O “prazer saudoso” da consoada de Natal

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Em 25 de dezembro de 1941, um colunista do Correio Paulistano recorria a um anúncio de “restaurante” de cem anos antes, publicado no carioca Jornal do Commercio, para falar do Natal. O mencionado estabelecimento de nome curioso, Prazer Saudoso, instalado no Largo do Rocio (atual Praça Tiradentes), havia divulgado que da “noite de 24 do corrente até as 10 horas do dia 25, há o bom e bem preparado sarrabulho e as excelentes dobradinhas”. A publicidade de 23 de dezembro de 1841 tinha elencado também, entre as comidas natalinas, petiscos de peixe e carne, licores, refrescos e doces, além de reforçado a presença de “cômodos para famílias, sendo tudo a preços cômodos”.

No texto de 25 de dezembro de 1941, cem anos depois, o colunista J. C. dizia que, naquela época distante, a saudade prevista no nome da casa poderia ser dividida em três terços: dois de prazer, um de amargura. Em seu tempo, no entanto, essa divisão parecia menos favorável.

“Seus fregueses de um século atrás eram bem mais felizes do que nós – que, ao entrarmos num restaurante para fazer a consoada do Natal, encontramos hoje duas vezes a amargura e uma só vez o prazer: o prazer dos bons pitéus, mas a dupla amargura da conta – dupla quando o patrão é consciencioso, porque o mais certo é que a conta nos venha aumentada cinco ou seis vezes do preço comum porque é Natal, e no entusiasmo em esfolar o cabrito e o leitão, esfola também o freguês.

Mas está certo. Temos que pagar caro o progresso…

***

Hoje, dezembro de 2016, quase duzentos anos depois daquele anúncio do Jornal do Commercio, recorro ao texto de J. C. para falar de Natal. Não dos preços da ceia em restaurantes – hoje bem mais amargos, certamente… -, mas do tempo em que o “prazer” de comer, segundo o colunista, vencia a “amargura” nas ceias natalinas.

Na época em que o Prazer Saudoso mantinha as portas abertas, a véspera de 25 de dezembro costumava ser de jejum entre os católicos, como sinal de respeito ao aniversário de Jesus. Para o jantar dessa noite, servia-se, então, uma refeição frugal, sem carne – a chamada “consoada“. Só depois da meia-noite e da Missa do Galo na igreja da praça é que todos, já libertos do jejum, podiam atacar uma ceia mais robusta, com receitas à moda portuguesa como o sarrabulho (miúdos de porco cozidos em sangue) e as rabanadas. Não por acaso, o ato de se colocar esse jantar mais substancioso à mesa foi, por muito tempo, apelidado de “fazer a meia-noite“.

Em São Paulo, uma cidade ainda com cara de vila em meados do século 19, muito menor do que a capital do país, Rio de Janeiro, não havia Prazer Saudoso, mas alguns “restaurantes” (ou o que podia se aproximar disso) já começavam a se formar nos salões de refeições dos nascentes e muito rústicos “hotéis”. Geralmente comandados por franceses, italianos e alemães que chegaram a São Paulo antes da imigração em massa de 1870, esses locais tentavam atrair não só viajantes, mas também os conservadores paulistanos daquela época, ainda não afeitos a um hábito que, no futuro, lhes pareceria até inerente: comer fora de casa.

Em épocas festivas, como o Natal, alguns desses estabelecimentos aproveitavam para publicar no Correio Paulistano seus préstimos culinários. Em dezembro de 1862, um dos locais sem nome da Rua das Casinhas – atual Rua do Tesouro, então dedicada ao comércio de quitandas, verduras e frutas – anunciava um “belo sarrabulho e mais petiscos para a rapaziada”. A receita de origem portuguesa seria preparada também, e por dois anos seguidos, no hotel de Hilário Pereira Magro, na Rua do Carmo. Na foto abaixo, de 23 de dezembro de 1863: “[…] depois da Missa do Galo terá sarrabulho à portuguesa, empadas de todas as qualidades, pudins e rabanadas, e bem assim peixe de escabeche e bacalhau à portuguesa”.

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Sarrabulho no Hotel do Hilario e passarinho de prata para presente de Natal na loja da Rua do Rosário, atual Quinze de Novembro (foto: Correio Paulistano, 23 de dezembro de 1863)

O prato parecia mesmo ser protagonista das refeições natalinas, e não só no Prazer Saudoso. Talvez fosse, além de tudo, uma boa maneira de aproveitar as vísceras da leitoa que, no almoço do dia 25, iria assada para a mesa. O sarrabulho chega a ser mencionado como um dos símbolos do período do Natal, em um texto de 29 de dezembro de 1854 do Correio Paulistano sobre as imagens evocadas pelo fim do ano.

