Saberes (e sabores) guardados: o doce de laranja cantado

É por conhecer a fundo as cantigas de roda de seus tempos de menina e as habilidades de benzedeira, e por gostar de passar esses saberes adiante, que Lucília Francisca de Souza se tornou mestre griô. No depoimento que deu ao Museu da Pessoa, fica claro que para ela cantar é parte atada ao contar sua história. Ao longo da entrevista, ela entoa várias cantigas populares, dessas que não sabemos autor nem data de criação. Entre elas, está um dos trechos mais bonitos de Se essa rua fosse minha.

Para dona Lucília, cantar e descrever uma receita parece ser a mesma coisa. Ela não sabe ao certo como colocou essas cantigas e quitandas em sua memória; provavelmente, o fez de ouvido: as aprendeu sem querer, no cotidiano de sua casa, e as foi alterando no meio do telefone sem fio que é a tradição oral. Para o preparo do doce de laranja, por exemplo, que por ser tão “trabalhoso” parece mais gostoso, a quitandeira inclui no passo a passo não só seus gestos manuais, mas também seu corpo inteiro – “sentar” faz parte da receita tanto quanto “cascar, tirar miolo, cozinhar”.

Se quisermos reproduzir a fórmula que dona Lucília generosamente nos ensina, precisamos então desacelerar o tempo corrido da atualidade para nos sentar e só então descascarmos uma porção de laranjas – sessenta, no mínimo! Em si mesma, dona Lucília é a memória de ações e técnicas que já relegamos há décadas, em favor do doce na compota de vidro “feito em Minas Gerais”, ou Bonne Maman, quem sabe. Ao ouvir ou ler sua receita, fica até difícil de entender; no geral, a língua culinária que falamos atualmente é diferente da que ela aprendeu.

Talvez fosse preciso estar ao lado dela na cozinha, acompanhar seus gestos e assim entender o que de fato é esse doce de laranja. Como isso não é possível, nos contentamos em ouvir o que dona Lucília canta.

DOCE DE LARANJA DA DONA LUCÍLIA

  • “Tem que sentar, cascar, tirar miolo, cozinhar, curtir, trocar a água duas vezes por dia até sair o amargo.
  • Depois é que você vai pôr na calda para fazer o doce, para poder pôr na vasilha e enlatar.
  • E é um doce que você não pode tomar o ponto dele no mesmo dia. Você fez hoje, deixa ele em uma vasilha, amanhã você torna a pôr no fogo, aí você tira o ponto, pode pôr na vasilha e guardar, sabe?
  • Mas que ele é trabalhoso porque você tem que ficar trocando a água dele duas vezes por dia, né?
  • E você pensa que eu faço doce com 1 dúzia de laranja? Não. A menor quantidade que eu faço é 60 laranjas.”

Assista também ao primeiro e ao segundo vídeo desta coleção:

Outras coleções do Lembraria para o Museu da Pessoa:

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