Mesa para um (ou quando Lucullus janta com Lucullus)

A escritora norte-americana M.F.K. Fisher (1908-1992), importante autora de assuntos de comida, publicou no fim dos anos 1930 um artigo chamado On Dining Alone. Saiu em seu livro Serve it Forth. (Sobre o mesmo tema – e ela os associa em An Alphabet For Gourmets – há também A is for dining Alone.)* Aqui, em tradução livre, dois excertos de On Dining Alone. Penso que dizem muito sobre uma ação que de certa forma ainda faz as pessoas virarem a cabeça: entrar sozinho no salão e pedir mesa para um, simplesmente por desejar comer sozinho e tirar proveito da experiência. Isso pode provocar, ainda, um certo sentimento de pena, uma desconfiança do tipo “no fundo, você não está bem; deve se sentir solitário por ter de comer ‘sem companhia'”.

Primeiro, Fisher conta um caso.

“Lucullus, o político romano, ainda muito lembrado por seus jantares de menus elaborados e fabulosamente caros, um dia cansou de ir à mesa com outras pessoas.

Ele pediu uma refeição individual. Quando foi servida, lhe pareceu um tanto desleixada: o vinho estava muito frio e ao molho da carpa, que certamente estava menos suculento do que o habitual, faltava aquele sabor pelo qual seu cozinheiro era tão famoso.

Lucullus franziu a testa e questionou o mordomo.

‘Talvez, talvez’, concordou o funcionário, com uma sequência de expressões respeitosas. ‘Nós pensamos que não havia necessidade de preparar tão fino banquete apenas para meu senhor, sozinho.’

‘É justamente quando estou sozinho’, respondeu o grande gourmet, friamente, ‘que é preciso prestar atenção ao jantar. Nessas ocasiões, você deve se lembrar. Lucullus janta com Lucullus.'”

Depois, a autora comenta:

“Nessas ocasiões, poucos homens percebem que estão comendo em sua própria companhia. Na verdade, eles tentam esquecer essa verdade um tanto assustadora. Leem o jornal ou ligam o rádio, se estiverem em casa. Com frequência, preferem fugir de si mesmos para clubes cheios de amigos ou o restaurante mais barulhento do pedaço, onde se amontoam outros solitários famintos por engolir qualquer coisa entre compromissos apressados.

É uma pena. Uma ocasional refeição consigo mesmo é muito boa para o sr. Fulano. Dá a ele tempo para olhar para si; uma quietude para saborear; uma oportunidade de grelhar o bife de um modo diferente […].”

* Uma coletânea de cinco obras publicadas por M.F.K. Fisher (750 páginas), em inglês, pode ser encomendada por uns 90 a 130 reais, pela internet. Chama-se The Art of Eating. Demora para chegar, mas vale. E há versões para Kindle, para quem é de Kindle. 

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