Memórias de supermercado: “sírvase”!

Mário Gomes D’Almeida*, nascido em São Paulo em 1925, trabalhava como vendedor na padaria Regência, no Jardim Paulistano, quando uma cliente americana, Mary, lhe contou a novidade que mudaria sua vida. Naquele início de anos 1950, um conhecido dela estava construindo na cidade o primeiro exemplar de um estabelecimento que, nos Estados Unidos, já havia se integrado ao american way of life. Chamava-se supermercado, e estava precisando de bons funcionários.

Como boa parte dos brasileiros, Mário nunca tinha ouvido falar naquele nome. Intrigado, acabou seguindo o conselho da freguesa e procurando o tal conhecido dela, Raul Pinto Borges, que então comandava a Loja Araújo, um açougue que, em vez de atender no balcão, como de costume, embalava os cortes de carne e os deixava à mostra para que os próprios clientes escolhessem aquele que queriam levar para casa. Em pouco tempo, Mário estava empregado – e como gerente – naquele que seria o primeiro (ou segundo) supermercado de São Paulo e do país: o SírvaSe.

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Detalhe de uma das primeiras propagandas do SírvaSe, que prometia vender “muito por pouco” (Folha da Manhã, 11 de novembro de 1953)

Inaugurada em setembro de 1953, na Rua da Consolação, essa grande loja diferenciava-se dos tradicionais armazéns e empórios por vender, em um só lugar, todo tipo de alimento e produtos domésticos, incluindo os de limpeza, por meio do mesmo americanizado sistema self-service já implantado na Loja Araújo; o assim chamado autosserviço era a grande atração. Ainda grafado entre aspas nos jornais, o desconhecido “supermercado” vinha sendo divulgado desde o início daquele ano. Em 23 de abril, uma notícia na Folha da Noite anunciava:

“Autênticos ‘supermercados’ funcionarão em São Paulo
‘Destinam-se a resolver os problemas de tempo e dinheiro das donas de casa’, afirma o sr. Raul Pinto Borges, diretor dos Supermercados Sírvase S. A. – Técnicos brasileiros aplicarão aqui os processos americanos de bem servir ao público.”

No texto, o senhor Raul, patrão de Mário, explicava que seu novo comércio consistia em um amplo empório construído segundo rígidas regras de “higiene e asseio”. As donas de casa, segundo ele, encontrariam ali tudo de que precisavam, “poupando, portanto, seu precioso tempo e dinheiro, pois os ‘supermercados’ são concebidos para oferecer preços sempre uniformes”. Para concluir, Raul dizia que a variedade de itens era tanta que…

“Há mesmo alguns supermercados nos Estados Unidos que já incluem produtos farmacêuticos, revistas e jornais, tudo para oferecer a possibilidade de se comprar o máximo num mínimo de tempo. Como é fácil compreender diante de tantas vantagens oferecidas, os supermercados substituem as feiras, armazéns e principalmente os açougues.”

É certo que hoje, 63 anos depois da inauguração do SírvaSe (vendido na década de 1960 ao nascente grupo Pão de Açúcar, que manteve a matriz aberta até hoje, quase na esquina da Consolação com a Alameda Santos), empórios e açougues sobrevivem, até mesmo em pedantes versões gourmet. Os supermercados também se mantêm, é claro. Não foram “o futuro do Brasil”, como a americana Mary um dia sugeriu ao jovem Mário, mas concretizaram transformações drásticas em nossas maneiras de cozinhar e comer – maneiras que hoje, ironicamente, passam por nova revisão.

Continua…

* Mário Gomes D’Almeida deu esse depoimento ao programa Memórias do Comércio, do Museu da Pessoa, em um já distante novembro de 1994.

 

 

Outras coleções do Lembraria para o Museu da Pessoa:

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