Uma história de escravidão, pães caseiros e cenouras miudinhas

Chácaras e Quintaes_1911_abril_fazendo farinha de mandioca
Antigo monjolo de fabricação de farinha, talvez parecido com a da casa de Dona Risoleta (Chácaras e Quintais, abril de 1910/acervo: Hemeroteca Mário de Andrade)

Se Dona Risoleta estivesse viva, teria feito no último dia 20 de março 117 anos. Na década de 1970, quando beirava os 80, ela falou de sua vida para a psicóloga Ecléa Bosi (hoje professora emérita da Universidade de São Paulo), que então realizava as entrevistas que analisaria para o importante trabalho Memória e Sociedade: lembranças de velhos, um marco nos estudos sobre memória social no Brasil. Assim como Risoleta, todos os outros sete depoentes escolhidos pela pesquisadora tinham, na época, mais de 70 anos de idade e haviam passado a maior parte de suas trajetórias na cidade de São Paulo.

A conversa publicada na íntegra no livro lançado em 1979 também incluiu muitas passagens ambientadas não na capital, mas no lugar onde Dona Risoleta cresceu, na zona rural de Campinas, interior paulista. Nascida em 1900, filha de pai que chegou a ser escravo e de mãe liberta pela Lei do Ventre Livre, ela passou a infância e a adolescência em uma chácara no atual distrito de Sousas, com pouco dinheiro, mas muita fartura proporcionada pela roça própria, cultivada sem adubo e de acordo com as estações do ano. “O gosto era muito melhor, nem se compara uma coisa com outra.”

As lembranças são a todo momento reforçadas pelas remissões a alimentos e receitas, que parecem funcionar como pontos de partida (ou de chegada) para visitar acontecimentos. Foi fazendo farinha para vender que sua mãe adoeceu e morreu; foi cozinhando que ela, aos 8 anos, começou a trabalhar na casa da família de que seu pai havia sido escravo (embora só tenha recebido seus primeiros ordenados quando já passava dos 20…).

O depoimento emociona e revolta. Mostra, afinal, como a escravidão não acabou em 1888. E como Dona Risoleta, apesar das tragédias da vida, olhava para o passado, do alto de seus quase 80 anos, desencantada com o tempo que não voltaria mais. Quando falava do padeiro que aparecia com pão sovadinho em sua infância, ela exclamava: “Como a gente gostava!”; quando se recordava de comidas preparadas pela mãe ou pela avó, concluía com felicidade: “Meu Deus, era uma vida até bonita! Até bonita, gostosa!“.

Hoje, no Lembraria, Dona Risoleta se apresenta e revela um pouco das memórias que escolheu guardar da infância na roça. Leia ou ouça o depoimento abaixo, no primeiro podcast do Lembraria, apresentado por Viviane Zandonadi, com trilha sonora de Hermeto Pascoal.

 

“Eu nasci numa fazenda perto do Arraial dos Sousas que se chamava Fazenda Angélica: os donos são os Penteado de olho azul, porque tem os Ferreira Penteado que são os castanhos. Foi nessa família que eu cresci. Nasci no dia 20 de março de 1900. Meu pai veio vendido lá do Norte aqui pro Brasil no tempo do cativeiro. O nome dele era Joaquim. Minha mãe quando nasceu já era de Ventre Livre. O pai de meu pai era português e a mãe chamava-se Cosma, muito pretinha.

No tempo do cativeiro, vendiam a gente como quem vende porco, ele foi pra Campinas. A irmã dele, nunca mais viu, não sabe que fim levou. Foi o pai que vendeu, português aqui no Brasil não era escravo.

[…]

Meu pai foi liberto quando houve o grito da liberdade, todo mundo foi liberto. Foi trabalhar por conta dele. Com 29 anos casou-se com minha mãe, Teodora Maria da Conceição, que tinha treze anos. D. Lalá foi madrinha. Minha mãe fazia farinha de mandioca, de milho, tudo, para vender e ajudar meu pai criar os filhos. Ele era um homem doente, já não podia mais trabalhar. Minha mãe lavava roupa pra fora, dessa família dos Penteado de olho azul. Era morena escura, mais escura que meu pai, mas era bonitinha. Cozinhava muito bem doce de laranja, tachadas de goiabada que vendia em caixinhas. Com muito trabalho, com muita luta, mas tinha tudo em casa.

[…]

Toda vez que um doente pedia um remédio, meu pai fazia e mandava. As plantas medicinais todo mundo tinha em volta de casa; era marcelinha, era losna, era carqueja, carobinha, um remédio bom pro sangue. Meu pai nunca deu remédio de médico pra nós, era tudo chá. Ele conhecia todo matinho, o cipó-cruz que serve para reumatismo que não sara, ele fazia na pinga. Quem não bebia pinga ele fazia no vinho branco aquelas garrafadas que deixava enterradas na terra nove dias e depois de nove dias dava pra pessoa ir tomando. E sarou quanta gente de doenças, ele curava tudo, minha casa era assim de gente pra ouvir ensinar remédio, ele conhecia todos e dizia: ‘Eu mesmo vou buscar e faço pra vocês. Vocês não vão conhecer e ainda vão trazer algum mato que é veneno’. Essas coisas tudo é conhecer.

