Vestido bem cintado, saia na altura da panturrilha… e cartola

Instruções de leitura: antes de mais nada, coloque Nat King Cole para cantar. Depois, imagine uma cena: meados dos anos 1950 – aquele tempo a que muita gente quando era mais nova e ingênua se referia com um “puxa, queria ter vivido nessa época…”, achando que tudo não passava de um baile dos tempos da brilhantina no clube do bairro. Duas moças de vestido bem cintado, saia rodada na altura da panturrilha, entram no restaurante e pedem uma mesa. (Que caso para contar no Facebook da época, se existisse!)

Até meados dos anos 1950, quando Nat King Cole deixava sem palavras quem o ouvia em interpretações como essa de Fly Me To The Moon (e um sem fim de outras que abduzem e maravilham desavisados no Youtube, seja em show de TV, seja remasterizado…), as mulheres não “podiam” entrar desacompanhadas no restaurante Leite, no Recife. Por desacompanhadas entenda que não estavam sozinhas, e sim sem um homem ao lado. Se eu fosse viva e pudesse escolher, talvez aproveitasse para convidar o Nat para me acompanhar sempre. Ah, o timing.

Mas não era só lá que havia tal restrição. O Brasil não estava exatamente alinhado a um episódio de Mad Men. É provável que mesmo suas capitais mais vibrantes fossem bem mais conservadoras do que determinados lugares nos Estados Unidos ou na Europa. Demorou para as moças andarem por aí sem serem chamadas de mariposa, lembra Vivi Aguiar, que também me mostrou os versos de Samba Triste, de Paulo Vanzolini, para ilustrar um pouco desse tempo em que a mulher era vigiada para não sair da linha e que as menos conformadas e mais independentes que andassem por sua conta corriam o risco de receber o apelido. Mariposa. A maioria ficava mesmo em casa, cozinhando para si e para outros, em alguns casos por falta de alternativa, para agradar ou simplesmente levar os dias; em outros, supervisionavam quem o fizesse por elas. Não saíam dos trilhos sem escolta masculina. Foi assim com a Aurélia, que depois cansou e foi embora.

O Leite, como eu estava dizendo, é um dos restaurantes mais antigos em atividade no Brasil. E, claro, testemunhou mudanças e ajudou a propagar algumas. Fundado em 1882 e comprado pelos atuais sócios em 1956, fica no centro do Recife, perto da Praça Joaquim Nabuco. Talvez você o tenha visto no filme Aquarius. Pois basta fechar a porta atrás de si para deixar lá fora um outro mundo muito mais quente e menos confortável.

A acústica isola e ilude. Tenho a impressão de que também acalma. O ar é leve e fresco. Há um piano de cauda no salão e não é difícil imaginar o instrumental de Fly Me To The Moon, Let There Be Love ou I Was a Little Too Lonely (and You Were a Little Too Late) quando duas moças, talvez parecidas com essas da foto abaixo, entraram ali pela primeira vez “desacompanhadas”. Armênio Dias, um dos proprietários, conta que foi dele a ideia de virar essa página e deixar esse costume para lá.

Você sabe qual é a fonte dessa foto? Por favor nos informe nos comentários
Do tempo em que mulheres sozinhas não entravam (e as roupas eram lindas)

Há algum tempo, no Recife a trabalho, recebi a missão de provar a cartola (doce típico do Pernambuco, dos tempos do engenho, feito de camadas de banana, queijo manteiga chapeado, açúcar e canela). Diziam que era a cartola do Leite a melhor da cidade – imagino que, por isso, seu Armênio não se arrependa de ter corrigido a rota. Ele me contou em uma entrevista dias depois que a primeira coisa que fez quando assumiu a casa foi tirar o doce do cardápio. Achava feio e não gostava. Logo teve de rever a decisão, porque a clientela não ficou contente. Há mais de cinquenta anos, falou, a chapa de aço inoxidável para derreter o queijo manteiga é a mesma. O fornecedor do laticínio também. E vem gente de longe só para comer a cartola. Gilberto Freyre foi um grande fã.

Aproveitei para almoçar e correu tudo bem. Bolinho de bacalhau, beijupirá, molho de camarão. Eu, sozinha. A cartola, uma delícia.

Só que durante toda a refeição eu não consegui:

  1. Tomar um bom espumante, para celebrar por uns instantes a sparkling life (sempre me dá vontade de fazer isso no Recife), porque em taça só serviam do tipo doce (!); e eu estava sozinha, me lembrou o maître, não dava para pedir a garrafa de um brut. É verdade. Não dava.
  2. Ficar de fato sozinha (comigo e com a comida). Olhar para mim e olhar para ela. Comer sem sentir garçom, maître e sommelier, que pareciam eles sim mariposas ao meu redor, preocupados se o guardanapo pensasse em cair.

Percebi no evidente alívio com que me entregaram a conta – “finalmente a malvada”, disse o moço – que sua intenção era me fazer companhia. Eles estavam desconfortáveis porque eu estava sozinha. Estavam com pena de mim, a moça da mesa para um. Seis décadas depois de liberarem a entrada para mulheres “desacompanhadas”… Como é que estamos dizendo por aí? “Eita”. Me deu vontade de cantar que eu não ando só, só ando em boa companhia (a minha). Mas não sou nenhum Nat King Cole. Paguei, sorri, saí. Calor insuportável lá fora.

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