Comer e beber a cidade: na Vila Madalena, antes da boemia

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No mapa da memória paulistana, o clichê que parece ter sempre se encaixado na Vila Madalena é o da boemia. É tão grande o burburinho noturno por lá, e tão frequente o abre e fecha de bares e restaurantes, que essa região colada a Pinheiros, na Zona Oeste, dá a impressão de já ter nascido afeita a uma cervejinha. A história não é bem essa. A “tradição boêmia” da Vila, assim como boa parte das tradições que os departamentos turísticos das cidades costumam criar, não tem nem cinquenta anos.

Ainda entre os anos 1950 e 1960, época em que as fotos acima foram tiradas, o bairro tinha casas modestas, escassas linhas de bonde e clima quase rural. Ruas que se tornariam referência, como a Girassol, a Fidalga e a Wisard, só haviam sido oficialmente registradas em 1939 e mantinham o sossego da quase ausência de carros. Mocinhas vestidas para a primeira comunhão batiam papo na calçada (como mostra a imagem da rua Girassol).

Foi na hipponga década de 1970 que a Vila Madalena começou ficar um pouco mais agitada, sobretudo à noite. Os aluguéis então baratos e a proximidade com a Universidade de São Paulo começaram a atrair artistas e estudantes, que encontraram residência em pensões e casas antigas convertidas em repúblicas – a USP havia se transferido da rua Maria Antônia para a Cidade Universitária, no Butantã, na década anterior.

Quando o pernambucano Robson Cavalcante chegou ainda adolescente a São Paulo, em 1985, a noite da Vila Madalena já mostrava algum movimento. Um lugar em especial, o Bar da Terra, havia feito enorme sucesso anos antes, e empurrado a inauguração de outros, como o Martín Fierro, na Wisard. A fama desse último ganhava musculatura no sucesso de suas empanadas (e também na frequência de vizinhos célebres, como Raul Seixas). O bar tinha, entre os funcionários, o Léo, amigo de infância de Robson.

Foi para o Léo que o Robson ligou quando seus planos de jogar no Santos Futebol Clube deram errado. Robson era jogador do Santa Cruz, no Recife, e veio para São Paulo por causa do tal contrato com o Peixe e que acabou não dando em nada. Do outro lado da linha, Léo o convidou para visitar o bar em que trabalhava.

– Sabe vir pra Pinheiros?
– Rapaz, não sei nem sair do prédio.

Léo foi buscar Robson, então hospedado no apartamento de uma irmã. “Aí, ele veio, e eu comecei a sentir o gosto de São Paulo…” Mal chegou ao bar na Vila Madalena, e já foi contratado e foi logo morar em uma pensão na rua Simpatia. No início dos anos 1990, o proprietário da casa, um chileno boa praça, resolveu arrendá-la para alguns funcionários, entre eles Robson e Léo. A partir de então, os novos donos só fizeram crescer a fama do lugar, já conhecido como é até hoje, Empanadas Bar, e do próprio bairro em que ele virou referência.

Em depoimento ao programa Memórias do Comércio, do Museu da Pessoa, Robson lembrou que, naquela época, ainda tinha gente que se sentia envergonhada de dizer que morava nesse bairro barato, de estudantes. “A Vila Madalena está completamente diferente!”, concorda Ednéa Martins, que também contou sua história para o projeto. Ela tem uma loja/restaurante de alimentos orgânicos, a Alternativa Casa Natural.

Nascida em 1948, em Santa Cruz do Rio Pardo, no interior de São Paulo, Ednéa se mudou com a família para o bairro de Campo Belo, na capital, nos anos 1960. Teve longa trajetória como professora de química antes de abrir o estabelecimento na rua Fradique Coutinho, na Vila Madalena, em 1994. Do período da inauguração, ela se recorda de um entorno tranquilo, com conversas de vizinhos em cadeiras na calçada, e de um burburinho de estudantes e artistas que, segundo ela, era uma gente que, além de boemia, “buscava uma vida mais natural”. “E nisso fomos muito felizes”, afirma. “Como sempre, continuamos lá, firmes.”

 

Complemente a leitura com os outros vídeos da coleção:

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