Outro dia fui na Vila São Pedro na festa do Cemitério da Vila Isa e vi numa casa dependurado o cipó-cruz, que é um cipó bonito. Pedi para a moça um pouquinho daquele cipó, minha filha ficou brava comigo e a moça começou a rir: ‘O que a senhora vai fazer com essa trepadeira?’. ‘Eu sei que é trepadeira, mas é um remédio bom pra reumatismo e meu pai quando nós era pequeno e se queixava de uma dor ele sempre dava um chazinho de cipó-cruz.’ Erva-cidreira, hortelã, poejo, isso era os remedinhos de criança.

[…]

Meu pai tinha uma chácara no Arraial dos Sousas [atual distrito de Sousas, Campinas], ali na subida que ia pra fazenda dos Coutinho, que ele ganhou do sinhô; gente muito boa, um filho desse sinhô trabalhou anos como político do Getúlio Vargas. Lembro da casa grande, térrea, que ia parar na beira do Atibaia, onde a gente ia buscar água quando faltava no poço, lavar roupa na beira do rio que ainda passa até hoje por lá.

Meu pai plantava de tudo: tinha jabuticabeira, tinha cana, ele fazia rapadura, açúcar, depois minha avó refinava. Eu sei refinar açúcar, aprendi com ela. Botava no tacho aquela aguarada até reduzir, depois secava, batia bastante, ficava mulatinho. O açúcar mulatinho era gostoso, eu sempre roubava do tacho um pouquinho. Quase tudo se fazia em casa: a gente matava porco, fazia linguiça, abria panos de carne, salgava e guardava pro mês inteiro, tirava os ossos e vendia pras fábricas de botão. (O povo já vem explorando a vida há muito tempo, não é agora só não.) O pão a gente fazia em casa: quando aparecia o padeiro com aquele pão sovadinho, como a gente gostava! Trocava com galinha, trocava com porco, porque dinheiro quase ninguém via. Um saco de farinha custava treze mil-réis. O forno era de tijolos, redondo, cabia vinte, 24 pás dentro do forno. A gente amassava o pão na amassadeira com o cilindro, sovava bem, que pão gostoso! Eu tenho saudades. O forno era fora com a boca dentro da cozinha; a gente enchia de lenha, punhadinho de fubá pra ver a temperatura, porque se estivesse muito quente podia queimar todo o pão. Meu Deus, era uma vida até bonita! Até bonita, gostosa!

Plantava feijão, plantava arroz, a gente colhia e quando não tinha máquina de beneficiar por perto a gente socava no pilão, abanava com a peneira, aquele arroz catetinho que era meio roxinho, botava umas palhas, um pouco de fubá, limpava, ficava branco. Até o sal que era meio grosso minha avó refinava, ficava fininho. Lavava bem, tirava as pedras escuras, botava no fogo, passava na máquina e guardava nos vidros. Ficava o sal branco pra gente usar o mês inteiro. Quando acabava, fazia outro. Chegavam português, italiano e botavam venda e a gente comprava lá a roupa e o sal.

Em casa não tinha miséria porque se plantava tudo: abóbora, feijão, milho, batata-doce, batatinha, mandioca era com fartura. Tudo isso era pra comer e matava a fome. Era bastante trabalhar e colher. E se criava porco, galinha; não dava pra passar fome, não.

Naquela época, a terra tinha estações: de repolho, de couve-flor, de alface, de tomate; agora não, agora dá o ano inteirinho. Era mais português que plantava, não precisava adubo, dava tudo bonito, só a cenoura que era miudinha. Esse cenourão que se vê agora naquele tempo não tinha. Tudo na sua estação certa. Fora do tempo não tinha nada. Laranja agora tem o ano inteiro, naquele tempo tinha em maio, junho, julho até agosto. Quando chegava agosto não deixavam nem a gente mais chupar laranja porque estava passada. O gosto era muito melhor, nem se compara uma coisa com outra, a coisa criada naturalmente na terra sem adubo. Hoje tudo é adubado, isso aí não vale nada, vejo todo mundo doente.

[…]

As crianças não eram como as de hoje, capaz! Levantavam de manhã, acendiam o fogo, faziam café e iam levar pros pais na cama: ‘A bênção, papai! A bênção, mamãe!’
‘Deus te abençoe, minha filha.’
‘O senhor dormiu bem essa noite?’
‘Dormi.’ Ou: ‘Não dormi, passei desesperado de dor a noite inteira.’
‘Mas o senhor roncou tanto, como é que não dormiu? Tava roncando acordado então?’

[…]

A comida, acabavam de fazer, lá no fogão, botavam o caldeirão de fubá na mesa, todo mundo tinha que rezar primeiro para depois comer e acabava de comer agradecia a Deus tudo aquilo que ele nos deu, aí cada um tinha sua obrigação. Um ia varrer o quintal, outro ia tratar galinha, outro ia tratar porco. Quando chegava sete e meia, oito horas, a gente saía, ia trabalhar na casa dos patrões. O mais velho levava os mais pequenos.

