“Todos, do rei e rainha ao camponês e sua mulher, comem com as mãos”

 

bruegel
O Casamento Camponês, pintado entre 1566 e 1569, é uma das obras de Pieter Bruegel, o Velho, que mostram refeições: a noiva, em frente a um pano escuro, aguarda um dos pães que estão sendo servidos e que também funcionam como colher para a sopa; nessa época, o tratado de Erasmo de Roterdã sugeria que os hábitos camponeses à mesa não deveriam ser seguidos pelos meninos nobres (acervo do Kunsthistorisches Museum, Viena)

Em 1530, o filósofo holandês Erasmo de Roterdã (1466-1536) lançou um livro que seria um sucesso, não apenas pelas centenas de reedições que teria nos séculos posteriores (só nos seis anos seguintes, até a morte dele, o título seria republicado trinta vezes), mas, principalmente, porque se tornaria o precursor dos futuros manuais de etiqueta e do conceito que ainda hoje encobre o termo “civilização”.

Em sua pequena obra, De Civilitate Morum Puerilium, algo como “Da civilidade em crianças”, Erasmo reuniu regras de comportamento que um menino nobre, filho de príncipe, deveria respeitar quando estivesse em um ambiente social. O sociólogo alemão Norbert Elias (1897-1990), ao analisar o tratado para seu também clássico O Processo Civilizador, publicado pela primeira vez em 1939, diz que:

“Examinando-o mais detidamente, percebemos por trás dele um mundo e um estilo de vida que, em muitos aspectos, para sermos exatos, assemelha-se muito ao nosso, embora seja ainda bem remoto em outros. O tratado fala de atitudes que perdemos, que alguns de nós chamaríamos de ‘bárbaras’ ou ‘incivilizadas’. Fala de muitas coisas que desde então se tornaram impublicáveis e de muitas outras que hoje são aceitas como naturais.

[…] Não deve haver meleca nas narinas, diz ele mais adiante. O camponês enxuga o nariz no boné ou no casaco e o fabricante de salsichas no braço ou no cotovelo. Ninguém demonstra decoro usando a mão e, em seguida, enxugando-a na roupa. É mais decente pegar o catarro em um pano, preferivelmente se afastando dos circunstantes.”

Um dos trechos mais interessantes é aquele em que Erasmo se detém à mesa e descreve uma série de modos que deveriam ser considerados bons. Ainda que fosse uma época em que garfos praticamente não eram utilizados, havia maneiras tidas como corretas sobre como comer com as mãos – uma delas seria empregar um pedaço de pão, a quadra, como se fosse um talher, ou um precursor então necessário da hoje apenas prazerosa scarpetta.

Reunimos algumas dessas “dicas” abaixo, pensadas há mais de quinhentos anos, quando o Brasil começava a passar pelo processo que, como queriam os portugueses, o tornaria “civilizado” à moda europeia. Os trechos foram retirados do livro de Norbert Elias, edição de 1990 da Zahar, páginas 69 e 71.

  • O copo de pé e a faca bem limpa à direita, e, à esquerda, o pão. Assim é como deve ser posta a mesa. A maioria das pessoas porta uma faca e daí o preceito de mantê-la limpa. Praticamente não existem garfos e quando os há são para tirar carne de uma travessa. Facas e colheres são com frequência usadas em comum. Nem sempre há talheres especiais para todos: se lhe oferecem alguma coisa líquida, diz Erasmo, prove-a e, em seguida, devolva a colher depois de tê-la secado.

  • Quando são trazidos pratos de carne, geralmente cada pessoa corta seu pedaço, pega-o com a mão e coloca-o nos pratos, se os houver, ou na falta deles sobre uma grossa fatia de pão. A palavra quadra usada por Erasmo pode significar claramente ou prato de metal ou fatia de pão.

  • “Quidam ubi vix bene considerint mox manus in epulas conjiciunt.” Algumas pessoas metem as mãos nas travessas mal se sentam, diz Erasmo. Lobos e glutões fazem isso. Não seja o primeiro a servir-se da travessa que é trazida à mesa. Deixe para camponeses enfiar os dedos no caldo. Não cutuque em volta da travessa, mas peque o primeiro pedaço que se apresentar.

  • E da mesma maneira que demonstra falta de educação cutucar todo o prato com a mão – “in omnes platine plagas manum mittere” – tampouco é muito pouco polido girar o prato de servir para pegar a melhor porção. O que não pode pegar com as mãos, pegue com a quadra. Se alguém lhe passa um pedaço de bolo ou torta com uma colher, pegue-o ou com sua quadra ou pegue a colher oferecida, ponha o alimento na quadra e devolva a colher.

  • Conforme já mencionado, os pratos são também raros. Quadros mostrando cenas de mesa dessa época ou anterior sempre retratam o mesmo espetáculo, estranho para nós, que é indicado no tratado de Erasmo. A mesa é às vezes forrada com ricos tecidos, às vezes não, mas sempre são poucas as coisas que nela há: recipientes para beber, saleiro, falas, colheres, e só. Às vezes, vemos fatias de pão, as quadrae, que em francês são chamadas de tranchoir ou tailloir. Todos, do rei e rainha ao camponês e sua mulher, comem com as mãos.

  • Na classe alta há maneiras mais refinadas de fazer isso. Deve-se lavar as mãos antes de uma refeição, diz Erasmo. Mas não há sabonete para esse fim. Geralmente, o conviva estende as mãos e o pajem derrama água sobre elas. A água é às vezes levemente perfumada com camomila ou rosmaninho. Na boa sociedade, ninguém põe ambas as mãos na travessa. É mais refinado usar apenas três dedos de uma mão. Este é um dos sinais de distinção que separa a classe alta da baixa.

  • Os dedos ficam engordurados. […] Não é polido lambê-los ou enxugá-los no casaco. Frequentemente se oferece aos outros o copo ou todos bebem na caneca comum. Mas Erasmo adverte: “Enxugue a boca antes.” Você talvez queira oferecer a alguém de quem gosta a carne que está comendo. “Evite isso”, diz Erasmo. “Não é muito decoroso oferecer a alguém alguma coisa semimastigada”.

  • E acrescenta: “Mergulhar no molho o pão que mordeu é comportar-se como um camponês e demonstra pouca elegância retirar da boca a comida mastigada e recolocá-la na quadra. Se não consegue engolir o alimento, vire-se discretamente e cuspa-o em algum lugar.”

  • E repete: “É bom se a conversa interrompe ocasionalmente a refeição. Algumas pessoas comem e bebem sem parar, não porque estejam com fome ou sede, mas porque de outra maneira não podem controlar seus movimentos. Têm que coçar a cabeça, esgaravatar os dentes, gesticular com as mãos, brincar com a faca, ou não podem deixar de tossir, fungar e cuspir. Tudo isso realmente tem origem no embaraço do rústico e parece uma forma de loucura.”

  • Mas é também necessário e possível a Erasmo dizer: não exponha sem necessidade “as partes a que a Natureza conferiu puder”. Alguns recomendam, diz ele, que os meninos devem “reter os ventos, comprimindo a barriga. Mas dessa maneira pode-se contrair uma doença”. E em outro trecho: “os tolos que valorizam mais a civilidade do que a saúde reprimem sons naturais.” Não tenha receio de vomitar, se a isto obrigado, “pois não é vomitar, mas reter o vômito na garganta que é torpe“.

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