Comida de mãe, segundo as regras da tataravó

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Foto publicada no livro Os Parceiros do Rio Bonito, de Antonio Candido, com a seguinte anotação: “As mulheres observam o resguardo depois do parto, inclusive na dieta, que é rigorosamente de caldo de galinha”

Quando o doutorando Antonio Candido (hoje renomado literato, aos 98 anos de idade) estudou de perto as comunidades de bairros rurais de algumas cidades do interior de São Paulo, entre 1947 e 1954, observou que as mulheres recém-mães mantinham um velho costume de “guardar” os quarenta dias após o parto. No estudo que resultou em sua tese de doutorado e no livro Os Parceiros do Rio Bonito, lançado pela primeira vez em 1964, ele dedicou um capítulo inteiro à dieta caipira e falou sobre algumas das regras culturais que a cercavam, incluindo as relacionadas ao chamado “resguardo”.

“As restrições alimentares incluem práticas como a dieta de parto, já mencionada (segundo a qual a mulher deve passar quarenta dias a caldo de galinha); a abstinência religiosa; os tabus referentes a mistura de alimentos etc.”

A abstinência religiosa, antigamente, era associada sobretudo à Quaresma, o intervalo de quarenta dias entre o Carnaval e a Páscoa, em que era proibido consumir porco e qualquer um de seus derivados. A banha, por exemplo, tinha de ser banida, ainda que fosse, naquele tempo, a principal gordura utilizada para os preparos na cozinha. Curiosamente, a dieta de resguardo também se estendia por quarenta dias, logo após o parto, mas tinha regras menos fixas do que as consideradas para a Quaresma. A canja ou o caldo simples de galinha constituíam a base da alimentação desse período, que variava de acordo com a região e com as tradições familiares da nova mãe.

Nos arredores de Taubaté, no interior de São Paulo, segundo contam Paulo Camilher Florençano e Maria Morgado de Abreu no livro Culinária Tradicional do Vale do Paraíba, de 1987, o caldo só podia ser feito com a fêmea do frango ou com a galinha, abatidas antes de terem posto seus primeiros ovos. Ao longo da gravidez, a família já ia engordando as aves e preparando biscoitos que seriam utilizados no preparo da sopa: quebradinhos, eles eram colocados no fundo do prato que receberia, por cima, o caldo fumegante.

Como presente da primeira visita ao recém-nascido, muitas mães ganhavam dos vizinhos não roupinhas ou flores, mas galinhas vivas e biscoitos, ingredientes que elas se cansariam de comer ao longo dos quarenta dias seguintes – ou 41, caso tivessem uma menina. Canjica e muita cerveja preta – sim, Malzbier! – ajudavam a encarar essa monotonia alimentar: eram também indicadas porque ajudariam a mãe a ter fartura de leite.

A bebida alcoólica, aliás, aparecia já no dia do parto. Era costume fazer chás de erva caiapiá ou arruda ou erva-de-são-joão com cachaça e servi-los à mulher durante o trabalho ou depois de ter parido, porque “esquentavam e descansavam o corpo, evitavam dor de cabeça, cólica, hemorragia e recaída”. No livro, há ainda o depoimento de uma mulher, Isabel Aparecida de Carvalho, que, na época da publicação, em 1987, tinha 45 anos e sete filhos. Ela elencou as regras de resguardo que seguiu em todos os sete partos – e que já havia indicado para as mães de seus sete netos. Dizia ela:

  • O caldo de franga (antes da primeira postura e que não fosse gorda), era usado de várias maneiras: com farinha de milho ou mandioca, formando na panela ou no prato, em caldo fervente, um pirão ralo, bem molinho, com pedaços de franga bem cozidos; o mesmo tipo de caldo, com macarrão cortadinho ou de vara, bem cozido, e pedaços de franga pelo meio da sopa.
  • O arroz não era usado durante a dieta, principalmente na roça, onde era colhido e socado no pilão, ficando por isso meio áspero, o que poderia dar grosseira ou alergia na parturiente.
  • O feijão, somente depois de três dias de dieta, poderia ser incluído na alimentação. E sempre da mesma qualidade. Se a parturiente começasse a comer feijão do tipo mulatinho, até o fim da dieta (quarenta dias para menina e 41 para menino), teria de ser da mesma qualidade, o mesmo acontecendo com outros tipos de feijão: rosinha e o cara suja, que eram plantados na roça. O feijão-branco, ‘rola’, manteiga e outros não entravam na dieta porque ‘faziam mal’, eram muito fortes e indigestos.
  • A bebida matinal e em outras horas do dia era a garapa de água fervida, adoçada com açúcar refinado, tomada com biscoitos quebrados na tigela. Esse tipo de açúcar deveria ser armazenado com antecedência, embora existisse à venda nos armazéns da roça. Era crença que essa bebida juntava leite, isto é, aumentava a capacidade de aleitamento da mãe.
  • O café ralo, com biscoito, só podia ser tomado uns oito dias depois do parto, porque podia dar dor de barriga.
  • A canjica bem cozida, com bastante caldo e adoçada com açúcar (sem leite) era alimento frequente, porque também aumentava a produção de leite materno.
  • Bolo, pão não eram usados por causa do fermento da massa.
  • O leite não entrava na dieta, pois fazia mal. Dava corrimento.
  • Fígado, moela, cabeça e pescoço de frango a parturiente não devia comer porque davam ‘pano’ (manchas escuras) no rosto. Além disso, quem comia moela [na gravidez] podia ter filho ‘encapado’, isto é, a criança nasceria envolvida pela placenta.
  • Verdura também não podia ser consumida: a couve ‘descorava’ a pessoa, ou dava dor de estômago.
  • A batata e a mandioca também não, porque provocavam rachaduras no bico do peito da mãe, no seu pé e no da criança.
  • Abacaxi, limão, laranja eram considerados muito ácidos, e a banana, muito fria.”

