O bife da tia Noêmia

Raimundo Alves de Lacerda vive em Jacarepaguá, Rio de Janeiro. Ele nasceu em 1947. Quando era pequeno, um Chevrolet Impala (quem sabe um Cadillac) o levava, junto de sua mãe e seus irmãos, para um fim de semana de alegria na casa de sua tia Noêmia, mulher do tio Bilô e fazedora de um bife acebolado que virou tradição na família. Hoje, quando Lacerda repete a receita e essa notícia se espalha, é preciso deitar mais pratos na mesa. As visitas se multiplicam. Todo mundo quer.

Eu, mamãe e meus quatro irmãos saíamos na sexta-feira bem cedinho da estação ferroviária de Quintino Bocaiuva até a estação de Santa Cruz – Rio de Janeiro. De lá, pegávamos um táxi, um Chevrolet Impala ou Cadillac, até a casa da tia, pois não passavam ônibus por ali. Tia Noêmia, esposa do tio Bilô, e um grande número de filhos, sobrinhos e outros agregados costumavam nos receber com grande expectativa, pois seria garantido um fim de semana daqueles!

A conversa rolava solta! Muitas brincadeiras e correria pela casa, que era extremamente humilde, mas tinha uma alegria que sempre nos convidava a voltar. A melhor hora era quando a tia começava a preparar o almoço cujo cardápio sempre incluía seu bife acebolado, frito na banha de porco, em frigideira de ferro, com muita cebola e tomate picado e amassado durante a feitura do prato, terminando com um bom jato de vinagre e sal. O cheiro invadia minhas narinas e me fazia salivar a ponto de quase babar! No prato, arroz, feijão, farinha e o bife com muito molho!

À noite, histórias de terror, com certeza! Consolo era que dormíamos em camas improvisadas no chão, um coladinho ao outro. Hoje, o que restou da família chama aquela iguaria de “bife à Noêmia”. De todos os que tentaram imitar a comida da tia, eu consegui chegar mais próximo. Conquanto a família descobre que vou preparar o prato sempre aparecem convidados extras. Tento, puxando pela memória, chegar o mais perto daquele sabor inesquecível.

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Este depoimento deu origem a um verbete em O Dicionário das Comidas Impossíveis, que surge das respostas ao questionário Fatias de Memória.
Clique aqui para contar sua história e nos ajudar a preencher esse relicário.

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