Cozinha imigrante: a bureka búlgara

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Lina e as burekas (foto: Museu da Pessoa)

Natural da Bulgária, Lina Levi não conhecia o iugoslavo Avraham Ben Avran, mas suas histórias, sem querer, seguiram caminhos um tanto paralelos. De família judaica, ambos deixaram o Leste Europeu para viver em Israel, logo após a Segunda Guerra. Mais tarde, decidiram se mudar para o Brasil e vieram morar em São Paulo, no bairro do Bom Retiro, então reduto quase exclusivo de imigrantes judeus. Ali, na década de 1970, abriram lojas praticamente vizinhas, que, embora não tivessem nenhuma relação comercial entre si, compartilhavam de certo modo a mesma especialidade.

Avraham fundou a Doceria Burikita e Lina, a Casa Búlgara, ambas ainda em atividade. A primeira foca a burikita e a segunda, a bureka. Quitutes de massa folhada recheada, um e outro eram triviais em seus países de origem e diferenciavam-se apenas pelo formato (e por algum outro segredo escondido em seus tradicionais modos de preparo): a iugoslava se fecha como uma trouxinha e a búlgara, como uma rosca. Ambas as variações, entretanto, se assemelham um pouco no sabor e muito na razão de ser. São, enfim, as memórias eleitas por Avraham e Lina para não só lembrá-los de suas terras-natais, como também para firmá-los em sua nova terra.

Enquanto a bureka assumia uma posição especial na vida de Lina, como símbolo de sua história e de onde veio, outras receitas que ela trouxe da Bulgária na memória andavam se distanciando de sua cozinha. Os costumes brasileiros, a influência estrangeira, os enlatados e industrializados que não paravam de chegar aos supermercados, os legumes e as frutas diferentes na feira foram empurrando as receitas tradicionais, que ela aprendera com a família, para longe do cotidiano. Assim como na história de Rosa Fajersztajn, o “arroz e feijão” representava essa mudança.

“Aqui a comida é ótima! Quem fala que não é bom? Os meus filhos adoram arroz e feijão! Desde que chegaram aqui, eles gostam disso. E qualquer lugar que vão, eles gostam de comer feijão e arroz, bife, pronto! Estão satisfeitos. Eles quase não comem as comidas que eu fazia antigamente. Agora a filha ainda gosta, o marido dela, porque são um pouquinho mais antigos. Ele se lembra da mãe dele, ela também, da mãe dela, então, tudo bem.”

Lina Levi contou suas histórias em 2012 ao programa Memórias do Comércio, do Museu da Pessoa. Assista, aqui, ao vídeo em que ela fala das mudanças do bairro do Bom Retiro, em São Paulo.

Conheça outras histórias desta coleção:

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Outras coleções do Lembraria para o Museu da Pessoa:

 

 

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