“A galinha caipira é boa, cozinhada no suor”

Lembraria_Dona Ducha
Maria de Lourdes, a Dona Ducha: benzedeira, batuqueira e cozinheira da comunidade quilombola do Barreirinho, no Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais (foto: Museu da Pessoa)

“Nasci na comunidade do Barreirinho. Ah, o ano eu não tenho certeza, mas eu sei que sou do dia 15 de julho, de junho.

A minha mãe tinha uma amiga, e ela gostava muito da amiga. Quando ela me ganhou, ela disse assim: ‘Vou colocar esse apelido na minha filha!’ Então, ela colocou o meu nome de Maria de Lourdes e voltou e colocou o apelido de Ducha. Todo mundo me conhece por Ducha!

Ela [a comunidade quilombola] chama Barreirinho porque lá foi um lugar – foi, não – é um lugar de barro. Os antigos lá viviam de panelinha, vendiam, entregavam para cá, entregavam para os outros. Não usavam essas outras vasilhas. A gente vivia dos pratinhos de barro, aquelas botijazinhas de barro, a gente pegava, cozinhava, fazia café nesses bichinhos. Então, a gente fazia tudo, tudo era de barro. Lá, tem três olarias de barro porque eu sei, o barro, eu sei onde é. Hoje, está ocupado.

Oh, meu filho, olha, a minha mãe, a minha avó, as minhas tias contavam assim: quando um velho veio corrido da escravidão, que ele chegou, eles fizeram uma barraca na mata, na descida que desce para entrar nessa comunidade. Eles ficaram escondidos um bocado de tempo, ele tinha um bocado de filho, 12 filhos, três filhas mulheres e nove filhos homens, já tudo criado. Ela disse que eles pegavam, saíam para os matos caçando o que comer, porque eles não tinham o que comer. Tinha uma tal raiz no mato, que eu nem conheço essa raiz, mas a minha avó contava que eles iam, caçavam essa raiz que chama mucunã e eles pegavam esse trem, tiravam aquela gominha e disse que, daquela gominha, eles faziam aquela farinha. Torravam aquela gominha naquelas panelinhas, faziam aqueles trenzinhos e comiam.

Cozinhavam aquela goma, o chuchu, eles cozinhavam, faziam picadinho de chuchu, faziam um engrossado com a goma dessa mandioca que chamava mucunã e comiam. E, aí, eles iam caçar outro. E entrou essa mata, derrubando pau, andava de um lado derrubando, andava do outro derrubando. Aí, não foi nada, não. Quando a sede montava, lá não tinha rio nenhum, tinha um riacho. Eles vinham e punham a água do Rio Jequitinhonha, viajavam três dias com o jeguinho, tocando na frente, para levar a água para lá.

Quando foi um tempo, eles abriram essas termas nesse lugar para ver se juntava uma aguinha naquelas termas. Aí, foi juntando aguinha, foi juntando aguinha, foi correndo bicho dessa mata, acabou, o trem que correu dessa mata, de tanto bicho que tinha, tinha onça. Então, abriu essa comunidade lá. Nós lá, como diz, comia um trem que chamava juá, fazia de comer, era um troço bravo que tinha no mato. A gente comia ele sem sal. Encosta na boca, corta a boca, a gente fica tudo com a boca, até fere assim, era de comer que esse povo usava na época. […] E com isso foi vivendo. Até que chegou nesse fim, que vai melhorando aos pouquinhos, mas nós vamos levando. Mas vai melhorando aos pouquinhos, não é?

Eu sou bisneta de Rimoaldo, minha mãe é neta, foi ele que abriu essa porta mais os filhos dele, e nós fomos passando de família, passando e passando, os da época dele não têm mais ninguém. Terceira por produção dele, por meio de filho não tem mais ninguém. Ainda tem dele uns netos e bisnetos, tataranetos, aí que tem. Agora, filho não tem mais, não.

O que nós plantamos? Nós plantamos maniva, plantamos feijão, verdura, abóbora, cenoura, beterraba, chuchu, banana, taioba, inhame chinês. Tem tanta plantação que nós plantamos. Milho. Tudo nós plantamos. Nós plantamos muita plantação.

