Uma viagem de ônibus para a Revolução de 32 (com parada na cozinha)

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A carta de Osório para a saudosa namorada, Chiquita, 23 de maio de 1932

Não era meia-noite, nem Paris. Eram umas 5 da tarde em São Paulo, outubro de 2016, quando um ônibus me levou para 23 de maio de 1932, no exato dia em que os estudantes Mário, Miragaia, Dráusio e Camargo seriam mortos durante uma manifestação contra o governo de Getúlio Vargas – o que impulsionaria a Revolução Constitucionalista. “O comércio fechou completamente as portas, sem excetuar os cafés e os restaurantes. […] Receei ficar sem condução para casa, em vista do crescente movimento de protesto que se acentuava para todos os lados, intensificando-se a cada momento a multidão que procurava o centro da cidade”, contava Osório Pimentel, então aos 49 anos, ainda sem saber da morte daqueles que dariam nome ao levante: M.M.D.C.

Naquela ocasião, Osório também não sabia que se tornaria avô da simpática Renata Oliva, que numa tarde de outubro de 2016 eu conheceria por acaso, em uma viagem de ônibus. A história da revolução, ele havia contado em uma carta* escrita no calor do 23 de maio para a avó dela, Francisca Barros Pimentel. Depois da despretensiosa conversa no ônibus, Renata me enviaria por e-mail as amareladas folhas agora digitalizadas, para que eu mesma lesse aquilo que ela havia me contado no trajeto. Um encontro inesperado em São Paulo me levaria àquele dia de revolta e também ao cotidiano de um casal que viveu o início do século 20.

Naquele histórico 23 de maio, Osório estava na capital, e a mulher, mais conhecida como Chiquita, passava uma temporada em Santos, cuidando da filha Maria, a “purunguinha”, futura mãe de Renata, que andava sofrendo de misteriosas “bolhinhas”. A preciosa carta endereçada à “saudosa namorada” tinha as oito primeiras páginas – de doze, ao todo – dedicadas a uma caprichada descrição do que ele havia acompanhado nas ruas da “cidade”, como era chamado o centro, depois de deixar seu escritório de farmacêutico pela manhã.

“Assim sendo, escrevi rapidamente a você, com tempo ainda de apanhar o portador para o correio, pois, diante da expectativa alarmante em que estavam todos, receei não poder mais tarde fazer seguir a carta. Em seguida, saí à procura do bonde, que justamente passava em frente ao escritório. Vi logo que eu tinha razão em não contar muito com esse meio de condução. Logo ao chegar no Largo de São Bento, o bonde teve o trajeto interrompido, pois a aglomeração na Praça do Patriarca impedia a passagem.

[…]

Pelos recortes que junto a esta, você verá que as manifestações de agora são já bem mais eloquentes e violentas, esperando-se mesmo que desta vez as coisas se resolvam de um modo mais positivo. Não tendo eu visto jornais antes das 11 horas (quando saí do escritório) e não os tendo podido ler senão depois de aboletado no “camarão” [o antigo bonde fechado e vermelho], também não sabia que havia preparado para as 2 horas um grande comício popular de protesto.

E então, lendo o convite trazido nos jornais, fiquei até impressionado com os termos decisivos com que a ‘comissão’ convocava os Paulistas para reagir até pelas armas, se fosse necessário!”

Apesar de ter se impressionado com a convocação dos estudantes, que conclamavam pela luta armada, Osório, já pai de família, preferiu seguir para casa, na então distante e sossegada Vila Mariana. Depois de um jantar apressado, no entanto, aflito por saber o que acontecia em um tempo em que as notícias demoravam a chegar, ele vestiu novamente o traje “de sair” – com o indefectível chapéu – e rumou de volta para a “cidade”.

“Da Praça da Sé, desci pela 15, fazendo a volta pelo Triângulo. A cada momento passavam nas ruas, em todas as direções, grupos de manifestantes empunhando a bandeira de São Paulo, cantando o Hino Nacional e obrigando todo o mundo a tirar o chapéu.”

Sem se aprofundar no que aconteceu em seguida, Osório achou melhor concluir ali esse capítulo da carta que mandaria à mulher. “Chega de política!”, escreveu. E passou, na página seguinte, a demonstrar sua outra preocupação: a purunguinha adoentada, na época com 4 anos de idade. Quis saber se Chiquita estava aplicando direito o remédio recomendado pelo Dr. Margarido, médico famoso na São Paulo daquele tempo.

“É como eu lhe disse: 1 colher de sopa em 100 [ml?] de água fervida, morna. Que faça bom proveito para a nossa purunguinha, e que ela se liberte logo dessas bolhinhas tão inoportunas, é o que espero.”

Osório ainda dizia que, em vez de Santos, Chiquita, Maria e Benedita (a empregada que acompanhava mãe e filha) deveriam ter se hospedado no Guarujá, “que nesta época não há maleita”. Na última folha, ele deixou preocupações de lado para falar da ausência das mulheres em casa. Declarou saudades de um jeito amoroso, que já parecia distante do tom revoltoso do início da carta de 23 de maio.

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“O ‘Rocambole’ que você aqui deixou está uma delícia. Mandei a metade dele, bem como uma porção de balas, para D. Cândida. Nada levei para Clélia, pois na atropelação da saída, não me lembrei ainda de levar.

Tem feito um frio nestas 2 noites, que não há cobertor que me esquente! Não sei como está para ser! A Vi…i…i….i…da!…

Dê lembranças ao seu pai e à Benedita. A Você, minha muié, muito querida, e à nossa lólótinha, as minhas saudades, beijos e abraços. (São 10 horas! Vou dormir!)”

Renata Oliva, naquela conversa de ônibus, me descreveu a “vovó”, mulher de Osório, como uma mulher de fato saudosa e uma cozinheira habilidosa, diferente da purunguinha, sua mãe, que passou ilesa às tais bolhinhas da infância e também à cozinha de Chiquita. Boa parte das receitas da avó – incluindo a do rocambole que estava uma delícia – acabou se perdendo, da mesma maneira que o caderno que ela mantinha, sumido para sempre, talvez furtado.

Ainda assim, restam algumas receitas manuscritas aqui e ali pela própria mãe, pinçadas de conversas com familiares, ou apenas tiradas da memória. Em um dos e-mails que trocamos desde aquela viagem de ônibus, Renata elencou parte dessas lembranças.

“Você não pode imaginar o que minha avó cozinhava bem: rocambole, empadinhas que desmanchavam na boca, pirulito de laranja (demais!), balas de canela, rosquinhas de nata, pãezinhos de goiabada… Fora o comum, carne, frango, peixe, que era insuperável!! Ah! E um doce de Natal, que chama ‘nozes fingidas‘, que temos a receita, mas, cá entre nós, não tem nada a ver com aquela delícia da vovó. Se você quiser, posso te dar a receita.”

Nozes fingidas?! E ela me deu a receita…

* Em seu blog Quase Pedagógico, Renata Oliva mostra a carta de seu avô Osório na íntegra.

 

5 comentários Adicione o seu

  1. Renata Oliva disse:

    Viviane, está demais!
    Verdadeiro original, e divertido!
    Parabéns, adorei, e me sinto importante por ter dado este material precioso, que você tornou mais precioso.
    Renata Oliva

    Curtido por 1 pessoa

    1. Renata, que bom que você gostou. Precioso mesmo foi nosso encontro! =)

      Curtir

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