Entre a pesquisa de Antonio Candido e a de Paulo Florençano e Maria Morgado, mais especificamente em 1975 e 1976, outro estudioso, o antropólogo Carlos Rodrigues Brandão, anotou suas observações sobre a dieta do resguardo, dessa vez na comunidade rural de Mossâmedes, nos arredores da cidade de Goiás, ainda no raio da cultura caipira. No livro que se originou de sua pesquisa, Plantar, Colher e Comer, publicado em 1981, ele incluiu a entrevista que fez com uma parteira experiente, que seguia regras um tanto diferentes das reveladas pela mulher do Vale do Paraíba.

Em Goiás, o arroz seria um ingrediente “bom” para o resguardo, ao contrário do que se pensava no interior paulista. A couve também seria proibida, assim como a cebola e “Ave Maria, o pequi!”, como diz a senhora. Ambas as dietas de resguardo, a da cidade goiana e a do Vale do Paraíba, baseiam-se, no entanto, em um princípio comum: a existência de alimentos “bons ou maus” para a saúde porque seriam “fortes ou fracos”, “quentes ou frios”, ou “reimosos ou “não reimosos”.

O conceito de “reimoso“, ou daquilo que seria prejudicial ao sangue, vem da antiga medicina galênica, que se adotou de forma praticamente unânime em toda a Europa desde o Império Romano até o início da Idade Moderna – e que ao Brasil chegou com a colonização portuguesa. É interessante notar que a ideia de que a oposição entre o proibido e o permitido na alimentação influenciasse diretamente a saúde tenha reverberado por aqui até pelo menos o século 20 (e talvez persista ainda hoje em alguns pontos do país).

Durante os períodos de vulnerabilidade das pessoas, em meio a doenças ou, no caso das mulheres, à menstruação e ao pós-parto, os alimentos reimosos (também tidos como fortes ou quentes), que fariam mal ao sangue, deveriam ser evitados para que fosse possível reequilibrar os humores do corpo (o seco, o úmido, o quente, o frio). Acreditava-se que o desequilíbrio, “conduzido” pelo sangue, poderia interferir não somente na pessoa em questão, mas também em quem estivesse ao seu redor, como o próprio recém-nascido.

Os portadores de reima, contudo, não são facilmente identificados. A lista de ingredientes reimosos, ou proibidos, e dos bem-vindos varia de lugar para lugar, de família para família. Em Goiás, a parteira entrevistada por Carlos Rodrigues Brandão, tinha suas próprias definições para o assunto. “Uai, reimosa que eu falo é essas mesmo: é quiabo, é pimenta e a cebola”, dizia. A entrevista, publicada como anexo do livro Plantar, Colher e Comer, explica os porquês da dieta de resguardo, que também seria válida para o período de “regras” – nome que, não por acaso, já foi sinônimo de menstruação:

“Aqui as mulheres ainda guardam aqueles resguardos compridos?”

“Eu acho que o meu modo, quando olho uma mulher, o que eu explico pra elas é isso: eu não acho de acordo comer cebola, não de acordo comer pimenta. Muitas vezes a mulher lá no hospital, ela pode às vezes até chupar uma laranja, comer uma couve, né? Mas aqui na roça eu não mando. […] Eu falo pra elas: eu não deixo comer cebola, eu não deixo comer pimenta, não deixo comer carne de porco feita no dia em que mata o capado [animal castrado para engordar mais]. Nem manteiga eu não gosto que come. Porque faz mal. É criação. Do jeito que nós foi criado, fazia mal… O arroz não faz mal. O arroz principalmente pode fazer aquela carga dele. Pode ser mesmo junto com a carne de vaca, ou com a carne de galinha mesmo, ou de frango. Eu acredito que não faz mal, não. Mas é devido aos ensinos. A pimenta, a cebola. Tem muitas também outras comidas reimosas. Quiabo. Quiabo não é de acordo a mulher de resguardo comer ele. Já o chuchu pode comer. Ele é uma comida que não faz mal pra ninguém.”

“O que a senhora chama de comida reimosa?”

