Comida de avô, no lombo do burro, no meio da tropa

A imagem do feijão-tropeiro cristalizou-se como a de um potente PF de tutu ou virado com bastante toucinho (ou bacon), acrescido de couve e, às vezes, também linguiça. Alguns dizem que a diferença entre essas receitas seria a farinha utilizada para engrossar o feijão: de mandioca, para o tropeiro; de milho, para o tutu e o viradinho. Entretanto, como ocorre com qualquer prato de que se investigue a “receita verdadeira”, para ele também não há autenticidade possível.

São várias as “verdades” para esse feijão, mesmo entre os próprios tropeiros que o tiravam de suas residências, onde eram de preparo cotidiano e exclusivo das mulheres, para prepará-lo em fogões improvisados em ranchos e acampamentos no meio das trilhas. Uma coisa, contudo, é certa: ele consistia em prato muito simples, fruto mais da necessidade e das possibilidades do lugar em que seria feito do que do gosto de quem iria prová-lo. Possivelmente, não levava linguiça nem couve e era engrossado com a farinha que existisse no momento.

Se é para se referir ao feijão-tropeiro como expressão culinária da quase extinta profissão que seu nome eterniza, ele parece ter sido mais uma “comida de avô” do que de avó – a imaginária cozinheira de mão cheia (mineira de preferência) que, ultimamente, costuma se associar aos pratos caseiros e caipiras de nossa memória. Assim como as avós reais do passado, esse avô tropeiro viveu as agruras de um universo rural nada idílico e trabalhou duro para sobreviver em um tempo que, afinal, não está tão distante.

Até mais ou menos os anos 1950 e 1960, antes de o caminhão se consolidar como principal meio de transporte de carga e de os alimentos industrializados ganharem espaço (assim como os grandes mercados), os tropeiros – sempre no masculino – eram figuras muito frequentes no sertão do Brasil, em todas as suas regiões. Tinham a primordial e difícil função de transportar, de um povoado para o outro, os alimentos produzidos nas roças ou processados em pequenas “indústrias” domésticas.

tropeiros_Escola Armando Ziller_Venda Nova_2
O tropeiro, na perspectiva de uma criança do distrito de Venda Nova, em Minas Gerais, depois de uma contação de histórias sobre personagens do passado da região (acervo Museu da Pessoa)

Faziam isso com a ajuda de burros, que equipavam com a cangalha, uma sela dotada de uma estrutura de madeira em que pendiam duas cestas, uma de cada lado, carregadas com os principais produtos: feijão, farinha de milho ou mandioca, toucinho de porco, carne-seca, rapadura. Guiavam os animais por trilhas abertas a facão no meio de mato, enfrentando com as tropas subidas, descidas, rios e chuvas repentinas. Entre um destino e outro, paravam para dormir em ranchos de pau a pique abertos pelo caminho ou montavam, eles mesmos, suas barracas e fogueiras em algum descampado.

“Tinha noite que, às vezes, dormia, a chuva vinha. […] Era sofrimento. Agora, para esses meninos, até era bom porque nessa barraca passava o chuvisco. Passava, né? Mas você estava deitado, e caindo aquele chuveirinho fino. Aquele chuvisco fino na gente. Aí, dava até mais sono na gente“,

lembrou José Marçal de Oliveira, um dos últimos tropeiros do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, que falou de sua vida ao Museu da Pessoa quando já caminhava para os 86 anos, em 2007. Seu Marçal começou na profissão pouco depois da morte do pai, também tropeiro. Tinha, então, 10 anos de idade, e sua primeira função foi a mesma de todos aqueles que se iniciavam na tropa: cozinheiro.

Quando eu fiz 10 anos, aí eu já fui mexer, fui trabalhar com a tropa. Tinha um homem até me esperando, um sujeito muito amigo de meu pai, que já estava me esperando para eu ir trabalhar com ele. Eu ia ser cozinheiro. […] Depois de cozinheiro, logo quando eu passei para catorze anos, eu comecei já trabalhando, pegando carga e tudo. Depois, passei para tomar conta da tropa. Com 14 anos, eu comecei a tomar conta de um lote de burro. Aqui, nessa fazenda, eu já fazia, carregava, saía daqui carregado, em Diamantina descarregava e carregava em Diamantina outra vez.