Cozinhar, fazer café de cana. Minha avó mesmo usava… Tem um bichinho em que a gente molha a cana, ela pegava. Um dia o bichinho quebrou, de moer a cana. Aí, pegou esse bichinho, quebrou, ela falou: “Minha filha, vou moer essa cana no pilão!” Colocou a cana cortada aos pedacinhos no pilão, pisava, colocava no fogo, para cozinhar. Então, cozinhava, tirava aquela água da cana cozida, fazia o café, e nós tomávamos.

A comida nossa era feijão, o arroz era quando achava. De primeira, nós não usávamos arroz, não usávamos arroz porque, não, só plantado. Ali, sempre quando achava uma areazinha de brecha, plantava o arroz. A gente comia arroz, porque estava no pilão, pisava, eu mesma plantei, muito tempo plantava arroz, e comia arroz plantado na minha roça e, por mais que a gente comia, era um guisado com feijão. É que nem eu falo: colocava aqueles ossinhos dentro, cozinhava e ali era de fazer e comer.

Apanhava umas folhas que chamam quebra-tigela, dava uns espinhozinhos assim, um pauzão no mato, isso chama ora-pró-nobis. Aí, então, a gente ia para lá, a gente ia quebrando aquelas frutinhas, ia quebrando aquelas frutinhas e enchia a vasilha. Chegava, cortava, fazia aquela panelada! A gente comia até encher a barriga. Tinha um trem que chamava cará, com esse cará a gente cozinhava aquelas paneladas, fazia sopa desse cará, fazia tudo e comia. [Se] Era de comer a gente comia.

Cozinhava mandioca, batata, comia dentro do feijão, esse que era. Mas tudo sei fazer, um angu, nós fazíamos um angu. Pegava o feijão, colocava dentro do angu e comia. Fazia os molhos pardos, chamava molho pardo: matava a galinha, tirava o sangue na água do limão, pegava. Quando estava o caldo do feijão bem fervendo, a gente pega, mistura e fica da cor do caldo de feijão. Você pensa que é o caldo do feijão, mas não é, não. Era a galinha, o molho pardo.

Eu gosto de fazer qualquer uma, mas a comida que eu mais gosto é a galinha caipira e feijão. Ah, eu faço uma galinha caipira que você fala: “Eita, faça mais!” Mas o pessoal que vem na minha casa gosta da minha comida, e eu adoro fazer comida. A galinha caipira é boa, cozinhada no suor. Se encher da água, ela não presta, não. O tipo que eu faço, eu cozinho ela quase no suco, aí ela fica com um gosto normal, gostoso mesmo.

É só no suor, com pouquinha água, bem temperada, com um coentrinho verde, “ali ó”, bem temperado, e cebolinha. Com bastante tempero, eu gosto de comida temperada. E aí a gente faz: vai suando, vai suando, vai suando, vai fazendo ela assim com pouquinha água, vai deixando ela durinha. Mas ela fica ótima!

Ah, para brincar, para fazer “coziinha”, bonequinha de pano. Até hoje eu me lembro das bonecas de pano, eu fazia aquele tantão, juntava mais as minhas irmãs, tinha mais três irmãs. Quatro, nós somos cinco irmãs, só que morreu uma e tem só quatro. Então, eu fazia aquele tanto de boneca, brincava de boneca de pano, não usava essas bonecas que se usam hoje. Fazia aqueles lanchinhos, a gente cozinhava, pegava as panelinhas, nós fazíamos aquele tanto de panelinha de barro já para nós cozinharmos. A gente enchia de água, a gente brincava muito, era assim que era o brinquedo.

Era eu mesma que fazia. A minha avó fazendo panela e eu, ao redor, fazendo aqueles trenzinhos. Cozinhava, a gente cozinhava aquelas favas, um trem que chama fava. Planta muito, andu a gente planta muito. Aí, a gente plantava aqueles trenzinhos, cozinhava aqueles trenzinhos nas panelinhas.

Eu, a trabalhar, meu filho, desde os sete anos onde eu trabalhava. Eu fazia tanta coisinha! Ah, lá eu ia nos campos para a minha mãe, eu já lavava vasilha, eu já apanhava água na lata de litro que eu não aguentava um trem grande. Tinha uma lata que se usava antigamente, uma lata assim. A minha mãe me dava a lata e: ‘Ducha, vai lá pegar água!’ Eu ia para o rio, o rio era perto, carregava a água todinha, até encher aqueles botijões tudo.

