As fantásticas mamadeiras de leite condensado (ou uma história do brigadeiro)

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Propaganda do Leite Moça na revista Vida Doméstica de 28 de julho de 1928 (fonte: Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional)

Talvez seja comum entre as crianças de hoje sonhar com um mundo onde o açúcar em excesso faça bem à saúde e esteja na rotina de alimentação. Pois esse mundo, mal sabem elas, já existiu. Para aqueles que nasceram no começo do século 20, tomar diárias mamadeiras de leite condensado era não só tudo bem, como recomendado pelos médicos. Ao menos é o que sugeria a série de propagandas da qual faz parte a que reproduzimos acima, publicada na revista Vida Doméstica de 28 de julho de 1928:

“O bom Leite Moça, que é puro, rico em creme, que não se pode falsificar e substitue com vantagem o leite fresco. Segundo a opinião de summidades médicas, é o único que pode fazer as vezes do leite materno na época difícil de serem desmamadas as crianças.”

O papo do anúncio não era novo. Ele se referia à marca que seria sinônimo do ingrediente no Brasil, mas, bem antes da chegada dela ao país, o leite condensado já era comercializado como o substituto vitaminado, mais durável e supostamente mais higiênico – porque condicionado em latas fechadas – do leite fresco, que ainda saía das vacas e cabras das pequenas propriedades direto para as garrafas entregues em casa (onde não havia geladeira para que durasse mais do que algumas horas).

Com “conservação” e “saúde” como palavras-chave, a novidade foi introduzida no Brasil nos anos 1860, mais ou menos dez anos depois de ter sido inventada pelo americano Gail Borden, que patenteou a fórmula em 1856. Ela já era industrializada por um grupo dos Estados Unidos e, mais tarde, por meio de uma associação com a suíça Nestlé, que se consolidava com a venda de farinha láctea, seria comercializada sob a marca Milkmaid, com a figura de uma camponesa no rótulo – ou a “moça”, como passou a ser chamada no Brasil até que o nome virasse mesmo oficial.

Bem antes de a Nestlé entrar no jogo, quando ainda era conhecido pelo nome do “moço” inventor, Borden, o leite condensado já podia ser encontrado em um empório de São Paulo, na Rua Direita, 15. No anúncio que a loja mandou publicar no Correio Paulistano de 13 de junho de 1866, um longo texto enumera os diversos benefícios do ingrediente, antecipando o que a propaganda da Vida Moderna resumiria nos anos 1920.

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Recomendado “como preferível ao leite tirado das vacas”, o leite condensado chega a São Paulo nos anos 1860 (fonte: Correio Paulistano/Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional)

Antes de qualquer coisa, o anúncio explica do que se trata a invenção do senhor Borden: leite puro evaporado, combinado a açúcar refinado. Depois, diz que a fórmula permite que o produto dure incríveis “bons anos”,  além de servir muito bem para o preparo de “café, chá, chocolate, creme, bolos, pudins” e de, ao ser diluído em água, render um copo de leite “de um gosto puro e frescal”. A única vantagem de fato fundamentada por médicos, segundo o texto, é aquela que alude ao consumo infantil: “os primeiros médicos o recomendam para as crianças como preferível ao leite tirado das vacas”.

De qualquer maneira, o ingrediente só ganharia atenção quando o discurso higienista – que culminaria no I Congresso Brasileiro de Higiene, em 1923, organizado no Rio de Janeiro pelo famoso médico sanitarista Carlos Chagas, com quatro dos vinte temas de debate relacionados à alimentação* – faria com que os enlatados passassem a ser mais bem aceitos. Não por acaso, é nessa mesma década que o anúncio do recém-lançado Leite Moça, na Vida Moderna, o coloca como um dos ingredientes indispensáveis à nutrição do bebê. Diluído em água, ele virava o leite da mamadeira das crianças.

A lógica era mais ou menos a seguinte: porque eram industrializados, acreditava-se que os ingredientes continham menos impurezas do que aqueles produzidos à antiga moda artesanal, em condições desconhecidas ou muitas vezes distantes das regras de higiene que começavam a ser impostas. A expansão das propagandas e da imprensa no início do século 20 contribuía para que, cada vez mais, as latas de produtos como o leite condensado chegassem ao conhecimento das mulheres, então responsáveis pela alimentação em casa.

Ao lado dos industrializados, também o açúcar passava a ser vendido nos anúncios publicitários como um alimento indispensável à saúde, sobretudo das crianças, que, com uma dieta rica dele, teriam mais energia e ficariam mais robustas e coradas. Esse seria, aliás, o mote das propagandas do adocicado ingrediente até praticamente o fim do século 20. Nos livrinhos culinários lançados pela marca União a partir dos anos 1960, esse discurso, inclusive avalizado por médicos, permeava as páginas de receitas.

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Ode ao açúcar em meio às receitas do primeiro livrinho da União, no início dos anos 1960

E nascia o brigadeiro…
O leite condensado reunia, portanto, três dos principais sonhos para a nutrição das crianças de praticamente todo o século 20: uma lata asséptica, um conteúdo industrializado e muito açúcar. Nas vendinhas, mesmo antes da invenção dos supermercados, ele já aparecia nas prateleiras ao lado de outros enlatados, um deles com chocolate em pó. Não demoraria muito para a “moça” encontrar o Toddy, e, juntos, na panela, darem origem a um dos docinhos mais esperados nas festinhas de aniversário do Brasil.

