A colher de ferro e a cantilena do mingau de feijão com pimenta-brava

A avó de Rodrigo Moreira de Faria, mineiro de Belo Horizonte nascido em 1954, usava uma colher de ferro para mexer em uma panela, também de ferro, o feijão do dia bem amassadinho, umedecido em molho quente de pimenta-brava. Óleo para brilhar, farinha de mandioca para engrossar.

Era esse poderoso mingau que seus filhos comiam antes de dormir, respondendo à cantilena da mãe Maria Jovita, que, para dar o ponto, acabava transformando colher e caldeirão em um instrumento musical. O chamado não falhava.

Reco – Uma História do Tempo

Nas primeiras décadas do século passado, na cozinha lá em São Gonçalo do Pará, Minas Gerais, a Dona Maria Jovita, minha falecida avó paterna, inventava mais uma delícia para seus filhos comerem antes de dormir. Era o feijão que havia sobrado do dia, bem amassadinho, banhado num molho escaldante de quentura e de pimenta-brava, bastante óleo para brilhar e um tanto de farinha de mandioca para engrossar.

E toca a mexer, a panela e a colher, de ferro as duas, que soavam pela casa e chamavam a filharada: reco, reco, reco, reco …

‘Vasilhinhas’ e colheres para os filhos mais velhos, bolinhas que viravam brincadeiras e muitas brigas para os mais novos.

E assim nasceu o RECO, até hoje uma iguaria importante no cardápio de qualquer reunião da família Almeida de Faria, cuja receita é tratada como um segredo de estado, apenas compartilhado com poucos privilegiados e corajosos amigos.

A panela de ferro não sei aonde está, mas a colher de ferro que fazia a cantilena do reco, reco, reco, reco está muito bem guardada, e todos podem ver que está faltando um pedacinho, de tanto raspar na panela.

A colher foi presenteada pela minha avó para uma prima minha, que, felizmente, tem a mania de guardar tudo de todos. E assim, por mais de quarenta anos, sempre esteve pendurada num preguinho nas cozinhas das casas onde ela morou, revivendo memórias e contando a história do passado, uma das muitas desta louca e maravilhosa família.

Hoje a valente e experiente colher está sob a guarda e cuidados de um primo, cozinheiro e anfitrião dos melhores e também ferrenho guardião das receitas da Vovó Maria.

Assim, a história, a cultura, os costumes de nossa família permanecem atuais, não apenas como lembrança do passado mas também como ensinamento para o futuro.

***

Este depoimento deu origem a um verbete em O dicionário das comidas impossíveis, que surge das respostas ao questionário Fatias de memória.

Clique aqui para contar sua história e nos ajudar a preencher esse relicário.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s