“Quando você refogava o feijão, o que cheirava, menina, fazia gosto!”

José Marçal_foto de Antonia Domingues
O tropeiro Seu Marçal, em 2007, aos 85 anos (acervo Museu da Pessoa)

“Quando eu fiz 10 anos, aí eu já fui mexer, fui trabalhar com a tropa. Tinha um homem até me esperando, um sujeito muito amigo de meu pai, que já estava me esperando para eu ir trabalhar com ele. Eu ia ser cozinheiro. Cozinheiro, que, na tropa, gastavam um cozinheiro, um tocador e um arrieiro. Quando tinha mais burro, gastavam dois tocadores, um cozinheiro e um arrieiro. Então, eu fiquei fazendo parte desse tempo como cozinheiro. Depois de cozinheiro, logo quando eu passei para 14 anos, eu comecei já trabalhando, pegando carga e tudo. Depois, passei para tomar conta da tropa. Com 14 anos, eu comecei a tomar conta de um lote de burro. Aqui, nessa fazenda, eu já fazia, carregava, saía daqui carregado, em Diamantina descarregava e carregava em Diamantina outra vez.

O que eu aprendi a cozinhar? De tudo eu sabia fazer, mas carne que eu mais sabia fazer. O que mais a gente usava: carne, feijão, arroz e farinha. É o que fazia. Dali, você fazia uma farofa, você fazia uma sopa. Com farinha, você fazia sopa. Às vezes, cozinhava carne de boi ou cozinhava osso de boi e fazia a sopa. Tudo era gosto, né? Você chegava de manhã cedo, você levantava cedo, você comia uma sopa boa com carne, uma delícia. Quando a gente chegava na rancharia, você pegava aquela comida que sobrava, você punha dentro do caldeirão, punha farinhazinha para poder não entornar na caixa de cozinha. Quando você chegava lá, você fritava seis barrilzinhos de toucinho, tirava o toucinho e fritava. Fritava o toucinho e passava. Aí, você fazia uma comidinha. Quando você refogava aquela comida de novo, nossa, o que cheirava, menina, fazia gosto! Com a carne frita, torresmo, carne frita.

Muitos produziam toucinhozinho aqui também. Mas produziam mais rapadura, feijão, farinha de mandioca, fubá. Isso se produzia demais, né? Que, domingo, você fazia o fubá e puxava o milho também. Era o que mais puxava por aqui era isso.

Primeiro, você tem que fazer os nós de cangalha, para depois você fazer [preparar o burro]. Aí, você corta, faz a retranca, faz o peitoral, faz o couro para você fazer a capa. Depois, você vem com a capa, você vem com ela sobre a carga que é para aperto, apertar. Eu fazia tudo, né? Depois, tinha que fazer as bruacas para carregar a mercadoria. Porque, quando carrega os milhos, você sempre podia carregar no balaio. Fazia aqueles balainhos tudo no jeito e punha saco lá dentro dos balaios. Mas carregava milho e feijão, carregava. Mas carregava fubá, carregava farinha e é assim.

Tinha que enfiar as bruacas [sacos de couro]. A gente fazia as bruacas, que ficava fácil de carregar. E já evitava também de pôr couro na carga, porque não molhava, as bruacas não molhavam. Você fechou, amarrou, até dentro da água podia cair que não molhava. Caía muito nesse Jequitinhonha ali, caiu muito comigo na água. Caía na água. Porque lá atola demais. O Vale de Jequitinhonha atolava demais. Então, vai ver, se todo dia você ia, você agarrava no rabo dele para ir jogando ele para fora, até ver se ele caía certo. Quando caía que plantava para dentro da água, você tinha que tirar a carga dele e jogar dentro da água. Para ele levantar, para você tornar a carregar ele. É sofrido, viu? Mas você tinha que ter prazer de, quando você chegava no rancho, você contar o que aconteceu. Em vez de contar com sofrimento, era com satisfação.

Do Rio Manso para cá, depois abriu estrada de carro, por isso não teve tropa mais. Mas se você visse os lugares em que subia… Nossa Senhora, é estrada ruim mesmo. Para fazer uma marcha de três léguas, se gastavam mais de cinco horas. Eram ruins demais as estradas. O morro, você subia, quando você subia um aqui, lá adiante vai ter uma descida. Quando você descia, lá adiante vai ter uma subida. Só grota, né? Era penoso demais, mas a gente que está acostumado não se importava com aquilo, não. Você vê, gostava de andar bem carregado, pesado. Que gostava de trabalhar mesmo.

Mas tinha noite que, às vezes, dormia, a chuva vinha de noite. Você não sabia como é que estava, você nem cortava a enxurrada. Porque, você corta a enxurrada dos lados, então, você corta, para a enxurrada, se chover, não cair dentro da barraca. Era sofrimento (risos). Agora, para esses meninos, até é bom que essa barraca passava o chuvisco. Passava, né? Mas você estava deitado, e caindo aquele chuveirinho fino. Aquele chuvisco fino na gente. Aí, dava até sono, mais sono na gente.

Cantava muito. Eu cantava, nesses bailes todos eu cantava. Hoje que não tem mais, não tem isso mais. Hoje, tem mais é som, né? Para esses bailes, para tudo. Mas, antigamente, não era. Era viola, uma sanfona tocando, e a gente cantando.

Saudade da tropa? Nossa Senhora! Você acredita que eu sonho até hoje? De vez em quando, eu sonho. Embaraçando os burros perdidos. Você nunca sonha certo, você sonha, sempre tem dificuldade. Mas sonho é demais.

Aqui mesmo, eu já fui o rei dos tropeiros, que teve muito tropeiro aqui. Mas eu fui o rei dos tropeiros. Hoje que eu estou mole, que a idade chegou, né? As juntas endureceram.”

***

Mais histórias de tropeiro na coleção Comida de avô, no Museu da Pessoa.

 

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