[…]

O que eu aprendi a cozinhar? De tudo eu sabia fazer, mas carne que eu mais sabia fazer. O que mais a gente usava: carne, feijão e farinha. É o que fazia. Dali, você fazia uma farofa, você fazia uma sopa. Com farinha, você fazia sopa. Às vezes, cozinhava carne de boi ou cozinhava osso de boi e fazia a sopa. Tudo era gosto, né? Você chegava de manhã cedo, você levantava cedo, você comia uma sopa boa com carne, uma delícia. Quando a gente chegava na rancharia, você pegava aquela comida que sobrava, você punha dentro do caldeirão, punha farinhazinha para poder não entornar na caixa de cozinha. Quando você chegava lá, você fritava seis barrilzinhos de toucinho, tirava o toucinho e fritava. Fritava o toucinho e passava. Aí, você fazia uma comidinha. Quando você refogava aquela comida de novo, nossa, o que cheirava, menina, fazia gosto!”

Os ingredientes que eles transportavam também serviam para o consumo próprio. Precisavam ser misturados em uma só panela, de modo prático, para evitar que se aumentasse o peso da carga ao levar mais recipientes e utensílios. Da sopa de carne de um dia, aproveitavam o caldo para, no outro, cozinhar o feijão, engrossá-lo com farinha, incrementá-lo com o toucinho. Receita simples, cheirosa, feita por meninos-homens que tinham ali uma tarefa considerada mais leve, um começo de carreira, e que não deixava de ser feita com orgulho também quando as crianças já estavam crescidas.

José Alves de Mira, o Zé Mira, foi tropeiro no Vale do Paraíba desde seus 7 anos de idade, seguindo a profissão do pai e do avô, de quem recebeu como herança uma cangalha antiga, “feita em 1800”, segundo ele se orgulhava de precisar. Ao contar sua história ao Museu da Pessoa, em 2008, um ano antes de falecer, ele tinha 83 anos e se lembrava em detalhes do mesmo prato recordado por Seu Marçal. Segundo ele, o feijão-tropeiro não levava couve, mas serralha, uma hortaliça que não se cultivava: se coletava nos matos, por aí. A receita era, além de almoço e janta, café da manhã.

“Se eu levantar quatro horas e comer um virado de feijão com torresmo, eu estou almoçado, que era o meu trabalho de tropeiro, que a gente fazia para poder sair com a tropa, porque saía de madrugada e não sabia que hora que ia fazer almoço. Tinha dia que não fazia almoço. O almoço era um feijão-tropeiro feito na trempe, os dois ferros fincados para pôr aquele ganchinho, para pôr a panela, para pôr o fogo embaixo para ferver, fritar o torresmo. É o que comia.

[…]

A faculdade foi fazer uma entrevista com a pessoa, a pessoa falou: ‘O arroz tropeiro, o feijão-tropeiro, o tropeiro comia couve, o tropeiro comia isso…’ O tropeiro nunca comeu couve na viagem, comia serralha porque tinha muita serralha, roçava os matos e saía aquela serralha bonita, e a gente comia crua, é amarga, mas é muito bom para a saúde. A gente apanhava um punhado de serralha para a gente levar pra onde ia fazer o almoço, comer com arroz, feijão e torresmo. Mas couve não, couve só comia em casa. Carregar couve de que jeito? Ir na horta dos outros apanhar couve de que jeito? Então, não tinha como. O arroz tropeiro – tropeiro que na época não tinha nada, só a tropa –, ele nunca comeu arroz na viagem, porque não tinha como ele cozinhar o arroz. A gente cozinhava o feijão de noite e punha lá na latinha, mas era só para almoçar no outro dia e jantar, porque, se ficasse para o terceiro dia, já estava azedo. Hoje não. Hoje, você cozinha o feijão segunda-feira e come até sexta-feira, para depois, segunda-feira, você pôr na geladeira de novo, porque está tudo bom, é só tirar um punhado lá, temperar, né? Antigamente, não tinha nada disso.

Dificilmente, você encontrava uma água em certos lugares que você andava, para você apanhar uma água para você poder cozinhar o feijão. Você tinha que carrear água no quinto de madeira – que era de carregar pinga, aquele barrilzinho – onde tinha uma água boa lá. Você enchia o quinto, enfiava debaixo do couro das cangalhas e carregava, porque não sabia se pra frente tinha água pra modo de você cozinhar o feijão à noite e fazer o café tropeiro. Então, a vida era essa.”

Para acompanhar o “virado” de feijão, ou feijão-tropeiro, que Zé Mira parece tratar como semelhantes, o café era coado de uma forma que hoje pode parecer estranha. O vídeo produzido pelo Instituto Marlin Azul, que integra o acervo do Museu da Pessoa e reproduzo logo na abertura deste texto, retrata o trabalho de antigos tropeiros da região de Carnaubeira da Penha, em Pernambuco. Aos 9 minutos, um deles ensina o preparo do café tropeiro. Anote os ingredientes: uma cuia, uma fogueira, pedras, pó de café, açúcar e um pedaço de pau para mexer. O tropeiro enchia a cuia de água, açúcar e pó de café, e fervia a mistura – que não era coada – apenas jogando nela três pedras quentes.

