O verso da comida: o racionamento de guerra que nunca precisou existir

Embora tenha se desenrolado na Europa, a Segunda Guerra reverberou no Brasil de muitas maneiras, inclusive na venda de alimentos. A farinha de trigo foi um dos ingredientes que, entre 1939 e 1945, mais rarearam no mercado. Para suprir a falta dela, muita gente dava um jeitinho que parece ter se tornado unanimidade: desmanchar a massa de macarrão na água para, daquela pasta de farinha que se formava, preparar outras receitas, como pão e pizza.

É isso, ao menos, o que contam os paulistanos Dalva Soares Bolognini (1938-), em depoimento à seção Fatias de Memória, e João Machado de Siqueira (1920-2014), no vídeo acima, registrado pelo Museu da Pessoa. Jango, como era conhecido, transformou um antigo restaurante de frango com polenta, aberto em 1939 em seu bairro-natal, a Freguesia do Ó, na Pizzaria Bruno. Ele levou a mudança de perfil à casa em 1944, nos tempos da guerra, pensando em criar uma alternativa gastronômica em sua região, distante do então polo de restaurantes da cidade, o Centro.

A ideia deu muito certo (o lugar está em atividade ainda hoje), mas não sem obstáculos logo no início. “E também no tempo da guerra, foi outra dificuldade que nós passamos, porque não tinha farinha pra fazer massa. Então, nós, de noite, desmanchávamos o macarrão, a massa de macarrão, para fazer a massa da pizza”, lembrava Jango. Em seu artigo sobre o cotidiano alimentar no Brasil durante a Segunda Guerra, resultado de uma das poucas pesquisas a enfocar esse tema, a historiadora Franciane da Luz incluiu o depoimento de um curitibano, Luiz Groff, que reforça o método usado por Dalva e Jango em São Paulo:

“Minha mãe, às vezes, recebia farinha de Campo do Tenente, da casa de minha prima que tinha um moinho, desses moinhos que ainda tinha um pouco de farinha de trigo… Ou então, minha mãe pegava macarrão, dissolvia o macarrão na água e daquela massa fazia pão.”

Mas por que o macarrão, feito de farinha de trigo e quase sempre importado da Argentina, ainda parecia existir à vontade, e a própria matéria-prima, não? Se ela já era produzida no Brasil, e não mais só importada da área em conflito, por que andava tão em falta? Franciane, ancorada pela obra do historiador Roney Cytrynowicz, Guerra sem Guerra (2000), explica: o setor de alimentos no Brasil nada sofreu com a guerra, e o plano de racionamento alimentar nunca foi de fato necessário; existiu porque era necessário, isso sim, como estratégia política de Getúlio Vargas, que, em meio à ditadura imposta pelo seu Estado Novo, tinha de mobilizar a população a apoiar a entrada do Brasil na guerra ao lado dos Aliados, conforme os acordos feitos com os Estados Unidos.

“Esses jogos internos diziam respeito à estratégia gerida pelo governo de Getúlio Vargas para conscientizar a população da necessidade de o país estar em guerra ao lado dos democráticos, ainda que vivessem um governo ditatorial.

Uma das formas de atingir e convencer a população e, talvez, a mais eficaz delas foi no tocante à alimentação, trazendo a escassez da guerra para a realidade brasileira, exorbitando os preços e dificultando o acesso a gêneros alimentícios básicos como a farinha de trigo e o açúcar.

Dessa forma, os brasileiros tinham seu cotidiano diretamente atingido ‘pela guerra’ e notariam e justificariam a necessidade de o Brasil participar do conflito.”

Para Roney Cytrynowicz, a alimentação foi um fator decisivo na política de “economia de guerra” divulgada pelos jornais e programas de rádio da época, todos controlados pela censura da ditadura. Os preços das matérias-primas subiam, os produtos faltavam, as filas nos mercados cresciam e as propagandas oficiais alardeavam que a supostamente iminente fome poderia ser evitada se as pessoas aderissem a hábitos que as nações europeias estimulavam em suas próprias campanhas de racionamento.

Um desses costumes de emergência que deveriam ser incorporados pela população brasileira tinha a ver com o preparo do “pão de guerra”, receita à base de centeio, que já havia sido utilizada na Europa durante a Primeira Guerra e que no Brasil poderia ser feita com farinha de arroz e mandioca, ou, então, curiosamente, com macarrão triturado. Outro hábito a ser imitado era o do cultivo de vegetais e legumes em algum cantinho do quintal, compondo a campanha que foi chamada de “horta da vitória“, em associação direta ao lema de Churchill para o racionamento de alimentos no Reino Unido: “dig for victory“, algo como “plante para a vitória”.

 

Dig for Victory - Grow Your Own Vegetables
Cartaz da campanha de racionamento na Inglaterra: “plante para a vitória”, “plante seus próprios vegetais” (acervo Imperial War Museum)

Mesmo que o motivo do racionamento no Brasil não tenha sido a falta de alimentos provocada pela guerra, como se tornou pensamento comum, as consequências foram sentidas da mesma forma que nos países diretamente afetados: com fome. A ausência de comida era notória e marcou as lembranças de gente como Dalva e Jango. A fome inventada, naqueles tempos de guerra e ditadura, tornou-se memória amarga. E real.

 

Conheça a outra história desta coleção:

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