“Uai, reimosa que eu falo é essas mesmo: é quiabo, é pimenta e a cebola. Essas que têm a reima. Elas é quente; então aquele quentão. Você quer que eu explique bem explicado, não? Então, aquele quentão da pimenta, da cebola, porque a mulher, quando cria [dá à luz] ela fica assim com o sangue quente, sabe? Um sangue revoltoso. Então aquela comida faz o sangue da pessoa esquentar. Onde é uma carne de porco sem capar, peixe. Uma leitoa pra mulher que está de resguardo, se ela comer, ela zanga o sangue. Vira aquela doença do sangue…

A reima é aquele quentão, é a natureza daquele trem que já é de ser quente. […] Mas minha mãe dizia pra mim assim, que mulher de resguardo não pode comer couve. Não pode comer abóbora. Já gueroba [palmito guariroba] pode. A gueroba eu comia de resguardo. O jiló. A natureza dela é quente, mas não é reimosa… O pequi, cruz credo, Ave Maria! Pequi é reimoso demais. Tanto faz pra uma mulher de resguardo ou uma pessoa operada. Não dá certo comer, não. É muito gostoso, mas muito quente.”

“Tem parteira que dá chá para as mulheres que vão dar à luz…”

“Eu não gosto. Eu não gosto de dar pinga pra mulher beber. Eu gosto é assim. Eu vou te contar meu problema, como é que eu faço. Eu gosto de fazer um banho de água de sabão e dou aquele banho naquela mulher, e ponho lá naquela cama e faço um chazinho só de mentado [hortelã] e dou pra ela na cama.”

“Parece que a mulher ou moça quando está de regra tem muita comida que não pode também, não.”

Uai, eu falo assim que moça de menstruação significa quase a mesma coisa de mulher que tá de resguardo. Uai, eu falo pras meninas aqui que não pode comer é mesmo… Nem torresmo eu não gosto que come. Dá mau cheiro. É, cebola, pimenta e couve. O tomate elas comem, mas não deve comer porque é azedo.”

“Quer dizer que o azedo não pode comer?”

“Ah, não gosto que come não. Laranja, umas coisas assim. O limão é pior ainda. O limão eles falam que faz cortar e ataca na cabeça. Quer dizer que isso é ensinamento de mãe. Mas graças a Deus na minha família nunca aconteceu isso. […] O ovo pode soltar o vento da mãe do corpo [quem prende a criança na barriga da mulher] pela frente. O vento em vez de sair por trás ele vem pela frente. A boca do útero fica solta, entra vento e solta na hora. A mulher de resguardo faz ficar nessa soltação de vento assim. Sem sentir. Se tá menstruada e come pequi, o corpo fica aquela canjiqueira e depois vira cabeça de prego. Eu já vi uma mulher de resguardo comer pequi. Ela amassou bastante de pimenta-de-bode e pôs. Ficou gostoso mesmo. Pôs cebola, mas depois ela encaroçou o corpo todinho. A gente tinha até medo de olhar no corpo dela. Depois foi abrindo ferida.”

“Quando a mulher está menstruada, que comida ela deve comer?”

“Ah, é arroz feijão, né? Carne, pode comer carne de vaca também. Carne de porco não. Sendo assim, de porco sem capar nem, sô. Porque eu vou falar mesmo. Quando tô assim não gosto nem de carne de leitoa. O chuchu pode comer. Pode comer uma verdura assim. Alface pode comer. Assim, que não seja reimoso. Jiló, né? Pode comer frango.”

***

Quando eu nasci, em 1983, minha avó, fiel aos costumes caipiras, passou à minha mãe as orientações para o resguardo. Entre elas, estavam as ordens de só comer canja de galinha com biscoito (um biscoito comprado pronto, possivelmente de farinha de trigo), de não consumir peixe, ovo cozido nem repolho, e de não lavar os cabelos durante os quarenta dias seguintes.

Minha mãe disse à minha avó que, sim, seguiria todas as instruções direitinho. Mas por achar tudo meio sem sentido e por odiar caldo de frango, às escondidas, ela não fez nada daquilo. Ela e boa parte das brasileiras que, de várias décadas para cá, foram deixando esses costumes de lado para creditar a dieta do pós-parto mais aos médicos e nutricionistas do que às tradições de avós e bisavós.

Para qualquer coisa, a receita do caldo de galinha com biscoito, extraída do livro Culinária Tradicional de Vale do Paraíba, segue abaixo. Foi cedida por Dona Maria do Carmo Jacobine, de Taubaté, em 1987.

Caldo de galinha com biscoito para o resguardo

“Depois de bem cozida a galinha, com todos os temperos (menos pimenta), o caldo era usado assim: em uma tigela de louça quebravam-se alguns biscoitos ou cangalhinha [de uma fábrica de Jacareí, no Vale do Paraíba] e por cima viravam-se umas conchadas de caldo bem quente, fumegante e cheiroso. Passados alguns dias após o parto, já se podiam acrescentar uns pedaços de frango.”

***

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