Clara Peeters: a artista que pintou comidas e selfies no século 17

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Quem foi Clara Peeters? Pouco se sabe da vida dessa artista, mas em uma coisa parece haver consenso: ela estava à frente de seu tempo. Clara viveu na Antuérpia, entre o fim do século 16 e o início do 17, no comecinho da época de ouro da pintura holandesa – décadas mais tarde, estariam no auge as obras dos célebres Vermeer (o da moça do brinco de pérola) e Rembrandt (o da aula de anatomia, entre outros inúmeros clássicos). Talentosa com os pincéis, Clara tinha tudo para ser tão famosa quanto seus conterrâneos, não fosse pelo fato de ser mulher e de seus quadros terem circulado nos séculos seguintes como obras de pouca importância.

No tempo de Clara (e ainda por muito tempo depois dela), pessoas do sexo feminino costumavam aparecer nas telas de grandes artistas, e não se posicionar do outro lado delas, como pintoras. Artistas mulheres até existiam, mas, geralmente, só conseguiam ter algum êxito na profissão quando eram filhas de bem-sucedidos artistas homens. Não sabemos se esse era o caso de Clara; o gênero, de qualquer maneira, não parece ter interferido em sua vontade de pintar.

Impedida de usar modelos masculinos para se aperfeiçoar na pintura, um costume que havia sido proibido naquela época, ela os substituía por elementos com que as mulheres eram impostas a estar em contato no dia a dia: queijos, sal, pescados, ingredientes da cozinha. Montava suntuosas mesas com esses alimentos e os cercava de utensílios valiosos (o que pode indicar, apesar de seu nome e sobrenome serem bastante populares, que pertencia a uma classe mais abastada; ou que executava suas obras nas casas de uma possível clientela). E os retratava de forma crua e extremamente realista, em pinceladas precisas e cores vivas.

Clara Peeters foi uma das pioneiras desse tipo de pintura que, apesar de tanta vivacidade, ficou conhecida como natureza-morta e que, séculos mais tarde, por quase sempre mostrar ingredientes e utensílios de mesa de época, serviria também como importante fonte para os estudos em história da alimentação. Em pouco mais de dez anos de atividade, mais ou menos entre 1607 e 1615, Clara pintou cerca de quarenta obras nesse estilo.

E assinou todas elas de forma especial: em vez de usar pseudônimo masculino, como talvez fosse o caso para uma mulher supostamente sem um sobrenome de peso, Clara dava um jeito de incluir sua própria assinatura nos cenários. Em alguns deles, seu nome e seu sobrenome surgem cravados na lateral da figura de uma faca que lembra aquelas então oferecidas como presentes de casamento – e pode indicar que a artista, no ápice de sua carreira, era casada.

Clara não se contentava, contudo, em assinar suas pinturas. Discretamente, ela se autorretratava em detalhes de alguns quadros, na face espelhada de uma taça, na tampa refletora de uma jarra. Era uma maneira que ela encontrava para se autoafirmar como mulher e artista, para garantir que seria conhecida no futuro, ou, quem sabe, para apenas “brincar” com os compradores de suas obras, que podem ter morrido sem nunca terem percebido que penduravam um autorretrato de uma artista mulher na parede de casa.

 

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Clara Peeters e a discreta selfie na tampa de metal de uma jarra de vinho ou cerveja (Acervo do Mauritshuis Museum, Haia)

Desde o dia 25 de outubro, até 19 de fevereiro de 2017, quinze de suas naturezas-mortas integram a exposição El Arte de Clara Peeters no Museu do Prado, em Madri, na Espanha. Seria, creio eu, uma vitória para Clara saber que as pessoas vão poder ver seu rosto quatrocentos anos depois de ela tê-lo disfarçadamente pintado entre os alimentos retratados em suas obras. E mais: seria, para ela, uma satisfação ainda maior saber que é a primeira mulher a ganhar uma mostra só para ela nesse tradicional museu europeu.

Para nós, no Lembraria, observar qualquer um dos quadros dela é uma chance de vasculhar a memória da cultura culinária em que a admirável Clara estava inserida, quatro séculos atrás. Por causa da exposição, o Museu do Prado criou uma animação e um vídeo especial com muitas informações sobre ela, suas obras e a cozinha de seu tempo. Traduzimos trechos interessantes desse conteúdo logo abaixo.

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Natureza-morta com queijos, amêndoas e pretzels, cerca de 1615 (Acervo do Mauritshuis Museum, Haia)
  • “O queijo marrom esverdeado curado é do tipo edam. O maior é um queijo gouda e o que está em cima é um queijo de ovelha triangular, do qual foi cortado um pedaço. Esses queijos eram produzidos, sobretudo, na Holanda do Norte.”
  • “A jarra de cerâmica de Raeren (Bélgica) podia ser usada para beber vinho ou cerveja. Em sua tampa de metal é possível ver o autorretrato da artista [veja o detalhe mais acima].”
  • “A manteiga era parte essencial da alimentação de Flandres. O fato de estar sobre os queijos pode ser uma referência aos excessos gastronômicos, como assinalava um provérbio da época: ‘o queijo e a manteiga são obras do demônio’.”
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Natureza-morta com pescado, vela, alcachofras, caranguejo e camarão, cerca de 1615 (Acervo do Museu do Prado, Madri)
  • “Clara Peeters foi uma inovadora. Este é a primeira natureza-morta com pescados que se conhece e talvez seja a primeira mesmo a ter sido pintada. Anteriormente, já se havia representado peixes em cenas de cozinha e de mercado, mas não de maneira isolada como se fossem protagonistas, quase exclusivos, de uma composição. A artista fez ao menos nove quadros com pescados.”
  • “Nos Países Baixos, comia-se muito pescado, tanto de água doce, que se consumia fresco, quanto de água salgada, que se conservava em salmoura, como arenques. A abundante presença de pescado na dieta se relaciona com a proibição de comer carne durante os dias de jejum: as seis semanas de Quaresma, as sextas-feiras (porque era o dia da crucificação), os sábados (dia de Virgem Maria)…”
  • “A vela apagada pode ser uma referência à velocidade do tempo.”
  • “As alcachofras, praticamente desconhecidas até a segunda metade do século 16, eram consideradas afrodisíacas. Na realidade, são as cabeças de uma flor antes de abrir; ao se deixar brotar, ela se converte em uma flor rosada, vermelha ou púrpura, como se vê em outros quadros de Clara Peeters, que as mostra cortadas.”
  • “Nos séculos 16 e 17, poucas mulheres puderam se dedicar à pintura de maneira profissional. A maioria delas era filha de pintores, em cuja órbita se formavam. Desconhecemos se esse era o caso de Clara Peeters. De qualquer maneira, tinha sido proibido o desenho anatômico, que geralmente se fazia por meio do estudo de modelos masculinos nus, o que condicionava a aprendizagem delas. Por esse motivo, muitas dessas mulheres pintoras se especializaram na pintura das naturezas-mortas.”

 

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