Especial: Dalva e as rãs fritas do Rio Tietê

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Muitos anos depois dessa foto, tirada em 1955 quando ela tinha 17, a paulistana Dalva Soares Bolognini continua encantadora: uma senhora elegante, de olhar interessado, sorriso delicado, jeito educado. Embora tenha nascido na Barra Funda, em 1938, passou a infância e a juventude no bairro da Casa Verde, em São Paulo, e lá permaneceu até se casar, aos 19 anos. Teve dois filhos, descasou, trabalhou em uma grande indústria de embalagens, mudou-se para a Aclimação, fez faculdade de Comunicação e completou o curso de formação da antiga Escola de Folclore e a pós-graduação em Museologia. Interessou-se em estudar alimentação, lançou o livro O Ponto do Doce, manteve um blog em que preparava receitas açucaradas de antigos cadernos escritos à mão

Hoje, aos 78 anos, Dalva continua multitarefas, com suas pesquisas culturais e históricas, mas arranja tempo para compartilhar suas gostosas memórias com quem a conhece. Ao contar uma dessas muitas histórias ao Lembraria, ela se recordou de uma comidinha de madrugada que o pai dela, Zéfiro Bolognini, costumava preparar na época em que moravam na Casa Verde, lá nos anos 1940, em uma rua tranquila, pertinho do ainda limpo e não retificado Rio Tietê. Para a beira do rio, seu Zéfiro se dirigia à noite, quando as rãs ficavam à solta durante o verão. Com uma fisga feita por ele mesmo, “pescava” várias delas e as levava para casa, onde duas meninas – Dalva e sua irmã mais velha, Zilda – o aguardavam com ansiedade e água na boca. “Alta madrugada, e nós estávamos comendo rãzinha. Perninha de rã. Uma delícia!”

“Tenho uma coisa interessante para falar sobre comida. Meu pai caçava rã. O Rio Tietê não era retificado. O rio formava seu curso original, ele era todo cheio de curvas. Nessa época de verão, de alto verão, aquilo tudo transbordava e formava algumas ilhas (tinha criador de cabras que ia pastar as cabras nas ilhazinhas formadas pela enchente do rio).

Nessa época, meu pai… Às vezes, ele saía sozinho, mas geralmente ele ia com os vizinhos também, interessados e tal. A rã tem que ser caçada à noite. Iam com as lanternas de carbureto porque aquilo paralisa o animal, a luz paralisa o animal, e pegava. Especialmente minha irmã mais velha e eu – a outra não porque era pequena, não prestava atenção nessas coisas, né? Mas nós ficávamos acordadas até meu pai voltar com a fieira lotada de rãs porque nós precisávamos comer uma rã antes de dormir. E ele preparava a rãzinha antes de nós dormirmos.

Ele tinha uma habilidade grande pra tirar a pele da rã. Como ele vivia de macacão – ele era mecânico, vivia de macacão -, dizia assim: ‘Agora, você espera um pouquinho que eu vou tirar o macacão da rã’. Então, o que que ele fazia? Ele segurava a rã pela cabeça, aí com uma tesoura ele cortava as mãozinhas, as patinhas dela. Já estava na fisga, já estava morta. Mas a carne da rã treme, ela continua tremendo depois que o animal está morto. Então, ele tirava a pele, ele despia a rã. Despia, ela ficava peladinha.

Aí ele lavava, passava – não sei se era – sal, o que é que ele punha ali, e ia direto pra uma frigideira. Na hora em que tirava a pele, já saíam tudo [vísceras]. E ele lavava tudo, tudo isso ele lavava. Alta madrugada, e nós estávamos comendo rãzinha. Perninha de rã. Uma delícia! Maravilhoso. Então, você vê… Que infância foi essa?”

***

Este depoimento deu origem a um verbete em O dicionário das comidas impossíveis, que surge das respostas ao questionário Fatias de memória.

Clique aqui para contar sua história e nos ajudar a preencher esse relicário.

3 comentários Adicione o seu

  1. Vivi, muito obrigada pela inserção desta lembrança. Estou sempre disponível a colaborar com trabalhos da qualidade do Lembraria. Beijos.

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  2. alinestiva disse:

    Que linda memória… de encher a boca de água e os olhos de saudade!
    beijos

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