Fogão de quilombo: memória e realidade

rugendas_Habitation de nègres_1835
A gravura de Rugendas, de 1835, mostra uma casa de escravos; atrás do pé daquela que sai pela porta, o fogo estava aceso, como observou Robert W. Slenes em Na Senzala, uma Flor

Foi-se o tempo em que se acreditava na história de que os escravos preparavam para si substanciosos caldos de feijão cozido com miúdos de porco ou de boi que haviam sido descartados por seus “donos”. De provável inspiração europeia, a feijoada sempre esteve mais perto da casa grande do que da senzala; tratados como animais, quando muito, os cativos costumavam se alimentar de rações como a de angu, às vezes acrescida de carne-seca. Muitos, no lugar de comida, “ganhavam” dos senhores um pedaço de terra para, aos domingos, depois de uma semana inteira de trabalho forçado, ainda cultivarem suas próprias roças.

Com feijão, milho, mandioca e, às vezes, arroz, as mulheres se viravam para cozinhar as parcas refeições que os familiares consumiriam depois da lida em improvisados “fogos” de lenha. Esse fogo, aliás, tinha significado especial. Embora frequentemente apartadas, as famílias de africanos escravizados existiam tanto dentro como fora das senzalas, em choças separadas que, dependendo do humor do “dono”, podiam ser conquistadas com o casamento. Essas relações foram estudadas por pesquisadores como Robert W. Slenes, americano radicado no Brasil, que lançou em 1999 o livro Na Senzala, uma Flor, contrariando uma trajetória de estudos históricos que não consideravam a existência de grupos familiares estáveis em meio à escravidão.

Slenes mostra, em seu trabalho, que o casamento entre escravos era também uma forma de resistência: ao conseguirem o direito de se relacionar, de criar uma vida paralela ao trabalho, eles também formavam e reforçavam uma identidade própria. E um dos símbolos dessa auto-reafirmação era o que Slenes chamou de “fogo doméstico”. Sempre acesa, a chama dentro das precárias cabanas que serviam de moradia aos escravos podia ser mais do que um meio para cozinhar: representava um sopro de independência ao conectar aquelas casas com as dos antepassados que, no caso daqueles provenientes da África Central, tinham como tradição manter um fogo – considerado sagrado – sempre vivo no ambiente doméstico.

“No Brasil, o fogo doméstico dos escravos, além de esquentar, secar e iluminar o interior de suas ‘moradias’, afastar insetos e estender a vida útil de suas coberturas de colmo, também lhes servia como arma na formação de uma identidade compartilhada. Ao ligar o lar aos ‘lares’ ancestrais, contribuía para ordenar a comunidade — a senzala — dos vivos e dos mortos.”

Quando fugiam para formar quilombos, os escravos levavam para um novo território o conhecimento que haviam adquirido com a lavoura de subsistência. Nesses redutos, onde ainda viviam sob a pressão do medo e da necessidade de se preparar para possíveis ataques, homens e mulheres recobravam certa liberdade para reavivar tradições, danças, canções e crenças que eles mesmos ou seus antepassados tinham deixado, à força, em algum lugar da África. As comidas à africana, no entanto, embora pudessem ser revividas na memória, pouca chance encontravam de serem reproduzidas à exatidão naquela realidade.

Na região que atualmente se estende entre São Paulo, Minas Gerais, Goiás e parte do Paraná, muitos escravos refugiados seguiam uma dieta que poderia ser considerada típica da zona caipira. Os pratos resultavam do que era plantado; e não é preciso recorrer ao passado da escravidão para conhecê-los. As comunidades que se desenvolveram a partir dos quilombos e resistem ainda hoje mantêm, mais por necessidade do que escolha, costumes culinários que em grande parte continuam dependentes da lavoura. No acervo do Museu da Pessoa, encontramos depoimentos de quilombolas, que, sem querer, ajudam a contar a história de uma cozinha simples e nada exótica, em contínua formação.

No Vale do Jequitinhonha, nos arredores da cidade de Joaíma, Maria de Lourdes Pereira dos Santos vive na comunidade do Barreirinho, que se formou a partir do quilombo constituído pelo escravo Rimoaldo, antepassado direto dela e da maioria dos habitantes dali. Dona Ducha, como é mais conhecida, não sabe dizer ao certo o ano em que nasceu nem o porquê do apelido que herdou de uma amiga de sua mãe. Domina, no entanto, todos os saberes importantes para sua comunidade. Conhece as ervas adequadas para chás medicinais, benze quem precisa, reproduz os batuques e as cantorias que aprendeu com os avós e prepara receitas com alimentos que cultiva ali mesmo, no terreno compartilhado com seus vizinhos-familiares. “[Se] Era de comer, a gente comia.”

