antes do Domingo de Páscoa, no entanto, ainda seria preciso jejuar na Sexta-Feira Santa, ou Sexta-Feira Maior, pelo menos até a hora do almoço, quando nas casas do interior haveria uma refeição à base de peixe pescado nos rios e açudes, em esquema de mutirão; nas cidades, o prato seria bacalhau seco trazido de navio da Europa. A comida era servida de modo tão festivo quanto no Natal.

Dona Risoleta, que recentemente nos visitou no Lembraria (em conversa que pode ser lida ou ouvida no podcast número zero), chegou a se lembrar com alegria da refeição desse dia santo no depoimento que deu à professora Ecléa Bosi na década de 1970, quanto tinha quase 80 anos:

Semana Santa a gente precisa jejuar, era o dia que nós comia melhor em casa. Meu pai comprava peixe, fazia bacalhau, e era aquela mesa bonita, botava vinho na mesa, todo mundo tinha que tomar um pouquinho porque era o sangue de Cristo. Até meio-dia ninguém comia nada de manhã, às vezes tomava uma xicrinha de café. Ao meio-dia em ponto estava aquela mesa grande, abobrinha com bacalhau, bacalhau assado, salada bonita, com bastante cebola, ovos… Semana Santa era aquela alegria…”

Praticamente cem anos antes dessa cena, o viajante francês e professor de botânica Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853) tinha passado os dias que antecedem a Páscoa na cidade de São Paulo. Era 7 de abril de 1822, ano em que o Brasil se tornaria independente de Portugal. Ainda faltava mais ou menos um século para que os ovos pintados à mão (depois, de chocolate) chegassem ao Brasil e para que o coelhinho assumisse o lugar do saci, que, diga-se, aparecia para dar sustos em crianças e adultos, e não doces, segundo registra Emilio Willems ao estudar a vida caipira na região de Cunha, na obra Tradição e Transição de uma Cultura Rural, de 1947.

Saint-Hilaire, que percorria o país em expedição científica desde 1816, anotou com perspicácia a maneira como os brasileiros celebravam a Semana Santa. O relato está no livro Segunda Viagem do Rio de Janeiro a Minas Gerais e a São Paulo, lançado em 1974 pela Editora Itatiaia em parceria com a Edusp. O volume é um dos onze que compõem a incrível obra que o autor escreveu na volta à França, com minuciosas observações sobre costumes, paisagens e comidas que conheceu durante a temporada no Brasil.

Naqueles dias de Páscoa, Saint-Hilaire parece ter sentido saudade de casa. Achou que os paulistas davam menos atenção ao “espírito” religioso da celebração do que em sua terra natal; aqui, o que todos queriam era aproveitar a semana de festa.

“E ainda encontrei mais dificuldade do que na minha primeira viagem [a São Paulo], por causa das festas da Páscoa de 1822 (7 de abril), pretexto que me era sempre invocado em resposta a qualquer pedido que eu fizesse. Estas festas para cá atraem grande número de pessoas do campo. Segui parte dos ofícios e doeu-me a falta de atenção dos fiéis. Ninguém se compenetra do espírito das festas. Os homens mais distintos nelas tomam parte pela força do hábito e o povo como a um grande divertimento.

No ofício de Quinta-Feira Santa, a maioria dos presentes recebeu a comunhão da mão do bispo. Olhavam todos à direita e à esquerda, conversavam antes deste solene momento e recomeçavam a conversar imediatamente depois. Há, aliás, uma circunstância que deve servir de desculpa ao povo. Ignora ele o fim e o sentido das cerimônias religiosas, não entende a língua em que o padre invoca o Senhor. E como ninguém usa livro de missa nas igrejas nada existe absolutamente capaz de fixar a atenção dos fiéis.

Na noite de Quinta-Feira Santa o altar-mor de todas as igrejas estava extremamente ornamentado e a banqueta acima do anfiteatro prodigiosamente carregado de círios. Admirei sobretudo a brilhante iluminação da igreja do Carmo. As ruas se achavam cheias de povo, que passeava, de igreja em igreja, mas unicamente para vê-las sem a menor aparência de devoção. Vendedoras de confeitos e doces sentavam-se no chão, à porta das igrejas, e as pessoas do povo compravam as guloseimas para as oferecer às mulheres com quem passeavam. Na Sexta-Feira Santa os altares não foram despidos segundo o hábito da nossa terra, mas o nicho de cada uma apareceu recoberto por um pano pintado representando algum santo.”

Os confeitos e doces vendidos nas ruas pelas quitandeiras, escravas que ganhavam com eles um dinheiro extra para seus “senhores”, talvez fossem os mesmos que, um pouco mais tarde, mais ou menos na metade do século 19, a paulistana Maria Paes de Barros (1851-1952) encontraria, ainda criança, nas procissões de Corpus Christi. Eram, segundo ela conta no livro de memórias No Tempo de Dantes, de 1946, cartuchos contendo balas compridas de rosa e de limão, confeitos de anis, sequilhos e queijadinhas. Docinhos para festejar uma data religiosa — tal qual os futuros ovos de chocolate. Dizia Dona Maria:

“Muita gente transitava de um para outro lado; inúmeras quitandeiras passavam com seus tabuleiros à cabeça, cheios de docinhos variados, envoltos em papéis de cor. A isso não resistiam as crianças, que importunavam as mamães com seus pedidos. Lá iam as pajens comprar as balas de rosário, as balas compridas de rosa e de limão e os cartuchinhos de confeitos de anis.”

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