“Há quem pense também na Missa do Galo, santa instituição, que tanto abençoa os apaixonados do sarrabulho! E tudo isto, sarrabulho, folia, festas e comezainas, provam a devoção com que se soleniza o Natal.”

Conforme o século 19 foi dando lugar ao 20, as rabanadas e sobretudo a fartura de comidas mantiveram o reinado nas ceias de Natal, enquanto outros pratos assumiam o papel do aportuguesado sarrabulho. Do estrangeiro, também iam chegando novos costumes e personagens, como o “Papá Noel”, que o escritor carioca João do Rio mencionava ao escrever uma crítica sobre a “fúria do estrangeirismo”, publicada em 13 de novembro de 1907 no Correio Paulistano.

“Não há menina inteligente que não recite hoje os versos de [François] Coppée nos salões. Ninguém se lembraria de recitar Gonçalves Dias, por exemplo. Outrora nós tínhamos um certo número de festas nossas. Hoje, em vez do reisado e do bumba, meu boi, as senhoras ensinam aos filhos que papá noel vai pôr na chaminé os brinquedos e fazem a árvore do Natal. Em tudo, a macaquice é clamorosa. Até os pratos nacionais desaparecem como indignos.”

Eis, então, que, além do Papai Noel, foi chegando para a ceia o peru recheado, que mais tarde seria conhecido apenas como peru de Natal. É verdade que as aves recheadas já frequentavam a mesa brasileira, provavelmente por causa da influência portuguesa, ao longo do século 19, e não apenas em dezembro. Um estabelecimento em São Paulo, por exemplo, a Casa das Cigarras, situada na Rua Direita, vendia famosos entrecosto (costela de porco) e peru recheado nos idos dos anos 1850, segundo Alfredo Pujol, em Memórias de Antonio Ipiranga, texto escrito para o Diário Nacional de 22 de maio de 1930.

A questão é que, como prato de destaque na ceia de Natal, o peru só se consolidou de fato mais ou menos depois da Primeira Guerra, na onda de influências norte-americanas que chegariam com cada vez mais força. A potente receita servida no Thanksgiving dos Estados Unidos passaria a ser também indispensável ao Natal brasileiro. Com recheio diferente, de castanhas portuguesas, se tornaria a transmissora de doces presságios para o fim do ano e o começo do seguinte.

Antes de Sadias e Searas da vida, o peru requeria paciência e coragem para ser preparado. Da maneira de matá-lo (e de embebedá-lo antes da morte), dependiam a maciez da carne e o sucesso da receita que Mário de Andrade transformaria em conto no início dos anos 1940. Foi mais ou menos nessa época, aliás, que a onda americana trouxe outro item que se tornaria símbolo da ceia Natal: o “tender made ham“, presunto carinhosamente industrializado, que mais tarde seria chamado apenas de “tender”.

Vendido pela filial brasileira do frigorífico americano Wilson a partir do fim da década de 1930, o presunto “tender made” parecia não almejar, a princípio, apenas a ceia de Natal. As primeiras propagandas* o tratavam como ingrediente que, de tão macio, podia ser cortado com o garfo – nem de faca precisava – e que, quente ou frio, podia ser usado como prato principal de ocasiões festivas, como recheio de sanduíches para o Carnaval e até, por que não, como receita especial para o Natal. Foi nas ceias de dezembro, entretanto, que ele encontrou definitivamente seu lugar. (É interessante notar que na ilustração do anúncio “Quente ou frio é sempre delicioso!”, acima, ele aparece da maneira como nos acostumamos a vê-lo, ainda hoje: marcado por um xadrez riscado à faca na pele, rodeado por adocicadas fatias de abacaxi.)

Desde o sarrabulho do Prazer Saudoso, a ceia de Natal mudou bastante de influência – passou da portuguesa para a do supermercado. Hoje, há também chester, panetone e afins para completá-la. A fartura e as rabanadas persistem, assim como o prazer (bem maior do que amargura) de participar de um ritual que, por algum motivo, é um dos que ainda não nos cansamos de repetir, todo 24 de dezembro.

 

* Os anúncios do “Tender Made Wilson”, reproduzidos acima, foram publicados no Correio Paulistano em 18 de dezembro de 1940, 24 de janeiro de 1940 e 10 de dezembro de 1939, respectivamente. 

 

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