A primeira vez em que o brigadeiro aparece nas colunas femininas de jornais e revistas brasileiros é em O Cruzeiro, na edição de 30 de julho de 1949. No texto “Coisas para uma festinha”, assinado pela sumidade em assuntos domésticos da época, Helena Sangirardi, ele aparece como parte do cardápio de doces indicado para um evento “simples e íntimo”. Não há receita dele; apenas uma menção, indicando que talvez já fosse alguma coisa conhecido, assim como os cajuzinhos e as nozes fingidas.

No mesmo ano, em 24 de setembro de 1949, na mesma revista, Sangirardi publicava a carta de uma leitora, Ida, de Porto Alegre, que dizia ser o “brigadeiro” uma versão mais complicada de seu velho conhecido “bombom de doce de leite”. Ao que parece, o brigadeiro, na época, era feito com leite condensado previamente cozido para se tornar doce de leite. Ida, a leitora, dava então a dica de colocar a lata ainda fechada na água fervente para que o processo fosse mais rápido. Sangirardi, em resposta, não só aprovava o conselho, como indicava sua própria maneira de “cozinhar” o leite condensado.

“Ainda há pouco, na ocasião do aniversário de [sua filha] Sílvia Helena, o tal de ‘brigadeiro’ ficou um tempão no fogo, até conseguir ponto de enrolar. E eu costumo fazer esse docinho de leite, com o leite condensado, mas dentro do feijão. Depois de bem lavadas as latas, elas vão para o caldeirão de feijão. Entram com o feijão cru e saem quando o feijão deve ser temperado. É o tempo certo de ficar o doce de leite numa consistência excelente.”

Ao chamar a receita de “o tal de ‘brigadeiro'” e ao colocar as latas dentro da panela de feijão para que virassem doce de leite, Sangirardi nos conta duas coisas: que o docinho ainda não era tão popular assim, tampouco as panelas de pressão, que ficariam mais conhecidas somente a partir da década seguinte. A data da conversa, 1949, parece confirmar a espalhada teoria que diz ser o brigadeiro invenção de 1945, quando passou a ser vendido para arrecadar fundos para a campanha do Brigadeiro Eduardo Gomes, candidato a presidente da república logo após o fim do Estado Novo.

Mais certo é que, em vez de ter sido criado naquele momento, o docinho apenas ganhou ali nome próprio. A receita, entretanto, já vinha sendo desenvolvida pelo país com o nome de “bombom de doce de leite” ou qualquer outro, resultado de uma moda dos industrializados na cozinha, que vinha crescendo desde os anos 1920 e se consolidaria depois da Segunda Guerra. Em uma análise posterior, a colunista Zenaide Barbosa dizia, inclusive, que o brigadeiro havia sido fruto do racionamento de açúcar no pós-guerra, que tinha impulsionado o consumo de seu substituto, o leite condensado. “Hoje, o brigadeiro está totalmente incorporado ao gosto e à vida das famílias e, principalmente, das crianças”, concluía.

O texto de Zenaide foi publicada no Diário Feminino do Diário de Pernambuco em 23 de janeiro de 1974. Quase vinte anos antes, em 2 de março de 1958, a mesma seção do jornal divulgava pela primeira vez uma receita de brigadeiro mais próxima da que fazemos atualmente, sem a necessidade de previamente cozinhar a lata de leite condensado na panela de feijão. Não é possível determinar quando essa fórmula inicialmente proposta por Helena Sangirardi se transformou, mas já naqueles anos 1950 podia ser feita do jeito explicado abaixo pela própria leitora Nira.

“Nos aniversários de meus sobrinhos faço os docinhos brigadeiros, dos quais dou aqui a receita, e os garotos adoram. Arrumados dentro de forminhas em pratos de vidros ou bandejas, ficam um amor para ornamentação de mesas de aniversários infantis. Para aniversário de menina ponha em forminhas rosas, para meninos, em forminhas azuis ou brancas.”

Brigadeiro de Nira, 1958

  • “1 lata de leite condensado Moça.
  • 1 colher (sopa) de chocolate.
  • 50 gramas de miçanga para bolos.
  • Leve o conteúdo da lata de leite ao fogo, em uma caçarola, misturando o chocolate, e mexendo sempre.
  • Quando aparecer o fundo da panela, retire do fogo e deixe esfriar um pouco.
  • Faça bolinhas, colocando em forminhas próprias, isto é, de papel plissado (que se adquirem nas livrarias) e ponha por cima as miçangas.”

***

Brigadeiro de Helena Sangirardi, 1949

  • “Cozinhe em banho-maria uma lata de leite condensado. Sim, cozinhe antes o leite condensado! Muita gente abre a lata, despeja numa panela e fica mexendo até começar a enxergar o fundo da panela. Nós abreviamos o trabalho levando ao fogo, na panela de feijão, a lata fechada de leite condensado.
  • Depois de hora e meia – em panela comum – ou meia hora, em panela de pressão – retire o leite condensado para uma panela,
  • junte 3 ou 4 colheres (sopa) de chocolate em pó,
  • 1 colher (chá) de manteiga,
  • misture e leve ao fogo, mexendo até enxergar bem o fundo da panela.
  • Retire do fogo, deixe esfriar, faça bolas pequenas, passando-as por chocolate granulado.”

***

* O programa de “higiene alimentar” que se esboçava nos anos 1920 e se consolidaria nas décadas seguintes é esmiuçado pelo historiador Jaime Rodrigues no livro Alimentação, Vida Material e Privacidade: uma história social de trabalhadores em São Paulo nas décadas de 1920 a 1960, lançado pela Alameda em 2011.

 

 

 

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