“Agora eu vou pro café. Vai a água. Vou pegar o açúcar. Água na cuia para fazer o café. O café. Pronto. Agora vamos lá. [Pegando uma das pedras aquecidas na fogueira.] Olha as pedras. Mas vai. Ferveu ou não, uai? Eita, vai embora. Com umas três pedras, faz o café. Agora isso: quando já terminar de ferver, tira as pedras fora e usar. Tá pronto o café. Fica mais gostoso do que o café em casa. Ô, café gostoso!”

Ser tropeiro era, enfim, um ideal para muitos jovens das zonas rurais, que viam nessa profissão a possibilidade de ter a aprovação da comunidade para levar uma vida errante, viajando pela região, se divertindo nos bailes da roça – as chamadas “funções”, com violeiros e sanfoneiros -, sem pressão familiar, sem hora certa para voltar para casa.

Para eles, cozinhar era uma necessidade da profissão, que não exerciam quando retornavam ao ambiente doméstico, onde o mitificado “feijão-tropeiro” deixava de ter a aura quixotesca das viagens por aí para voltar a ser apenas o “tutu”, o “viradinho” do dia a dia, preparado na reclusão da cozinha, exclusivamente pelas mulheres. Eles aprendiam a preparar essas receitas de forma rústica, como “machos” que deveriam ser, e a transmitiam de pai para filho, de tropeiro velho para tropeiro jovem, como parte do universo de companheirismo masculino e de liberdade que vivenciavam nas tropas.

***

Para Zé Mira, o tropeiro do Vale do Paraíba, foi pena que o caminhão e as rodovias acabaram com sua profissão. “Eu falo que foi trocado o pneu do carro pelo casco do burro, porque era mais fácil. […] A tropa foi acabando, foi ficando só na fazenda para descer as mercadorias do aberto até o ponto do caminhão. E assim foi minha vida.” Ao contar sua história, em boa parte reservada aos causos da época de tropeiro, ele revelou saudade da época em que sua função era fundamental não só para o transporte de alimentos de um lugar ao outro, mas também para a vida na roça, como um todo. Cartas, remédios caseiros, peças de tecido encontravam nele uma maneira de chegar a quem se gostava e morava longe.

“Carro não tinha, avião não tinha, trem não tinha. O telefone não existia. Quando você ia viajar, a sua casa vivia cheia de mulher chegando da colônia pra entregar bilhete pro filho, pra levar recado, pra levar carta, pra levar recado, compra de remédio pra trazer. Era carta pra levar pra família. Vinha retalho. ‘Fala pra Fulana mandar um retalho, 20 centímetros desse metro, que não deu pra fazer o vestido da Joana.’ ‘Manda trazer 40 centímetros desse riscado aqui, que não deu pra fazer a camisa do Chico e você traz um retrós igualzinho.’ Agulha de costurar na máquina, dedal pra pôr no dedo pra costurar, pra pontilhar, tudo aquilo a gente pegava. Não tinha quem fizesse, era tropeiro.

A vida do tropeiro era essa vida. Ele era um telefone, ele era um carteiro, ele era um ‘levador’ de recado. Tinha que fazer tudo com as viagens dele, e, mesmo na cidade, se fosse pra uma cidade aqui, a dez quilômetros aqui, o tropeiro saía e levava aquele monte de encomenda.

Quando as tropas iam chegando nos pousos que tinha, que são as colônias, às vezes tinha a ‘ranchada’, os pontos de pouso, as meninas já falavam: ‘Hoje tem função.’ Então, falar em ‘função’ hoje ninguém sabe. Lá, tinha um sanfoneiro, ele já ia lá pro rancho, junto com os tropeiros, oito baixos pra tocar, eu no cavaquinho, outro lá no violão cantando, e as meninas ali em volta olhando, e as mães dançando com os pais e dançavam com as filhas. Mas ai de você se chegasse pra pegar uma menina daquela pra dançar! Não tinha disso, a gente paquerava no olho e olha lá. Mas de tudo, tudo aquilo a gente tem saudade. Hoje eu tenho saudade, sofri bastante, mas tenho saudade daquele tempo.”

***

Leia mais causos de tropeiros contados por Seu Marçal e Zé Mira.

Veja aqui mais histórias na coleção Comida de avô, no Museu da Pessoa.

***

Outras coleções do Lembraria para o Museu da Pessoa:

 

Parceria:

logo_museu_oficial

2 comentários Adicione o seu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s