Os ovos de Páscoa da “interminável” avó Marieta são recheados de doce de leite e amendoim

O processo tem início em todos os janeiros, com a coleta de cascas inteiras e esvaziadas de ovos de galinha. É provável que os deste ano já estejam prontos.

Nesta fatia de memória, o paulista Fernando Claudio detalha uma tradição que em sua família existe e persiste pelas mãos da avó Marieta, a “interminável”. Morador de Santo André, na região metropolitana de São Paulo conhecida como Grande ABC, Claudio conta que é assim há 90 anos: depois de limpar bem os invólucros, a avó colore um a um os ovinhos e os preenche com pedaços de doce de leite e amendoim torrado. Com eles, Marieta monta os ninhos no domingo de Páscoa.

Neste ano, faço 50 anos e minha vó, 100 (a interminável vó Marieta, risos). Ela nasceu em Dourados [Mato Grosso do Sul], mas foi criada no oeste do Rio Grande do Sul e aprendeu com os avós a preparar para a Páscoa um ninho com ovos de galinha pintados à mão, em diversas cores e desenhos, e recheados de doce de leite e amendoim (uma rapadura de amendoim). Parece ser uma tradição ucraniana. Fiz algumas contas e conversei com alguns tios e primos e chegamos à conclusão de que há quase 90 anos (sim, também fiquei surpreso com o número) ela produz, todos os anos, o famoso ninho de Páscoa com os ovos pintados, doce de leite e amendoim.

Ela começa a guardar as cascas dos ovos no início de janeiro, procura quebrar só a ponta mais fina do ovo e, esvaziados, lava e deixa secar. Depois do Carnaval, ela sempre junta de quatro a cinco dúzias. Faltando duas semanas para a Páscoa, começa a pintar as cascas com várias cores e desenhos. Depois de pintados – esse processo demora dois a três dias -, ela os deixa secando.

O recheio é o seguinte: ela prepara um doce de leite tradicional na panela e adiciona amendoim assado triturado sem a casca. Quando o doce está bem apurado, quase no ponto de bala, ela desliga o fogo e despeja em uma pedra fria. Com o choque térmico, solidifica esse doce e, com um rolo e um martelinho, quebra a rapadura em pedaços pequenos. Após quebrar em pequenos pedaços, acondiciona em uma vasilha todo o doce pronto. Na última semana antes da Páscoa, pega aqueles ovos pintados, passa um cotonete com álcool no interior de cada ovinho para limpar alguma impureza. Após esse procedimento, ela começa a encher com o doce de leite de amendoim as casquinhas e tampa com um papel de seda e cola.

Claro que na nossa infância todos os primos/netos ajudavam a pintar e a encher as casquinhas. Disputávamos as mais coloridas. Mas o ápice da ação era no dia de Páscoa, quando ela fazia questão de montar e esconder os ninhos, em um jardim que havia na frente de sua casa, para cada neto achar o seu… Era uma farra!!! Há cinco anos, a vó Marieta disse que seria o último ano, mas ela não aguenta e, quando chega janeiro, começa a guardar as cascas de ovos.

***

Este depoimento deu origem a um verbete em O dicionário das comidas impossíveis, que surge das respostas ao questionário Fatias de memória.

Clique aqui para contar sua história e nos ajudar a preencher esse relicário.

2 comentários Adicione o seu

  1. Zilda Wovest disse:

    História maravilhosa dessa incansável mulher! Sinto grande orgulho de ser sua sobrinha de coração… Admiro-a e a tenho como exemplo de vitalidade e superação.

    Curtido por 1 pessoa

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