Saberes (e sabores) guardados: o biscoito de vento

Lucília Francisca de Souza é mestre griô e quituteira, ou quitandeira, como a habilidade dela para fazer quitandas (biscoitos e bolinhos para comer junto de café coado) parece sugerir ser o jeito mais certo de chamá-la. Nascida em 1942 na zona rural de Nova Lima, em Minas Gerais, ela passou anos e anos na lida diária da cozinha, preparando receitas que, hoje, descreve como se falasse de obviedades – mas obviedades importantes, contadas com orgulho de cozinheira que domina os modos de fazer.

Para dona Lucília, “um tanto” é uma medida mais do que exata: é o tanto que ela usa há décadas ao entornar a farinha de trigo no angu (e o tanto que ela imagina que todo mundo versado em cozinha como ela conhece). E, assim, a quitandeira descreve, no depoimento que deu ao Museu da Pessoa, o passo a passo do biscoito de vento. O nome é esse, ela faz questão de explicar, porque fica oco – ou “ocado” – por dentro, cheio de ar. E, veja bem, o “de vento” não é o de polvilho. Lá em Minas dona Lucília chama esse último de “papa ovo”. O primeiro leva farinha de trigo e precisa ser enrolado em tamanho farto para se parecer com o que ela aprendeu, ainda menina, a preparar com a mãe.

BISCOITO DE VENTO DA DONA LUCÍLIA

  • “Você tem que pôr um tanto de água, um tanto de gordura na panela. E ponha um tanto de farinha.
  • Mexe aquele angu, põe em uma gamelinha, deixa ele esfriar.
  • Depois você vem com canela, erva-doce, põe ali. Vai deixando a massa esfriar.
  • A hora que a massa estiver fria você começa a ir quebrando os ovos. Aquele angu fica duro, aí você vai quebrando os ovos e amassando.
  • De acordo com o que você viu, que a massa ficou no jeito de enrolar, aí você enrola os biscoitos e põe no tabuleiro. Lá nós enrola é grande. Não gosto de fazer nada pequenininho, assim não, sabe? É, não gosto não. Mamãe me ensinou a fazer grande, então eu gosto de fazer maior.
  • Então enrola ele e põe ele em cima do tabuleiro. E não pode ficar com as pontas finas, porque se ele ficar com as pontas finas, na hora que ele está assando, ele queima as pontas. Ele tem que ficar enrolado igual. Aí quando assa, você vai comer, está ocado dentro.”

 

Assista também ao primeiro vídeo desta coleção:

 

 

Outras coleções do Lembraria para o Museu da Pessoa:

 

 

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