O peru de Natal e a “felicidade gustativa” de Mário de Andrade

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Publicação do conto no Jornal da Tarde, em 25 de dezembro de 1949, quatro anos depois da morte de Mário de Andrade

No conto O Peru de Natal, publicado por Mário de Andrade (1893-1945) na revista da Academia Paulista de Letras em 1942 e, posteriormente, na obra póstuma Contos Novos, de 1947, o protagonista Juca está cansado de cultivar o luto pelo pai, morto meses antes. Está cansado, na verdade, das regras antes impostas pela figura patriarcal e agora pelas convenções religiosas. Um cansaço que se concretiza nas ceias natalinas que ele havia desde sempre desfrutado, preparadas de acordo com a “natureza cinzenta” do pai. “Meu pai fora de um bom errado, quase dramático, o puro-sangue dos desmancha-prazeres.”

“Era costume sempre, na família, a ceia de Natal. Ceia reles, já se imagina: ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa do Galo. Empanturrados de amêndoas e nozes (quanto discutimos os três manos por causa dos quebra-nozes…), empanturrados de castanhas e monotonias, a gente se abraçava e ia pra cama.”

Considerado algo como a ovelha-negra da família, sempre inventando moda e avesso às regras, Juca decidiu assim finalizar o luto e o pesar pelo pai morto:

“— Bom, no Natal, quero comer peru.

Houve um desses espantos que ninguém não imagina. Logo minha tia solteirona e santa, que morava conosco, advertiu que não podíamos convidar ninguém por causa do luto.

— Mas quem falou de convidar ninguém! essa mania… Quando é que a gente já comeu peru em nossa vida! Peru aqui em casa é prato de festa, vem toda essa parentada do diabo…

— Meu filho, não fale assim…

— Pois falo, pronto!

E descarreguei minha gelada indiferença pela nossa parentagem infinita, diz-que vinda de bandeirantes, que bem me importa! Era mesmo o momento pra desenvolver minha teoria de doido, coitado, não perdi a ocasião. Me deu de supetão uma ternura imensa por mamãe e titia, minhas duas mães, três com minha irmã, as três mães que sempre me divinizaram a vida. Era sempre aquilo: vinha aniversário de alguém e só então faziam peru naquela casa. Peru era prato de festa: uma imundície de parentes já preparados pela tradição, invadiam a casa por causa do peru, das empadinhas e dos doces. […]

Não, não se convidava ninguém, era um peru pra nós, cinco pessoas. E havia de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos, e a seca, douradinha, com bastante manteiga. Queria o papo recheado só com a farofa gorda, em que havíamos de ajuntar ameixa-preta, nozes e um cálice de xerez, como aprendera na casa da Rose, muito minha companheira. Está claro que omiti onde aprendera a receita, mas todos desconfiaram. E ficaram logo naquele ar de incenso assoprado, se não seria tentação do Dianho aproveitar receita tão gostosa. E cerveja bem gelada, eu garantia quase gritando. É certo que com meus “gostos”, já bastante afinados fora do lar, pensei primeiro num vinho bom, completamente francês. Mas a ternura por mamãe venceu o doido, mamãe adorava cerveja.”

Juca queria um peru de Natal para cinco pessoas, com duas farofas, uma gorda de miúdos, outra seca, com bastante manteiga. A receita de Rose, sua namorada, como se revela depois, levava ainda os adocicados típicos dessa época e trazidos da Europa: nozes, vinho jerez. O melhor acompanhamento para uma receita tão elegante seria, naturalmente, “um vinho bom, completamente francês”. Mas ele teve de ceder à cerveja, bebida popular apreciada pela mãe, o que não seria nenhuma heresia. O ritual, afinal, seria de desamarração geral: do luto e da figura do pai cinzento.

E foi feito o peru do “mais maravilhoso Natal” da família de Juca. E foi cortado em fatias fartas, como nunca havia acontecido antes. Em vez de a mãe cumprir a então somente-feminina tarefa de servir as pessoas, foi o filho feliz que se encarregou dos serviços e de deixar a parte mais nobre do peito da ave para ela – que, de surpresa e satisfação, chorou. E o choro remeteu ao pai morto, que voltava a se fazer vivo e a disputar espaço com o peru.

“Principiou uma luta baixa entre o peru e o vulto de papai. Imaginei que gabar o peru era fortalecê-lo na luta, e, está claro, eu tomara decididamente o partido do peru. Mas os defuntos têm meios visguentos, muito hipócritas de vencer: nem bem gabei o peru que a imagem de papai cresceu vitoriosa, insuportavelmente obstruidora.

