Cozinha imigrante: arroz escuro com feijão-branco

dona-rosa_3_opole
Opole, cidade onde Rosa cresceu, na Polônia (foto: acervo pessoal/Museu da Pessoa)

A foto acima mostra a cidade de Opole, na Polônia, onde Rosa Fajersztajn passou a infância e a adolescência até “quando mandaram exterminar os judeus”. Nascida em 1919 no distrito de Kazimierz, na Cracóvia, Rosa cresceu em uma família judia e, desde pequena, sentia que havia diferenças com relação aos moradores católicos. Uma delas se manifestava na cozinha. Ela não podia comer, por exemplo, as carnes disponíveis nos matadouros da cidade: só era possível consumir aquelas de animais abatidos pela família, de acordo com as regras kosher. “A gente não comia os veados e as coisas que todo mundo comia”, contou ela, em 2001, ao Museu da Pessoa, em um depoimento que mais parece um roteiro de filme.

Rosa viveu todo o terror do Holocausto, durante a Segunda Guerra. Junto dos pais e irmãos, foi confinada no Gueto de Varsóvia em 1940, depois de a Polônia ter sido ocupada pelos alemães. Dali, há dias sem tomar banho ou comer, ela resolveu dar um jeito de escapar para buscar alimentos para a família, já debilitada. Conseguiu fugir e encher uma sacola de comida, que ela teve de carregar com força: ficou mais pesada do que ela. Ao voltar para o gueto, no entanto, a casa havia sido demolida, os pais já não estavam lá; Rosa nunca mais os veria. “Gueto era uma coisa que quem vai ler nem vai acreditar. Simplesmente é inacreditável. Não tinha pudor, não tinha vergonha, tudo eram ossos.”

Depois da tragédia, a então moça de 20 e poucos anos ainda conseguiu fugir e atuar como mensageira da guerrilha comunista polonesa, até ter seu esconderijo descoberto e ser mandada para o campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. E ela sobreviveu. E, um ano após o fim da guerra, partiu em busca de uma vida nova no Brasil, com a ajuda de parentes que já moravam em São Paulo, no Bom Retiro. Desembarcou em 1946 e logo conheceu o marido, também judeu e polonês, Jacob. “Cheguei em outubro, 1946, e casamos dia 5 de janeiro de 1947. A gente já queria ter lugar seu”, contou.

dona-rosa_1
Rosa e Jacob em passeio em Serra Negra, interior de São Paulo, 1947 (foto: acervo pessoal/Museu da Pessoa)

Em sua casa, ao lado da família que se formava, as lembranças da Polônia e os costumes judeus iam ficando apagados conforme os dois filhos cresciam. Na cozinha, acontecia o mesmo: as receitas tradicionais – “minha comida” – iam sendo empurradas do cotidiano para se cristalizarem como receitas de ocasiões especiais, Ano Novo, Páscoa.

“Os filhos comem arroz e feijão, e eu também gosto. Acostumei com a comida aqui, mas nas festas faço a minha comida. No Ano Novo, na Páscoa. Na Páscoa, comida judaica e no Ano Novo também comida judaica. Não Ano Novo de Natal, Ano Novo judaico. Normalmente, no dia a dia, comida brasileira.

Eu mesma estranhava feijão porque lá eu comia feijão-branco com arroz escuro e aqui se come arroz branco com feijão-preto e marrom. Eu estranhava isso. Onde se viu tão escuro põe no branco? Lá se comiam muito batata e repolho, aqui não tanto. Aí já passei por batata e repolho bem menos. Os filhos queriam a comida daqui. O que importa é que os filhos querem. E as tradições judaicas, como eu não sou religiosa, não seguia muito. Quando a gente fica mais velha começa a lembrar mais. Eu, ultimamente, agora, quando tem um canto eu vou lá na sinagoga da Hebraica ouvir o Cláudio cantar. É formidável. Isso eu gosto.”

Rosa morreu em 2013, perto dos 100 anos de idade. Antes disso, pensava no futuro com um desejo bastante peculiar: não perder a memória.

“Que sonhos pode ter uma mulher de 82 anos? Eu tenho sonhos para não perder memória. O maior sonho meu… Eu tenho muito mais medo da memória. Para não se tornar boba perto dos meus amigos, dos filhos e netos. Para não ser dependente de ninguém e para poder se manter, para morrer inteira, sem ajuda de alguém, sem piedade de alguém, para a minha integridade. O maior sonho meu é esse. Nem riqueza, nem nada, só isso é o meu maior sonho.”

Conheça a primeira história desta coleção:

***

Outras coleções do Lembraria para o Museu da Pessoa:

2 comentários Adicione o seu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s