O doce de laranja amarga do Seu Honório, o pai da Daniela

Nascida em Cotia, em São Paulo, no ano de 1977, Daniela Previde Stefano Emerick cresceu na Granja Viana e hoje vive na cidade de Veranópolis, no Rio Grande do Sul. É de lá que ela acerta as arestas das próprias memórias: o pai, Honório, trabalhava fora. Não era dele, a rigor, a tarefa de cozinhar. Só que no fim das contas Daniela se lembrou de um monte de coisas gostosas que ele fazia. Seu Honório vive nas recordações da filha. E no curau cremoso, nas sementes de abóbora para petiscar, na paçoca de pilão e no mais significativo dos doces, o de laranja amarga. Demorado e simbólico.

Meu pai, chamado Honório, nasceu em 1935. Ele era o típico provedor de família que trabalha fora e não faz os serviços de casa. Ele não cozinhava, isso era tarefa da minha mãe. Mas hoje, lembrando, percebo que muitas comidinhas eram feitas apenas por ele. Quando a gente comprava abóbora ele tirava as sementes, deixava secar no sol e depois torrava e salgava. Ele também fazia uma deliciosa paçoca de carne seca batida no pilão. Nunca mais comi e também nem sei onde achar um pilão, coisa rara hoje em dia.

Outro prato que só ele fazia era curau de milho. Aquela delícia cremosa com canela salpicada por cima. Mas a coisa que mais me lembro, e simboliza meu pai, é seu doce de laranja amarga. O ritual era longo, pois tinha início com a colheita das frutas. Depois, era necessário lavá-las muito bem e descascar tirando toda a parte amarela e deixava apenas a parte branca da casca da laranja. Essa casca era picada e ficava de molho na água por vários dias, a água deveria ser trocada diariamente até tirar todo o amargo da casca. Finalmente chegava o dia de fazer o doce e as cascas eram colocadas em uma panela com açúcar e cravo. Depois, muito tempo mexendo esse doce enquanto meu pai conversava e fazia as piadas e brincadeiras dele sempre com bom humor. Ao final do processo o doce era colocado em uma travessa de vidro e ficava na geladeira até ficar bem geladinho mesmo.

Naquela época eu não achava muito que esse era um doce tão legal, afinal o pé de laranja estava no quintal e eu queria mesmo era comer o chocolate do supermercado. Mas hoje que meu pai se foi, fico pensando naquele doce e me dá água na boca. Já tentei fazer passo a passo como ele fazia, mas não tem o mesmo gosto. Falta algo, falta ele.

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Este depoimento deu origem a um verbete em O dicionário das comidas impossíveis, que surge das respostas ao questionário Fatias de memória.

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