O judaísmo que nascia pela boca

Em outro texto do Lembraria, apresentamos os mestres griôs, senhores e senhoras que guardam para si a respeitosa função de guardar e transmitir saberes dos mais diversos, aprendidos oralmente com pais, mães, avós. A paulistana Deborah Hornblas Travassos, nascida em 1961, parece ter se inspirado nessa história para contar a de sua mãe, que, “como toda matriarca judia era uma griô”. Ela preparava receitas tão reconfortantes quanto abraços e, sem querer, as propagava entre seus familiares – e as cravava na memória da menina. Era por meio (e por causa) das muitas especialidades culinárias da mãe que Deborah sentia o conforto de ser filha, de pertencer a um grupo, um lugar, uma tradição, de ser judia.

 

“Hoje aprendi um novo termo: griô, indivíduo que, numa comunidade (por exemplo, de âmbito religioso ou folclórico), detém a memória do grupo e funciona como difusor de tradições. Fiquei então matutando sobre esse encantador significado e refleti sobre a minha história pessoal.

Minha mãe, como toda matriarca judia era uma griô. O judaísmo em minha casa nascia pela boca, nossa memória afetiva vinha das comidas iídiche que têm origem na Europa Oriental. Eram os alimentos que não só nutriam o corpo, mas nos embalavam em abraços cálidos.

Lembro-me bem das sopas de kneidale (bolinhas de matzá em caldo gordo de galinha), ou de kreplach (espécie de ravióli de carne), o gefilte fish (apenas para os iniciados, trata-se de um bolinho frio de peixe adocicado servido com chrein, raiz-forte com beterraba com uma indefectível fatia de cenoura pousada por cima do peixe), o arenque marinado com muita cebola e zimbro (o preferido do meu pai), os varenikes de batata com a cebola caramelizada por cima (o meu predileto), além das tortas de ricota e de maçã que saíam do forno com um perfume inebriante.

Na saída da escola, no bairro do Bom Retiro, minha mãe nos comprava um durinho, mas delicioso beigale, uma rosquinha trançada salgada e salpicada com gergelim.

As memórias do estômago são por vezes tão presentes que são quase sólidas. Sinto os cheiros, os sabores como se estivesse provando agora alguma dessas delícias. Sinto saudade da época em que parecia natural tomar sopa quando o calor lá fora passava de 40 ºC, saudade de sentir os odores da casa em dias de festa, quando, quase que em gala, minha mãe nos nutria do conforto de nos sentirmos parte de algo. Não era a religião; era a comida, era ser filha de uma mãe judia, era o sentimento de pertencimento. Será que um dia serei uma griô? Espero sinceramente que sim!”

 

***

Este depoimento deu origem a um verbete em O dicionário das comidas impossíveis, que surge das respostas ao questionário Fatias de memória.

Clique aqui para contar sua história e nos ajudar a preencher esse relicário.

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