Os bolinhos de carne moída da Dona Luzia

Filha de baiano, paulista nascida em Guarulhos, Fabiana Ferraz não costumava hesitar na escolha ao pedir para a mãe um comida especial em seu aniversário. No lugar de docinhos e bolo confeitado, a festinha dos sonhos daquela criança tinha bolinho de carne moída e refrigerante. A bela Dona Luzia já não cozinha mais. Suas receitas, contudo, ainda que morem na impossibilidade, seguem fazendo história.

“Dona Luzia, a cozinheira que não gostava de cozinhar”

Era tão engraçado, meus pais vieram da Bahia. Minha mãe, uma moça muito linda, não era porque era minha mãe…, mas ela era linda e, também, não gostava de cozinhar [risos]. Dizia que não gostava de seu tempero… Incrível isso…

Eu me lembro de que fui filha única dos meus pais até quase 9 anos (!), então eu era uma criança bem alimentada e mimada [risos].

Lembro que eu ia para o pré-primário e a minha mãe ainda fazia aviãozinho para mim. Chegava da escola e já tinha uma mesa posta com um lanchinho.

Lembro de quando ela comprava uma fotonovela para ela e um gibi para mim. E o meu pai trazia todos os dias um chocolate Surpresa, que falava sobre os animais brasileiros (alguém se lembra desse chocolate??).

Lembro que ela me dava morangos com açúcar para assistir desenhos e eu manchava o sofá de pano com os talinhos do morango (ela ficava brava) [risos]. E às vezes ela fritava batatinhas para eu assistir “Armação Ilimitada”.

Só para constar, eu não comia só besteiras… Tinha que comer arroz, feijão, carne e “mistura” sempre [risos]; só nunca comi peixe porque ainda não encontrei um que goste… nem o dela [risos].

Ela cozinhava divinamente arroz, feijão, maxixe, chuchu gratinado (o chuchu mais gostoso do mundo), carne assada, sopas, cuscuz paulista (de frango, só para mim…), costela com legumes, banana-da-terra e pirão do caldo. Tudo era bom. Inclusive ela fazia um “pudim americano” que até hoje eu não sei a receita.

O tempero dela era fantástico. Hoje eu entendo porque era uma “criança fortinha” [risos]. O meu pai só pedia o peixe no leite de coco, já a minha irmã e o meu cunhado amam a costela que ela fazia. E ela dizia que não gostava de cozinhar… [risos].

Mas os bolinhos de carne moída… Meu Deus, aquela era a iguaria dos céus!! Carne moída de boa qualidade, com bastante tempero, pão amanhecido molhado no leite, pedacinhos de tomate passados apenas na farinha de trigo e fritos em óleo quente… É sério! É a melhor comida que eu já comiEu era tão apaixonada por esses bolinhos que trocava inclusive bolos de aniversários (que ela também sabia fazer) por esses bolinhos. Então, algumas vezes no meu aniversário não tinha bolo, tinha bolinhos de carne moída e refrigerante (só para a família) [risos].

Até adulta eu sempre pedia o “Bolinho de Carne Moída”, era a minha “comfort food” para os momentos chatos da vida…

Hoje ela está com uma doença neurodegenerativa muito séria, ainda sabe algumas receitas de cor, mas não pode mais cozinhar… Eu até sei cozinhar algumas coisas, mas eu nunca tive coragem de fazer “Bolinho de Carne Moída”. Acho que tenho medo de estragar essa memória tão especial para mim…

Eu e minha irmã falamos que temos que anotar estas receitas…, mas a gente sabe que isso é a “mão dela” e que o nosso tempero ou o de qualquer pessoa nunca será igual ao dela.

Saudades da mãe que tive e gratidão a Deus pela sua vida tão especial. Dona Luzia… a melhor mãe do mundo… Obrigada por me deixar compartilhar. Um beijo!

***

Este depoimento deu origem a um verbete em O dicionário das comidas impossíveis, que surge das respostas ao questionário Fatias de memória.

Clique aqui para contar sua história e nos ajudar a preencher esse relicário.

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