Em busca do bolo perdido

Nascida em 1961, a paulistana Magali Boguchwal Roitman viveu nos bairros de Bela Vista e Bom Retiro, antes de se mudar para Moema. Há anos ela se pergunta aonde foi parar o chamado “bolo pelé”, de chocolate, molhadinho pela calda de laranja derramada sobre a massa ainda quente.

Sua mãe sabia de cor o modo de fazer, tirado de um receituário promocional. Zina, que trabalhou anos com a família, virou craque. Assava na sexta o que não ia chegar para domingo. Quando Zina foi embora, para se aposentar, o bolo, daquele jeito que a Magali se lembra, desapareceu.

A receita veio num caderno de receitas em papel de seda azul, distribuído em uma aula de culinária (hoje seria oficina de gastronomia) num Salão da Criança, evento promovido durante vários anos entre 1960 e 1970 no Ginásio do Ibirapuera.

Eu era pequena. Quem participou foi minha irmã e como troféu ela trouxe os dois receituários, um rosa e outro azul, ofertados pela Nestlé. Não lembro da estreia do bolo, nem detalhes da receita…

Duas xícaras de leite, colheres de Nescau, ovos, farinha, sal e uma calda de laranja despejada assim que saía do forno. Um toque para deixar o doce molhadinho…

Zina, a senhora que trabalhava em casa, se tornou “craque” em fazer o bolo que virou praticamente um quitute semanal. Primos disputavam a chance de virem à minha casa. Assava na sexta e não sobrava para o domingo.

Minha mãe também sabia de cor, embora não executasse tão bem quanto a Zina. Ela distribuiu a receita entre os amigos.

A receita azul sumiu em uma gaveta, a Zina se aposentou e o bolo desapareceu do cardápio familiar. A Terezinha, que trabalha há décadas na casa da minha tia, jura que segue o original, mas a versão apreciada pelos meus primos é mais clara e carece da calda de laranja…

Até hoje, não encontrei quem faça o “bolo pelé”. Existe prestígio, floresta negra, peteleco. Pelé só houve um. Aliás, eu ainda prefiro o bolo ao “rei”.

***

Este depoimento deu origem a um verbete em O dicionário das comidas impossíveis, que surge das respostas ao questionário Fatias de memória.

Clique aqui para contar sua história e nos ajudar a preencher esse relicário.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s