O chá de hortelã com bolacha de água e sal

Lívia Mendes Moraes nasceu em 1990, em Santa Rita do Passa Quatro, no interior de São Paulo. Cresceu e vive até hoje no bairro de Aterrado, na também paulista cidade de Mogi Mirim. Lívia conta que anda por aí com a alma carimbada pela diversão na casa de seus avós, chácara em que a cozinha aumenta na proporção de sua importância. Maior por dentro, desafia a física, a lógica e as medidas das plantas de arquitetura, agigantando-se para cima dos outros cômodos afetivos, “por um privilégio divino”.

Parece um tanto clichê, mas a infância permite sensações que jamais são esquecidas. Em meio a experiências e sorrisos doces, a casa dos avós deixa carimbo de diversão em nossas almas. Foi logo ali, a cerca de 15 quilômetros de nosso lar, que vivemos, eu e meu irmão, nos fins de semana, pendurados em galhos das mangueiras que nos presenteavam com deliciosos frutos de sabor inconfundível (acredite: não eram insossos como os do mercado).

Mas a lembrança tão mais significativa vem dos arredores do cômodo mais visitado em casa de vó, a cozinha. De tão frequentado, se pudéssemos fazer a planta do corpo da casa considerando maiores os ambientes mais usados diariamente, poderíamos aumentá-la em umas dez vezes.

Os domingos na chácara eram sinônimos de alegria com cobertura doce. O chá de hortelã, bem verdinho, aromatizava toda a cozinha e se espalhava pelos quartos e sala (certamente os vizinhos invejavam!). A xícara transparente denunciava a arte: o açúcar cristal em excesso depositado em seu fundo que jamais conseguiria ser diluído naquela porção de parte líquida. Mas a infância só seria completa se o seu par viesse no mesmo nível. A bolacha quadrada, conhecida pelos adultos como a ‘água e sal’, praticamente mergulhada na margarina. Sim, margarina com bolacha seria a possível definição. Gordura localizada, nem se passava pela cabeça de uma criança extremamente contente e que se autodenominava esperta.

Por um privilégio divino, meus avós ainda vivem e moram na mesma chácara onde os conhecemos e passamos dias bons de criança. Ainda hoje recordamos com eles velhos tempos de cheiro e gosto de infância.”

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Este depoimento deu origem a um verbete em O dicionário das comidas impossíveis, que surge das respostas ao questionário Fatias de memória.

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