Picada de cobra, a vela branca é para picada de cobra, erva-cidreira é para quem está gripado, sentindo febre. Quem, por exemplo, comeu uma comida que fez mal, tomar erva-cidreira com bicarbonato é bom. A gente usa essas coisas. É muito remédio que a gente usa, hortelã…

Terra lá, terra boa, terra mansa, tudo que você planta dá. Não é toda a terra que dá. Aquela terra, abaixo de Deus, melhor que aquela, aquela mesma que Deus deu a nós?, que tudo você planta, folha. A terra adubada, a terra nasceu parece que adubada. Lá, é assim, se a gente colocar muito adubo no pé de uma planta, a planta não dá, da terra que não dá. Eu tinha uns pés de chuchu, esses pés de chuchu traziam dois, três sacos de Joaíma, para você ver. Pegou, foi lá, Joaquim deu a ele um adubo, ele chegou e falou: ‘Vou colocar mais adubo no pé do chuchu para dar mais!’ O pé de chuchu parou, até hoje não deu mais nenhum. Aí, agora, eu estou fazendo outra plantação de chuchu para poder dar. Parou. A terra adubada, se adubar a terra, lá não dá nada.

Cada família faz a sua roça, porque a gente não tem condição de fazer um roção bem grande. A gente vai e faz uma pequena. Ali, ajunta filha, ajunta pai para a roça, ou, quando os filhos já estão tudo grande, vão para a roça e fazem a roça. Lá é assim, cada qual tem sua rocinha, cada qual pessoa tem a sua rocinha, porque é muita gente, muitas famílias. Ali, tem pai, por exemplo, que tem cinco, seis filhos. Então, os filhos não vão para a roça é porque vão para a escola, por exemplo. Tem uma menina que já tem cinco filhos pequenos, tem três na escola e dois mais ela. O marido dela trabalha na enxada, então, ela fica. Uns vão cedo, outros vão meio-dia, o ‘mais pequeno’. É desse jeito que a gente faz para poder viver.

Até a minha avó eu conheci fazendo a farinha. Fazia a farinha, não usava roda [moinho]. Nesse tempo deles, não usava esse negócio de motor, usava de mandioca na terra. Pegava a mandioca, rapava e pegava uma pedra e ralava essa mandioca, torcia no pano e fazia a farinha no forno de pedra como forno em casa. Aí, torrava as farinhas, minha filha, gastava de cedo até de tarde para torrar a farinha, porque o forno demora para torrar. Não é que nem hoje, que é rápido na tacha. Hoje, tem tacha, num instantinho eu faço a farinha, pois, nesse tempo, não. Ralava era na pedra, um trem que a gente ralava era naquela pedra. Hoje, não. Hoje, tem um ralo que a gente rala, é do jeito que a gente faz, rala a mandioca. Lá na minha comunidade, tem várias pessoas que fazem farinha desse jeito. Farinha boa, fica boa, ótima farinha. Eu já fiz, fica fininha a farinha ralada na pedra, mas só que demora a ralar.

Se a minha avó tivesse que fazer alguma coisa em dia santo, Sexta-Feira Maior, ela não fazia. Ela jejuava, ela fazia jejum toda quarta-feira. A minha avó fazia. E nós jejuávamos toda Sexta-Feira Maior. Mas tudo ela falava com a gente. Na Semana Santa, ela não deixava a gente comer carne de jeito nenhum, não deixava a gente comer carne: “Minha filha, não pode comer carne, não é que a gente come carne no dia de hoje!” Aí nós criamos tudo desse jeito, tudo que minha avó me ensinou eu aprendi. Agora, eu, o mal, não tenho maldade com ninguém, meu coração é bom demais da conta. Adoro todo mundo, eu não tenho maldade, eu não tenho agressão, não gosto de agressão, não gosto de maldade, gosto só de alegria. É disso que eu gosto.”

***

Mais histórias na coleção Fogão de Quilombo no Museu da Pessoa.

 

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