Comer e beber a cidade: na rua Augusta, a 5 por hora

Álvaro Lopes nasceu em São Paulo, em 1925, e passou boa parte da infância no número 1724 da rua Augusta, onde o pai português comandava a Casa Santa Luzia, empório de ingredientes finos ainda hoje famoso (e, há tempos, transferido da Augusta para a alameda Lorena).

No anos 1930, sentado no degrau da loja, o pequeno Álvaro presenciava o vaivém do bonde, do homem que acendia os lampiões de gás na calçada, do vendedor de catavento que só passava aos domingos, das cabras de leite que, todos os dias, subiam e desciam a passos vagarosos, tocadas pelo leiteiro. “Você ia com o copo, tirava o leite e tomava na hora.”

Entre 1940 e 1950, o comércio do pai de Álvaro começou a ganhar cada vez mais vizinhos que também vendiam artigos caros, de luxo. A rua simbolizava a expansão comercial de São Paulo e atraía principalmente lojas de roupa fina, que saíam da Barão de Itapetininga e da Praça da República para se agrupar perto da avenida Paulista. Esta última, aliás,  em breve teria seus antigos casarões da elite do café demolidos para dar espaço aos prédios comerciais (o Conjunto Nacional, misto de galeria e apartamentos residenciais, seria erguido na esquina com a Augusta em 1956).

Na região dos Jardins, a tranquilidade ainda imperava, mas uma confeitaria aqui, outra lojinha ali já iam abrindo as portas, e os cinemas, até então restritos ao Centro, começavam a inaugurar salas no bairro. Para oferecer lanches a quem saía da sessão do Cine Paulista, o pai de Roberto Vicente Frizzo criou, em 1956, o Frevo, na rua Oscar Freire.

Nascido em 1945, Frizzo lembra-se da década de 1960, quando a “geração transviada” se juntava na Augusta, “aquela história de lambreta e suéter nas costas”. Era a Augusta dos 120 por hora, dos pegas de carros e das loucuras feitas com os “carangos” (como as “roletas russas”, em que se atravessa os cruzamentos em altíssima velocidade). Era a Augusta de moças e moços – brotos e pães – que ouviam rock e bebiam Coca-Cola de canudinho.

***

Aberta no fim do século XIX como passagem para os trilhos do bonde puxado a burro, em direção à avenida Paulista, a centenária rua Augusta conta, hoje, outras histórias – a dos inferninhos, a da prostituição, a das casas noturnas, a dos botecos sujos, a dos cinemas de rua mais frequentados da cidade, a do vaivém de hipsters e modernosos madrugada afora… Virou, assim, um personagem paulistano.

Tom Zé, que compôs algumas das mais intensas canções inspiradas pela capital paulista, parece ter se encantado por ela (ouça abaixo). A propósito: o nome dela não foi nenhuma homenagem a alguma senhora da elite local (como aconteceu com a baronesa Maria Angélica de Souza Queiroz de Barros, cujo segundo nome “corta” os bairros de Santa Cecília e Higienópolis). A rua é Augusta, ao que parece, por causa de suas qualidades: a augusta, digna de reverência.

Complemente a leitura com os outros vídeos da coleção:

* Os depoimentos de Álvaro Lopes e Roberto Vicente Frizzo foram dados ao programa Memórias do Comércio, que o Museu da Pessoa desenvolve em parceria com o Sesc desde 1994.

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