Ainda menina, ela aprendeu com a avó a fazer panelinhas de barro para brincar de “coziinha”; quase cinquenta anos depois, quando contou sua história ao Museu da Pessoa, em 2007, ela se reconhecia como experiente cozinheira, versada em tradições que, assim como as danças e os batuques, ajudava a serem lembradas pelos mais novos. Em meio a vivas lembranças culinárias ainda reproduzidas no dia a dia, Dona Ducha localizou o café de garapa (coado com o caldo fervente da cana colhida na roça) e descreveu em detalhes sua especialidade: “uma galinha caipira que você fala: ‘eita, faça mais!'”.

“Cozinhar, fazer café de cana [aprendi com os mais velhos]. Minha avó mesmo usava… Tem um bichinho em que a gente molha a cana, ela pegava. Um dia o bichinho quebrou, de moer a cana. Aí, pegou esse bichinho, quebrou, ela falou: ‘Minha filha, vou moer essa cana no pilão!’ Colocou a cana cortada aos pedacinhos no pilão, pisava, colocava no fogo, para cozinhar. Então, cozinhava, tirava aquela água da cana cozida, fazia o café, e nós tomávamos.

Comida? A comida nossa era feijão, o arroz era quando achava. De primeira, nós não usávamos arroz, não usávamos arroz porque não, só plantado. Ali, sempre quando achava uma areazinha de brecha, plantava o arroz. A gente comia arroz, porque estava no pilão, pisava, eu mesma plantei, muito tempo plantava arroz, e comia arroz plantado na minha roça e, por mais que a gente comia, era um guisado com feijão.

É que nem eu falo: colocava aqueles ossinhos dentro, cozinhava e ali era de fazer e comer. Apanhava umas folhas que chamam quebra-tigela, dava uns espinhozinhos assim, um pauzão no mato, isso chama ora-pró-nobis. Aí, então, a gente ia para lá, a gente ia quebrando aquelas frutinhas, ia quebrando aquelas frutinhas e enchia a vasilha. Chegava, cortava, fazia aquela panelada! A gente comia até encher a barriga.

Tinha um trem que chamava cará, com esse cará a gente cozinhava aquelas paneladas, fazia sopa desse cará, fazia tudo e comia. [Se] Era de comer a gente comia. Cozinhava mandioca, batata, comia dentro do feijão, esse que era. Mas tudo sei fazer, um angu, nós fazíamos um angu. Pegava o feijão, colocava dentro do angu e comia. Fazia os molhos pardos, chamava molho pardo: matava a galinha, tirava o sangue na água do limão, pegava. Quando estava o caldo do feijão bem fervendo, a gente pega, mistura e fica da cor do caldo de feijão. Você pensa que é o caldo do feijão, mas não é, não. Era a galinha, o molho pardo.

Eu gosto de fazer qualquer uma, mas a comida que eu mais gosto é a galinha caipira e feijão.

Ah, eu faço uma galinha caipira que você fala: ‘Eita, faça mais!’ Mas o pessoal que vem na minha casa gosta da minha comida, e eu adoro fazer comida. A galinha caipira é boa, cozinhada no suor. Se encher da água, ela não presta, não. O tipo que eu faço, eu cozinho ela quase no suco, aí ela fica com um gosto normal, gostoso mesmo.

É só no suor, com pouquinha água, bem temperada, com um coentrinho verde, ‘ali ó’, bem temperado, e cebolinha. Com bastante tempero, eu gosto de comida temperada. E aí a gente faz: vai suando, vai suando, vai suando, vai fazendo ela assim com pouquinha água, vai deixando ela durinha. Mas ela fica ótima!”

Quando se lembrou de sua vida para o Museu da Pessoa, em 2007, Dona Ducha estava à espera de ter seu endereço regularizado e reconhecido como quilombo pelo governo federal, para que, ao lado de seus vizinhos-familiares, pudesse ver preservado o direito de permanecer onde nasceu e se criou e onde vivia até então na difícil lida da lavoura – hoje, dez anos depois de seu depoimento, outros mais de 1500 territórios quilombolas estão em processo de regularização pelo Incra (Instituto Nacional da Colonização e da Reforma Agrária).

Dona Ducha sonhava, então, não com a riqueza que nunca teve, mas com uma “concessão” oficial para continuar com seu dia a dia de simplicidade, cantando seus batuques, fazendo suas comidas e benzedeiras e, sem querer, mantendo vivo o “fogo” que seus antepassados um dia lutaram para acender. Uma chama que alude à memória daqueles que, como seu bisavô Rimoaldo, foram arrancados de seu lugar de origem e forçados a uma vida que ninguém teria desejado.

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Leia mais sobre a história de Dona Ducha, e conheça outras histórias da coleção Fogão de Quilombo no site do Museu da Pessoa.

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Outras coleções do Lembraria para o Museu da Pessoa:

 

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