— Só falta seu pai…

Eu nem comia, nem podia mais gostar daquele peru perfeito, tanto que me interessava aquela luta entre os dois mortos. Cheguei a odiar papai. E nem sei que inspiração genial, de repente me tornou hipócrita e político. Naquele instante que hoje me parece decisivo da nossa família, tomei aparentemente o partido de meu pai. Fingi, triste:

— É mesmo… Mas papai, que queria tanto bem a gente, que morreu de tanto trabalhar pra nós, papai lá no céu há de estar contente… (hesitei, mas resolvi não mencionar mais o peru) contente de ver nós todos reunidos em família.

E todos principiaram muito calmos, falando de papai. A imagem dele foi diminuindo, diminuindo e virou uma estrelinha brilhante do céu. Agora todos comiam o peru com sensualidade, porque papai fora muito bom, sempre se sacrificara tanto por nós, fora um santo que “vocês, meus filhos, nunca poderão pagar o que devem a seu pai”, um santo. Papai virara santo, uma contemplação agradável, uma inestorvável estrelinha do céu. Não prejudicava mais ninguém, puro objeto de contemplação suave. O único morto ali era o peru, dominador, completamente vitorioso.”

E o peru/pai foi consumido ali: havia um prazer que não se podia esconder de ver o primeiro sumir do prato e o segundo sair de casa direto para seu devido lugar, o céu distante. A vivacidade de Juca venceu o ultrapassado defunto, mas, ironicamente, toda a história do peru só serviu para que a posição antes ocupada pelo pai não sumisse, mas trocasse de dono: agora era ele, o filho mais velho, o “patriarca” da família, quem daria as ordens, ainda que elas fossem, para ele, mais livres e prazerosas.

“Minha mãe, minha tia, nós, todos alagados de felicidade. Ia escrever ‘felicidade gustativa’, mas não era só isso não. Era uma felicidade maiúscula, um amor de todos, um esquecimento de outros parentescos distraidores do grande amor familiar. E foi, sei que foi aquele primeiro peru comido no recesso da família, o início de um amor novo, reacomodado, mais completo, mais rico e inventivo, mais complacente e cuidadoso de si. Nasceu de então uma felicidade familiar pra nós que, não sou exclusivista, alguns a terão assim grande, porém mais intensa que a nossa me é impossível conceber.”

O conto de Juca talvez tenha sido apenas um conto, talvez tenha sido uma peça da autobiografia que Mário de Andrade foi escrevendo por meio de seus personagens.  De qualquer maneira, o protagonista e o cenário descrito em O Peru de Natal têm mais semelhanças do que discrepâncias em relação à vida e ao ambiente em que seu criador estava inserido. Assim como Juca, Mário perdeu ainda na juventude o pai – o primeiro, aos 19 anos, o segundo, aos 24. Tinha também “três mães” – que, na vida do escritor, eram sua mãe Mariquinha (Maria Luísa Almeida Leite Moraes Andrade), sua irmã Maria de Lourdes e sua tia Nhanhã (Ana Francisca de Almeida Leite Moraes).

A filósofa e crítica literária Gilda de Mello e Souza (1919-2005), prima de Mário, conviveu com ele e suas três mães na famosa casa da Rua Lopes Chaves, na Barra Funda, em São Paulo. Em depoimento concedido no Centro Cultural São Paulo, em 1992, Gilda conta que, durante a velhice de dona Mariquita, “ele passou a servir a mesa”, tal qual Juca o fez naquela noite. Para a prima, aliás, o conto em questão seria um eco da cozinha da família. “O Peru de Natal, de uma certa maneira, devolve ao leitor o que era uma festa ou um jantar elaborado na casa de Mário”, lembra ela.

As receitas açucaradas eram especialidades da mãe do escritor, que era tida, inclusive, como uma grande doceira da cidade. Seus afamados bom-bocados de queijo mais os bolos e biscoitos como os amanteigados – os prediletos de Mário, “uma maravilha de apresentação, uma delícia sem fim” – começavam a ser preparados nas vésperas dos dias festivos. Na manhã antes do evento, a trabalheira continuava “porque aí vinham as coxinhas, as empadinhas e o peru, que tinha de ter as duas farofas, exatamente como descrito n’O Peru de Natal“, recorda-se Gilda.

O peru recheado não era, assim, restrito ao Natal. Estava mais para uma daquelas receitas especiais que cabem em qualquer ocasião especial do ano. Ao contar a história de Juca e do pai/peru, Mário de Andrade inseriu dados interessantes sobre o cotidiano que ele próprio vivenciava, em casa, gostando ou não da parentada que, segundo a prima, aparecia mesmo nos aniversários para se fartar dos quitutes. Esqueceu-se, no entanto, de passar a receita que lhe trouxe mais do que “felicidade gustativa”. O Lembraria foi procurar em dois livros de culinária, um dos anos 1930, outro dos 1940, os segredos do peru recheado. E descobriu que estes eram, na verdade, um só: embebedar o bicho!

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