Cozinha em tempos de guerra (ou de dieta?)

Se, no Brasil, o programa de racionamento alimentar durante a Segunda Guerra teve mais a ver com politicagem do que com necessidade, na Europa, o problema era mais embaixo – ou mais ao leste, de onde a Alemanha controlava o bloqueio de ingredientes importados na chegada a países inimigos, como a Inglaterra.

Segundo a série da BBC Wartime Farm, em que a historiadora Ruth Goodman e os arqueólogos Alex Langlands e Peter Ginn comandam uma fazenda de acordo com as regras em vigor durante a guerra, o Reino Unido importava naquela época dois terços de todo o seu estoque de ingredientes; estava, portanto, completamente suscetível ao embargo estabelecido pela Alemanha de Hitler.

Para evitar a fome generalizada, várias medidas foram adotadas pelo Ministry of Food, um ministério criado para controlar os problemas relacionados à alimentação. Uma dessas ações obrigou os fazendeiros a dobrar a produção de vegetais para atender o mercado interno. Outra, a campanha “Dig for Victory“, ou “plante para a vitória”, estimulava as pessoas a cultivar seus próprios alimentos em qualquer cantinho de casa ou do quintal.

Entretanto, a medida que ficou mais conhecida foi mesmo a política de racionamento: por meio dela, cada britânico recebia um “ration card“, um cartão com os ingredientes que poderiam ser comprados semanalmente, e suas quantidades exatas. Do começo da guerra, em 1940, esse programa durou além do fim dela, por longos catorze anos. Até 1954, os ingleses tiveram de se acostumar com a despensa pouco abastecida e com as filas intermináveis nos empórios e armazéns.

O vídeo acima, feito por uma produtora norte-americana em 1944 (e hoje parte do acervo do Imperial War Museum, em Londres), mostra ao público dos Estados Unidos a “revolução social” provocada na Inglaterra pela guerra, por meio dos novos hábitos de consumo e de vida a que teve de se acostumar uma família britânica formada pela mãe dona de casa, pelo pai maquinista, pela filha operária e pelo filho em idade escolar. Cada membro revela um problema diferente, e o da mãe, que dá início ao filme, é o da comida.

Nas primeiras cenas, a senhora aparece no empório onde, antes da guerra, costumava “comprar o que bem queria” e onde, agora, é obrigada a adquirir apenas o que é permitido pelo racionamento. A atendente, com o cartão dela em mãos, assinala tudo o que foi para a sacola. Segundo a narradora, “as rações básicas não podem ser compradas em grande quantidade, mas eles [as pessoas] estão certos de adquiri-las toda semana”. A cada sete dias, um adulto tinha o direito de levar para casa:

Manteiga: 50 gramas.
Bacon ou presunto: 100 gramas.
Margarina: 100 gramas.
Lardo (algo como banha de porco): 100 gramas.
Açúcar: 225 gramas.
Carne: mais ou menos 450 gramas.
Leite: de 1,2 a 1,8 litro.
Queijo: de 50 a 225 gramas.
Ovos: 1 unidade.
Chá: 50 gramas.
Geleia: 450 gramas (a cada dois meses).
Ovos desidratados: 12 unidades (a cada quatro semanas).
Doce e chocolate: 350 gramas (a cada quatro semanas).
Latas e itens importados: 16 pontos* (a cada quatro semanas).

Em outra sequência do vídeo, o filho da família, em uniforme escolar, saliva diante de uns docinhos na vitrine de uma loja. Seu amiguinho, então, entra correndo para comprar os doces, enquanto ele, que havia gastado sua cota dias antes, faz cara de inveja. Tenta convencer o colega a trocar as guloseimas por seu canivete. Mas sem sucesso. “Doces valem mais a pena do que canivetes”, explica a narradora.

Para ajudar as donas de casa a se virar com o que tinham, o Ministry of Food distribuía folhetos de receitas e mantinha programas de rádio em que ensinava o preparo de pratos supostamente deliciosos com os ingredientes restritos e os vegetais que deveriam ser cultivados em casa. Além do famoso “pão de guerra”, ou wartime loaf, de farinha integral, havia muito enrolado de salsicha, pudim de cenoura e afins.

Hoje, essas receitas contam a história de um período de restrições e também servem de inspiração a projetos como o da jornalista Karen Burns-Booth, que mantém a seção Vintage Recipes from Old Cookbooks no Readear’s Digest britânico, em que publica receitas extraídas de livros antigos. Em 2012, ela passou uma semana cozinhando e comendo como se estivesse na época de racionamento, para sentir como era “viver na pobreza alimentar” daquele tempo, e contou a experiência em seu blog.

Outra britânica, Carolyn Ekins, resolveu fazer o mesmo, mas por motivos bem mais pessoais. Obesa, e certa de que há muito o que aprender com aquele momento de privações, ela seguiu as regras do racionamento por quatro meses em 2006 para perder peso. Em 2012, repetiu a dose: ficou um ano inteiro à base da dieta da guerra e se livrou de 30 quilos. No blog The 1940’s Experiment, estão todas as 160 receitas tiradas dos antigos folhetos e livros de racionamento, com fotos que mostram que elas realmente entraram em seu dia a dia.

Nos textos, Carol fala da dieta e também da economia de dinheiro que ela tem proporcionado – ao que parece, a blogueira segue com o regime, com o objetivo de chegar a sonhados 80 quilos. Em reportagens na Inglaterra, ela é tida como a criadora da “ration book diet“, a dieta dos livros de racionamento. “Eu realmente acredito que seguir a dieta racionada dos anos 1940 vai melhorar minha saúde, me ajudar a perder peso e, acima de tudo, a ser mais gentil com nosso planeta (procurando ingredientes locais, usando menos importados e menos embalagens, etc.)”, explica, na apresentação do blog.

A mãe de família que protagoniza o filme de 1944 jamais arriscaria que, setenta anos mais tarde, sua rotina de restrições poderia ser repetida de propósito. E tida como ideal…

***

Cenas de racionamento, Inglaterra, anos 1940:

 

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Uma bandeja com o “ration book” de um senhor chamado Norman Franklin e sua ração semanal: açúcar, chá, margarina, manteiga nacional, banha, ovo, bacon e queijo, 1942 (acervo Imperial War Museum © IWM)
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Fila de mulheres na quitanda J Wood, em Wood Green, Londres, 1945 (acervo Imperial War Museum © IWM)
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“Salsicha em fôrma de maçã”, da série de receitas desenvolvidas pelo Ministry of Food, 1943 (acervo Imperial War Museum © IWM)
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Torta de vegetais com queijo e crosta de aveia, da série de receitas desenvolvidas pelo Ministry of Food, 1944 (Acervo Imperial War Museum © IWM)
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Flã/Torta de cenoura, da série de receitas desenvolvidas pelo Ministry of Food, 1943 (acervo Imperial War Museum © IWM)
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Folheto com receitas à base da ração semanal permitida aos britânicos, 1940

 

* Os ingredientes que constavam do cartão eram os que, obrigatoriamente, todos os cidadãos britânicos deveriam adquirir; além deles, por meio de um sistema de pontos, era possível comprar alimentos enlatados, importados ou outros que estivessem disponíveis.

 

 

 

 

 

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