Desde oito anos trabalhei em casa de família, sempre tive que fazer tudo: botava a mesa, tirava a mesa, lavava a louça, areava aquele talher danado de arear, com raspa de tijolo e batatinha. Graças a Deus agora não tem disso mais. Areava tudo que ficava brilhando e botava no sol antes de guardar. Eu sabia que a patroa gostava de coisa bem-feita, então queria fazer mais bem-feita ainda. E tinha que fazer, senão ficava de castigo. Quando eu tinha treze anos me perguntavam na rua: ‘O que você está fazendo?’. ‘Sou cozinheira de forno e fogão.’ Se eu ia num lugar e comia um bolo, chegava em casa e fazia igualzinho, sem receita, sem nada, só porque eu comi.

Se recebia ou não ordenado, eu não sabia, porque meu pai é que ia no fim do mês receber: dizia que não fazia questão de dinheiro, queria é que me ensinassem a ler um pouco. Até 22 anos nunca recebi um ordenadinho do que trabalhei. Quando ele me pôs na casa da sinhá-moça dele, disse: ‘Eu quero que a senhora me ensine a menina a trabalhar, ler e escrever’.

Dona, eu levantava às quatro horas da manhã, trabalhava o dia inteirinho, fazia pão. Só tinha eu de empregada e uma preta bem velha, mais velha do que eu estou agora, com o dedão do pé torto, na beira do fogão, arcadinha. Eu tinha dó dela, botava o caixão de sabão na beira e trepava para alcançar o fogão de lenha e fazia comida pra ela. Ela dizia: ‘Que boa vontade que essa menina tem!’.

‘Eu tenho é dó da senhora!’

[…]

Natal sempre foi respeitado. Semana Santa a gente precisa jejuar, era o dia que nós comia melhor em casa. Meu pai comprava peixe, fazia bacalhau, e era aquela mesa bonita, botava vinho na mesa, todo mundo tinha que tomar um pouquinho porque era o sangue de Cristo. Até meio-dia ninguém comia nada de manhã, às vezes tomava uma xicrinha de café. Ao meio-dia em ponto estava aquela mesa grande, abobrinha com bacalhau, bacalhau assado, salada bonita, com bastante cebola, ovos… Semana Santa era aquela alegria e Natal reunia família: todo mundo, conhecido, amigo, vinha pra casa. Matava porco, matava um boizinho pra passar o Natal. Papai Noel, árvore de Natal é coisa de pouco tempo. Presépio sempre usou. Todo mundo tinha que ir na missa do galo, quisesse ou não quisesse. Hoje, ninguém mais vai, pelo menos na minha família largaram tudo. E foram tudo ensinando assim. Agora acabou tudo, dona, cada um pro seu lado, até Natal acabou.

Depois que eu fiquei cega nunca mais fiz Natal aqui em casa.

[…]

Dia de Natal em casa era festa naquele tempo. Hoje acabou, quase toda família não tem mais Natal. No meu tempo de criança, todo mundo ajudava a lavar louça, a olhar o forno de barro. A gente estava tão acostumado a assar leitoa pururuca! Isso aprendi desde pequena: ferve a água, escalda bem pra depois temperar. Nunca fizemos carne de porco sem escaldar. Lava bem lavado com sabão, depois passa limão com fubá pra tirar aquele cheirinho. Até agora faço assim: tempero bem salgado com alho, cebola, limão, pimenta-do-reino, uma pimentinha vermelha. A gente assava bem assado, tirava e deixava esfriar, depois passava água e limão no couro para pôr no forno. Agora não fazem mais nada assim, ficava pururuquinha, dá até vontade da gente comer!

[…]

Minha mãe estava torrando farinha. Ela estendia aqueles panos alvos na grama e ia botando a farinha, que ia torrando ali. Nesse momento, ela estava no forno, a chuva caiu de repente, veio o temporal. Ela saiu quente e veio acudir a farinha dela, aquele beiju bonito de milho. A farinha não molhou mas deu um resfriado nela, atacou a garganta. Minha mãe ficou oito dias doente e não falou, não disse mais uma palavra, nem água não passou mais na garganta. Minha mãe morreu ressecada: tava no tacho redondo, no fogaréu.

[…]

Foi durante uma grande guerra que durou bastante anos que minha mãe morreu. Os patrões vinham toda semana pra fazenda e contavam as notícias. Minha mãe trabalhava lá dentro, fazia doce. Chegando em casa contava pra nós. A gente estava no sítio tudo bobo, ia saber de alguma coisa?! Agora todo mundo é esperto aqui na cidade, lê jornal, livro. O rádio e a televisão educou muito e estragou muito.

Quando minha mãe morreu, deixamos o Arraial, cada um foi pra casa do branco dele. Eu fui pra d. Lalá, que foi sinhá do meu pai. Ela me ensinou a cozinhar, a bordar.

[…]”

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